Recentemente, compareci à celebração das Bodas de Ouro matrimonial de um casal amigo. Cinqüenta anos de união conjugal. Meio século de existência um ao lado do outro. Nenhum jornal ou canais de TV estiveram presentes ou noticiaram tal acontecimento. Mas ali, à minha frente estava um casal transbordando de alegria cercado pelos familiares e amigos.
Acabada a festa, voltei ao meu lar e pus-me a perguntar. O que faz um casal permanecer unido, depois de uma longa caminhada de muitas lutas, adversidades, dores e perdas? Seria o amor eterno que eles juraram ter quando jovens? Difícil responder. A convivência, a participação recíproca nos segredos, a rotina e mesmo a monotonia de uma igual presença basta para destruir as ilusões do amor eterno. Existirá o amor, enquanto houver mistério, expectativa e saudade.
Depois teremos que nos suportar, aceitando defeitos e perdoando impertinências. Então perguntamos o que ficaria do amor? Do amor fica “a amizade”. Esta sim pode ser eterna. Esta conserva os amantes unidos, quando o fogo da paixão retorna à cinza. Esta bastaria para trazer felicidade a todos os homens. O amor é muito circunstancial, por demais sublime para que possa ter uma existência corriqueira nos problemas humanos. Não somos pessimistas, mas não cremos no amor folhetinesco dos romances nem das tragédias. Se existiram, existiram enquanto houve proibição, luta e com isso mistério e expectativa. Este é o amor de Romeu, de Dom Quixote, de Dom Juan, de Abelardo, e quem sabe de Dante, de Petrarca e de Camões....
Mas tomemos o homem amalgamado pela vida, o homem com os pés na terra, existindo realmente e não nefelibaticamente como os grandes apaixonados. Neste o que vamos encontrar dando alento à vida, dando entusiasmo aos sonhos e fazendo-o voltar ao recesso de seu lar é a amizade, a amizade pela mulher, pelos filhos. A amizade é mais patente, mais crua, mais persistente e vamos dizer mais humana, porque é mais geral, mais cotidiana, mais de todos. A amizade não é de exceção. Não é de literatura. Não é de sonho e não se alimenta de mistério. Existe sempre e pode ser eterna.
O amor deve ser preservado para o sublime, e essa sublimidade não é própria dos sentimentos que precisam durar sempre, vencer as dificuldades da vida e enfrentar as circunstâncias da sociedade e do semelhante. Não. Não é desilusão, acreditamos demais na amizade, porque queremos acreditar no homem. Queremos aceitá-lo como ele é, cheio de defeitos e incoerências, pleno de insatisfação e muito parcial na sua maneira de sentir. A ele dedicamos a nossa amizade. Assim poderemos perdoar, compreender, reconciliar, esquecer sem que seja ridículo nem definitivo. O amor tem o sentido da explosão, destrói tudo o que possa existir antes ou depois para viver enquanto dura a incandescência do fogo e da claridade.
Essa é a nossa maneira de ser amigo... principalmente aceitando o nosso semelhante como ele realmente é. Não procuramos fabricar personalidades para fazê-las nossos amigos. Não. Qualquer ser em qualquer condição apresenta estupendos recursos para ser nosso amigo. Depende de nós. Depende de sabermos descobrir-lhes as virtudes, de aceitá-las enfim. A amizade, quando verdadeira, é como Deus: não acaba nunca!
O autor, Gino Crês, é professor.