Cultura

Artigo: O olhar de Maria


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As lembranças mais lindas de minha infância, sem dúvida alguma, são aquelas ligadas às comemorações dos Natais maravilhosos que meus pais preparavam. As luzes, as cores e as melodias enchiam nossa casa de alegria, mas entre tantos enfeites e atrativos o presépio era o que mais me intrigava.

Enquanto mamãe e meus irmãos mais velhos cuidavam da montagem, nós, os menores acompanhávamos atentos.

De todas as peças do presépio, a que mais me atraía era a Virgem Maria. Tomava-a, cuidadosamente, nas mãos e me encantava com a sua expressão. Via tanto carinho, tanto amor, mas ficava comovida porque havia também tristeza e melancolia.

Cheguei a perguntar ao meu pai porque havia tristeza naquele olhar e ele, depois de observar a imagem, abraçou-me comovido explicando que talvez a mãe de Jesus “só estivesse cansada da viagem”.

Ao longo dos anos, sempre me surpreendia olhando intrigada para o rosto da pequena figura e, quando já adulta, após o falecimento de minha mãe, quando a casa dos meus pais foi desmontada, dentre as pequenas lembranças que trouxe comigo, estava a imagem de Maria do velho presépio e seu triste olhar.

Hoje aprendi que a vida com suas alegrias e dores, muitas vezes, nos responde perguntas não respondidas na infância.

E foi assim, da minha própria dor, ao perder a minha filha Aninha, que pude entender o olhar de Maria. Pobre mãe, do seu pacto com Deus, ao dar à luz o pequeno Jesus, já sabia que começava a contagem regressiva para a dor suprema da perda do seu filho amado, nos suplícios do calvário.

Foi assim que entendi o triste e melancólico olhar, daquela pequena imagem que tem me acompanhado a vida toda.

A autora, Josefina de Campos Fraga, é advogada, escritora e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte.

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