Ano novo, vida nova para a economia brasileira. Mais do que uma esperança para 2004, essa é uma expectativa compartilhada por governo, oposição, economistas e empresários. A redução das taxas de juros e medidas de incentivo ao consumo devem interromper o período de estagnação econômica de 2003 e o Brasil pode crescer 3,5% neste novo ano, ou até mais do que 4% como apostam alguns, o que não ocorre desde 2000, quando o Produto Interno Bruto (PIB) teve alta de 4,4%.
O secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Otaviano Canuto, confirma esta expectativa positiva. “O ano de 2004 é do investimento, que será o fermento que fará o bolo crescerâ€, disse, apostando em um crescimento de “pelo menos†3,5%. “O ano 2004 vai ser melhor do que 2000, porque os efeitos positivos da mudança de regime cambial em direção ao câmbio flexível já estão maduros hoje para se expressarem. Tanto que temos agora menor volatilidade cambial e um melhor perfil do balanço de pagamentosâ€, avaliou Canuto, descartando riscos que possam comprometer essa trajetória.
“O pior já passouâ€, reforça o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, alertando contra o otimismo exagerado. “Se o País conseguir 3% a 3,5% com uniformidade, sem oscilações, não está ruim.†A média de crescimento do PIB nos oito anos do governo FHC foi de 2,6% do PIB, com muitas oscilações decorrentes de crises externas e internas.
Nesta virada de ano, a produção industrial está crescendo estimulada por uma recuperação do consumo que se apoia na melhora do crédito. Os indicadores que mostram essa recuperação embutem uma outra informação vital: a inflação está absolutamente sob controle, depois de ter assustado o governo no início de 2003. Em outubro, o IPCA foi de 0,29%, praticamente um décimo dos 2,25% de janeiro. Nas pesquisas que o Banco Central faz semanalmente com 80 instituições financeiras, a expectativa é de que o IPCA de 2004 seja de 6%.
O economista-chefe do banco HSBC, Alexandre Bassoli, lembra que se o IPCA de 2004 corresponder de fato às previsões atuais dos analistas, o governo Lula conseguirá cumprir a meta de inflação fixada para o ano, de 5,5% com um intervalo de tolerância de 2,5 pontos percentuais. Será uma façanha, porque as metas inflacionárias dos últimos três anos estouraram.
Fim da desconfiança
Neste novo ano, o declínio da taxa de juros deve seguir um ritmo mais lento do que em 2003. No 1º trimestre do ano passado, os juros bateram em 26,5% para enfrentar a crise de desconfiança dos investidores que veio com a eleição do PT para a Presidência da República, mas a taxa foi reduzida para 17% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de novembro.
À medida que o governo Lula propôs as reformas tributária e da Previdência e mostrou que faria “mais do mesmoâ€, mantendo os pilares da política econômica do governo FHC (austeridade fiscal, compromisso com inflação baixa e câmbio livre), o risco Brasil, que mede a desconfiança dos investidores em relação ao País, despencou do pico de 2.436 pontos básicos para o patamar dos 500 pontos básicos. A recuperação da credibilidade, aliada ao controle da inflação, permitiu os cortes dos juros.
No final de 2004, os analistas prevêem que os juros básicos estarão em 14,5%, embora alguns mais otimistas, como o economista-chefe do banco Credit Suisse First Boston, Rodrigo Azevedo, já fale em 13% e sugira ao Banco Central que continue a usar a tesoura. Quando se discute qual será o ritmo desses cortes, a LCA Consultores alerta que os rumos da economia dos Estados Unidos são fundamentais para qualquer projeção futura. Embora espere ajustes na economia norte-americana, a consultoria acredita que eles só virão em 2005 para não atrapalhar o projeto de reeleição do presidente George Bush. Se ocorrer uma mudança brusca ou um choque externo, o governo pode ser obrigado a elevar os juros.
“Teoricamente é possível um crescimento uniforme por alguns anos, desde que o País não sofra novos choques internos e externosâ€, afirma o economista Celso Martone, professor de economia da Universidade de São Paulo. Do contrário, a economia voltaria a patinar. Ele lembra que, ao longo dos anos 90, a cada 18 meses, o Brasil enfrentou um choque.
Para enfrentar essa fragilidade externa, o Brasil ainda contará em 2004 com um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que garantirá um empréstimo ao País se surgir uma crise. As linhas gerais do acordo prevêem, mais uma vez, “mais do mesmoâ€. Ou seja, o Brasil terá de produzir um superávit primário (o que resulta das receitas descontadas as despesas fora as despesas com juros) de 4,25% em 2004, assim como fez neste ano, o que limitará a capacidade de investimento e de gastos do governo Lula.