Perspectivas 2004

Desempenho de Lula será essencial nas urnas em 2004

Cida Fontes, Ana Paula Scinocca e Elizabeth Lopes
| Tempo de leitura: 4 min

Os maiores desafios políticos do governo em 2004, após a aprovação das reformas e a consolidação do ajuste fiscal, estarão fora do Congresso. A sociedade cobrará os resultados da tão aguardada recuperação da economia, com crescimento e geração de empregos, além de mais investimentos na área social. O desempenho do segundo ano da administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será fundamental no primeiro teste eleitoral desta administração, com as eleições municipais em outubro. A estratégia do PT é eleger mais de 400 prefeitos para se tornar um partido mais robusto e competitivo e manter-se no poder federal em 2006, quando ocorrerão as próximas eleições presidenciais.

O cientista político Fábio Wanderley Reis, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), avalia que a legenda passou por um amplo aprendizado no primeiro ano como governo federal, ao atuar de maneira ortodoxa na economia, mas terá de conciliar a gestão macroeconômica e a busca por resultados mais expressivos nesta área com a agenda social, marca do PT que levou a sigla, em grande medida, ao comando do País. “Agora, o PT tem de fazer isso sem abandonar o que deu marca ao partido. O grande desafio será o próprio PT, será manter a fidelidade aos objetivos”, diz Reis.

Enquanto o PT pretende se firmar politicamente no segundo ano de gestão, a oposição tentará mostrar que ainda é alternativa de poder. Acuado pelo discurso pró-reformas que teve de assumir em 2003, o PSDB promete sair desse embaraço para assumir um comportamento mais oposicionista. Entra o ano revigorado com a eleição do ex-senador José Serra (SP) para o comando do partido, justamente o adversário de Lula na sucessão presidencial. Uma referência nacional, Serra pode dar novo rumo ao PSDB, adotando uma conduta mais crítica e consistente.

“Mesmo com erros, o governo Lula ainda é uma alternativa melhor do que o retorno do PSDB e PFL ao poder”, diz o líder do governo na Câmara, Aldo Rebelo (PC do B). Na mesma linha de Lula, Rebelo acha que o governo conseguirá gerar empregos e investir em 2004. Isso se reverteria em votos. “A economia ainda não está com musculatura suficiente para correr uma maratona”, questiona o deputado tucano Eduardo Paes (RJ), certo de que o governo agirá com cautela na economia para não pôr em risco o projeto de reeleição de Lula em 2006.

Para enfrentar o PSDB e o PFL nas urnas e se aproximar mais do centro político, o PT vai pegar carona no PMDB, detentor da mais poderosa máquina partidária e que, a partir de janeiro deve participar, efetivamente, do primeiro escalão do governo. Poderão ocorrer acordos eleitorais, como uma eventual dobradinha PT/PMDB para a reeleição da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), ou uma chapa do prefeito de Goiânia, Pedro Wilson (PT), com o deputado Luiz Bittencourt (PMDB-GO). O presidente nacional do PT, José Genoíno, atua nos bastidores para evitar disputas internas e tentará ampliar a aliança com os partidos aliados. “Se houver guerra local, vamos evitar que respingue na aliança nacional”, diz, ressaltando que as alianças só serão discutidas no primeiro semestre de 2004.

Agenda

Paralelamente às alianças eleitorais, o Legislativo cumprirá uma agenda parlamentar menos traumática e menos trabalhosa em 2004. A discussão da reforma política estará concentrada na Câmara, mas só entrará em vigor em 2006. “Nada será feito para pôr em risco o que o governo consolidou na sua base política”, disse o deputado Paulo Rocha (PT-SP). Um tema polêmico é a reeleição dos presidentes da Câmara e Senado. Ainda é uma iniciativa que desagrada tanto a setores do PT quanto dos demais partidos.

A data do envio ao Congresso da reforma trabalhista e sindical é outro tema que não tem convergência. Uma idéia é cuidar apenas da parte sindical em 2004, deixando os direitos trabalhistas para outra fase. Outra tendência é deixar tudo para 2005 para que se possa ter um ano político mais tranqüilo. Mesmo assim, não há entendimento. Outros projetos estarão em discussão, como o marco regulatório e a Lei de Falências. São propostas que têm interesse na economia, mas não geram confrontos políticos internos, comparado ao clima polêmico e tumultuado de 2003, que pôs o PT em choque com o próprio PT. “Será um ano politicamente melhor e o governo terá condições de fazer realizações”, previu o vice-líder do governo na Câmara, Renildo Calheiros (PC do B-PE).

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