Perspectivas 2004

Perspectiva de aproximação do País com a União Européia é positiva

Vladimir Goitia e Regina Cardeal
| Tempo de leitura: 4 min

O Brasil entra em 2004 envolvido em duas grandes negociações comerciais no panorama internacional: de um lado, a aproximação do Mercosul com a União Européia (UE), e, de outro, a construção da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que apontam para desfechos significativamente diferentes. As conversações com a UE passaram a ter perspectivas mais positivas após a definição, no início de novembro passado, em Bruxelas, de uma agenda concreta de discussões para 2004. Ao contrário, a última reunião formal da Alca, realizada poucos dias depois em Miami, apresentou poucos avanços e não deixou expectativas promissoras para o ano que se inicia.

Mesmo assim, o Mercosul tem poucas chances de estabelecer um canal de livre comércio com UE antes de fechar um pacto no âmbito da Alca, acredita o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda. Isso por conta da tradicional postura reativa da Europa às iniciativas dos EUA no campo do comércio. “A UE só negociou com o Chile depois que este fechou um acordo comercial com os EUA”, afirma Lacerda.

O diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Gomes de Almeida, tem opinião semelhante. “A Alca é o carro-chefe. As negociações do Mercosul com a UE vieram a partir dela e prosseguem em função da Alca”, opina. Por esse raciocínio, um esvaziamento definitivo da Alca poderia tirar a atração do mercado ampliado das Américas que ajuda a manter a UE na mesa de negociações com o Mercosul.

Embora as negociações no âmbito da Alca não tenham mostrado resultados significativos, tanto Gomes de Almeida quanto Lacerda analisam com uma ótica otimista os passos que foram dados na reunião de Miami. O diretor do Iedi afirma que Miami “limpou os empecilhos da agenda” e deixou claro que o centro das discusssões em 2004 será a questão do acesso aos mercados. â€œÉ o que realmente importa para o comércio”, diz ele.

Lacerda não descarta que, dentro da proposta mais restritiva esboçada em Miami, seja fechado um acordo para a Alca no prazo previsto inicialmente, que é janeiro de 2005. O acordo seria apenas o início da trajetória para que todos os países cheguem à tarifa zero num prazo de 15 a 20 anos, segundo ele. O presidente da Sobeet ressalta ainda que é importante que o Brasil tenha um projeto de política industrial e submeta as negociações da Alca a este projeto, e não o contrário.

“A política industrial não pode ficar na dependência da Alca", afirma Lacerda. Para ele, é preciso que se defina antes o que o governo quer para o País. Nesse sentido, ele considera um erro conduzir as negociações com base em ganhos e perdas para setores em particular. “A Alca tem de resultar num ganho global para o País”, diz, acrescentando que não teme o isolamento do Brasil nas negociações comerciais.

“O destino do Brasil é ficar isolado, já que não há nenhum país com o porte brasileiro para contrabalançar o peso dos EUA nas negociações”, acrescenta. Segundo ele, México e Canadá já estão integrados à esfera dos EUA e o único parceiro que pode ser “cooptado” pelo Brasil é a Argentina.

Concessões

O diretor-presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) Marcos Sawaya Jank, avalia que a Alca caminha para acordos “à la carte” em que cada país poderá fazer o que quiser e os Estados Unidos poderão jogar seu poder para impor acordos bilaterais ao estilo “something for nothing” (pouco coisa em troca de nada). “Miami mostrou que a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta”, diz Jank.

O empresário Roberto Teixeira da Costa faz a mesma avaliação de Jank. “Ficou muito difícil acreditar em uma retomada das negociações, mesmo que os 34 países tenham se comprometido a reiniciar o diálogo a partir de fevereiro”, diz Teixeira da Costa. Ele acredita ser quase impossível que Washington faça concessões significativas nos temas mais sensíveis para a América Latina no decorrer de 2004, quando serão realizadas as eleições presidenciais nos EUA.

Ricardo Sennes, diretor executivo da Prospectiva - Consultoria de Assuntos Internacionais, acredita também que o resultado de Miami deixou claro que será muito difícil arrancar concessões dos Estados Unidos. Ele afirma, entretanto, que o Brasil perdeu poder de barganha ao não aceitar negociar os chamados “temas quentes”. Para ele, a janela de oportunidades ficou totalmente comprometida. “O País decidiu não fazer concessões, mas também não vai se beneficiar de nada”, afirma Sennes.

Qualquer um dos acordos, no entanto, será importante para o Brasil. E os números mostram isso. Se a Alca viesse um dia ser concretizada, englobaria 800 milhões de pessoas, com um PIB de aproximadamente US$ 13 trilhões. Já o acordo entre o Mercosul e a União Européia significaria cerca de 650 milhões de potenciais consumidores e um PIB de pouco mais de US$ 9 trilhões.

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