Perspectivas 2004

Futuro exige prefeito gestor


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Jornal da Cidade - Qual é o perfil político e administrativo ideal que deve ter o novo prefeito de Bauru?

Reinaldo Cafeo - Eu entendo o seguinte: dadas todas essas limitações que existem hoje do ponto de vista orçamentário, as demandas públicas são cada vez mais crescentes porque há um nível de conscientização mais forte da organização da sociedade.

Na minha visão, nós estamos inaugurando um novo perfil de político. Sai o perfil populista e entra o perfil gestor. Essa questão da escassez é a tônica. Você tem um limitado orçamento com verbas vinculadas, mas que, apesar da vinculação, você deverá ter capacidade de gerenciamento.

Neste momento, você vai ter que ter muito mais capacidade de gerenciar a cidade, do ponto de vista de alocação desses recursos. E, fundamentalmente, a capacidade de fazer alianças.

Essas alianças que vão surgir não deverão ser alianças por iniciativas isoladas, mas dentro do ponto de vista estratégico do que o município quer. Está mais que claro que, como o orçamento é limitado, as demandas são maiores.

Além da capacidade de gerenciar, você tem que compartilhar com a sociedade. E aí entra na esteira o Sebrae, o Sincomércio, a Associação Comercial, o Ciesp, entra na esteira dos sindicatos dos trabalhadores, que são organizados e têm recursos.

Tem que ter alianças com as universidades. Nós temos hoje 22 mil universitários. Se nós somarmos com o pessoal de pós-graduação, isso vai para 25 mil, 28 mil pessoas. Ora, você tem um potencial pensante. E aqui não é elitizar o discurso. É, na verdade, pensar nas soluções concretas, que vai permitir lá na frente, as soluções melhores.

Eu entendo que a universidade pública tem um papel importante também, além da privada. Por quê? Porque hoje você tem lá vários trabalhos de conclusão de curso, de dissertações de mestrado, teses de doutorado que podem convergir para a comunidade local.

Ao invés de estar fazendo projetos, para pensar como o homem vai chegar na Lua, vamos pensar o que concretamente pode ser feito aqui. Isso estimulado, o setor privado terá também como dar a resposta. Para mim, o perfil é esse. Ele vai herdar praticamente um orçamento já comprometido.

O máximo que o Nilson vai conseguir fazer, se for ele, é rolar a dívida, criar capacidade para alongar. Claro que se isso for alongado por um prazo adequado, você dilui o impacto para 2005, mas esse prefeito vai ter que saber de onde vem essa natureza do recurso, aplicar adequadamente no sentido da máquina, criar condições de motivação, que vai passar por melhor remuneração, por treinamento, aperfeiçoamento, e capacidade de administrar.

Para mim, é o gestor contra o popular. E esperamos que o gosto da sociedade consiga entender isso porque também o popular, quando tem estratégias adequadas, às vezes um discurso próprio, pode motivar. Portanto, não pode ser menosprezado.

Walace Garroux Sampaio - O prefeito terá que ser, além de administrador, um grande político, no sentido de se relacionar com o governo do Estado, com o governo federal e trazer verbas. Bauru tem uma carência muito grande, que é não ter um deputado federal. Você pode ter alianças com um ou com outro, com vários até, mas para defender o interesse da terra tem que ser alguém da terra. Está errado o modelo. Não devia estar lá brigando por verbinha pra lá e pra cá, de deixar uma coisa técnica, pouco importa, mas é quem está brigando é que está trazendo. Eu acho que além desta capacidade que ele tem de ser administrador do município ele terá de ser um grande político. E uma medida concreta que eu acho fundamental para Bauru, e aí é uma coisa que a gente fala já há muito tempo, é o planejamento do município. Quer dizer, o Plano Diretor de Bauru prevê um órgão de planejamento municipal. Nós tivemos a oportunidade, através do Comtur e de outras experiências de revitalização, de conhecer outras cidades, especialmente Curitiba, cujo modelo deve ser seguido por Bauru. Temos que ter um órgão enxuto que cuide do planejamento da cidade, que respire planejamento. Em Curitiba, você respira arquitetura. Enquanto isso você tem aqui uma Secretaria de Planejamento, que se ocupar 5% do tempo dela e dos recursos planejados, é muito. É a mesma secretaria que cuida para ver se tem monte de terra na calçada da obra, que fiscaliza camelô, enfim, cuida de um mundo de coisas que você não sente o planejamento. E para Bauru isso é fundamental. No primeiro governo do Nilson houve um compromisso dele em fundar o Instituto de Planejamento Urbano de Bauru, mas acabou não se concretizando. Isso é fundamental para que haja planejamento na cidade, para que alguém ou um grupo pense o município amanhã. Eu gostaria muito disso, desse perfil de administrador que vai investir naquilo que o município pode fazer, para que ele faça com a melhor qualidade. Do político que vai ter que se articular e trazer verbas. Vamos lembrar sempre do Alcides Franciscato, que era o grande mercador das verbas públicas; trazia o que tinha por aí. Isso precisa ser retomado. No campo mais micro, a parte do planejamento dissociada do órgão do Executivo, para que um núcleo pensasse Bauru planejada, para que a gente tivesse amanhã, para as novas gerações, menos problemas do que enfrentamos.

Roque Ferreira - Eu considero justíssimas todas as colocações que foram feitas aqui. Entretanto, qual seria o perfil ideal desse prefeito? Na minha opinião, eu me vejo numa situação extremamente difícil, porque eu considero isso uma utopia irrealizável. O que determina a possibilidade de um bom ou mau prefeito é o seu programa. E nós temos que discutir um programa que vai agradar uns e desagradar outros. Na minha opinião, nós teremos que ter um prefeito que tenha uma primeira qualidade: a de investir em conflitos locais para romper o desequilíbrio. E, ao mesmo tempo, ter uma grande capacidade de articulação no sentido de vencer minimamente as pequenas demandas sociais que estão colocadas. Eu digo mínimas, porque sei que ninguém vai conseguir atender a uma grande demanda se for mantida a base da política econômica gestada pela aristocracia palaciana que está lá no Banco Central. Porque se for mantida a mesma base econômica, pode eleger o melhor prefeito. Na realidade, vai ser o exercício do mito de Sísifo, a teoria do trabalho inútil. Agora, é possível mudar a realidade de Bauru? Eu acho que é, mesmo com toda essa crise. Nós vamos ter que ter um prefeito que seja capaz de adotar medidas que vão desagradar alguns setores da cidade. Os setores que têm melhor e mais qualidade de vida. Este setor vai precisar entender que, para sobreviver, terá que ter uma responsabilidade de permitir que aqueles setores que nada têm - e que a cada dia cresce mais - possa ser recuperado dessa faixa letal que está envolvido na sociedade. E como que você faz isso? Com medidas públicas. A situação no Brasil, em Bauru só não está pior por causa da grande capacidade de solidariedade das pessoas. E a falta de exercer a solidariedade nós vimos agora nas campanhas do Natal Sem Fome e do agasalho, que arrecadaram menos. Por que se arrecadou menos? Por que as pessoas se tornaram más? Não. É porque a capacidade de doar diminuiu. O prefeito vai gestionar a cidade sabendo que terá conflitos. Ninguém vai iniciar uma revolução social, pelas bases de um município. Mas tem que se fazer uma revolução na forma de se gerir a cidade. E aí cumpre um papel: ele tem que ter é capacidade de diálogo, de mediação. Vai ter que saber dialogar, vai ter que saber ouvir, vai ter que saber criar instrumentos por onde possa sentir o nível de necessidade da população. E quando eu disse que ele terá que ter uma capacidade de gerir conflitos é porque vai ter que decidir entre o objetivo que atenda determinados interesses e contrarie outros. Não tem jeito de fazer determinadas mediações. E aí a sociedade organizada é que vai estar fazendo a disputa pela hegemonia desse governo. E é legítimo que todos os atores sociais se organizem. Eu falo sobre o ponto de vista do interesse dos trabalhadores. Eu não poderia falar de outra forma. Eu acredito que a partir do momento em que você melhorar a qualidade de vida da classe trabalhadora, mesmo dentro desse sistema perverso, brutal, incivilizatório, que é o sistema capitalista, também presente em Bauru - não adianta a gente querer esconder isso -, a qualidade de vida das pessoas melhora. E é um instrumento, uma alavanca para mudanças de natureza social. Agora, nós vamos ter que ter esse prefeito ousado. Ousadia é uma questão fundamental. A população terá o poder de decidir o prefeito que a gente precisa. A maioria do povo não é ignorante. Ele não vive num estado de minoridade política; ele tem o senso político. Eu tenho o meu perfil de prefeito ideal, mas acho que com todas essas experiências a população de Bauru vai conseguir fazer uma boa escolha. Mas, essencialmente, eu acho que nós temos que ter um prefeito que seja corajoso, mesmo que não seja da minha opinião política. Que seja audacioso, mesmo que não seja da minha opinião política. Que seja corajoso e que tenha a capacidade de investir em conflitos, porque quando você investe em conflitos, buscando no investimento do conflito um salto de qualidade, você avança. O que nós menos precisamos é da mesmice, é de choraminguela. Não tem que chorar nada. Todo mundo que vai ser candidato a prefeito sabe que vai pegar uma crise brutal. Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento. Se a coisa estivesse tão ruim, nós viveríamos um absurdo histórico, ou seja, nenhum partido lançaria candidato a prefeito. Não estou fazendo a defesa de um programa de governo ou não, nem de um partido ou não. A defesa de um programa de governo eu vou fazer aonde eu tenho de fazer, no lugar certo, na hora certa, com as disputas da hegemonia da sociedade. Mas, independente de quem seja o prefeito, se fosse um fascista, ou um nazi-fascista candidato a prefeito, e que defendesse todas as posições nazi-fascistas, ele teria que ser ousado, corajoso para aplicar essa política sob um ponto de vista local.

Célia Retz - Eu gostaria de falar, não sobre minha opinião pessoal, mas como eu trabalho com pesquisas de opinião, sobre o que eu acho que a população quer. As pesquisas de opinião apontam que a população quer um gestor. Um gestor que consiga agregar, que consiga entender as demandas dela, que ela quer que escute, inclusive que ela tenha voz, que ela possa ser escutada, a comunidade como um todo, não só um grupo de interesse. A comunidade fala numa série de características: que ele seja honesto, que a gente possa acreditar nele, que ele tenha uma memória, ou seja, que ele tenha uma tradição que a gente possa saber qual é. O que tem acontecido com a população é que aparecem pessoas novas. E a população acredita no que elas falam e não tem assim uma transparência. Porque a tradição da pessoa, ou seja, a memória dela, como a pessoa não conhece, eles acreditam nela. Na realidade, toda pessoa tem a sua memória, você tem um colega, um amigo de escola. Quando é essa pessoa que está falando, você sabe até que ponto você pode acreditar nela. Se ela está falando uma coisa, se ela é uma pessoa que pode chegar atrasada, se ela é pontual. É a memória dela. E como a gente não tem uma memória de político, a população fica andando em ovos. Ela não consegue perceber as qualidades de cada candidato, porque só vão aparecer os candidatos no momento da eleição. E aí, não existe aquela memória para que ela tome uma decisão. A população fica meio alicerçada pelos meios de comunicação, por propaganda. A gente vê isso até com criança, não é? A criança pega o slogan da televisão e comenta. A complexidade tem que vir com o tempo para a população. Esse ponto é que a população está se sentindo sem condições para uma avaliação. Porque ela não tem essa memória dos políticos. Quando a gente faz a pesquisa percebe que as pessoas nem sabem quem vai ser o candidato.

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