Perspectivas 2004

Na trilha das potencialidades


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Roque Ferreira - Na minha opinião, Bauru sofre uma crise de identidade. Eu acho que Bauru está como a jovem que acreditou ardorosamente no primeiro amor, se dedicou a ele de maneira brutal, vigorosa e se sentiu abandonada e ela agora procura uma nova identidade. É uma brincadeira, mas ela procura uma nova identidade. Bauru sempre foi uma cidade que teve uma característica e tradição na prestação de serviços públicos. Nós nunca tivemos uma tradição industrial muito grande. Quando houve esse processo de mudança nessa concepção de mundo, com esse processo de privatizações, de destruição de serviços públicos, isso trouxe um impacto brutal para Bauru. Muitos postos de trabalho foram perdidos aqui em Bauru as privatizações dos bancos, da ferrovias e de outras áreas. Mas eu vejo perspectiva de Bauru achar a sua vocação. Hoje, a característica de Bauru é bastante plural. Mas acho que a educação, em virtude das universidades, é uma vocação interessante. Acho também que Bauru poderia se dedicar mais ao entretenimento. O público universitário que vem aqui para Bauru tem carência de entretenimento. Eu acredito que realizando investimentos em serviços públicos nós podemos recuperar essa capacidade da cidade. Mas eu acho que se houver esforço dos atores sociais, os atores políticos, mesmo com os conflitos que são inerentes à vontade dos agentes, acho que Bauru vai encontrar o seu caminho. Mas para encontrar o seu caminho vai precisar cada vez mais que a população se organize, que a sociedade se organize e que ela defenda seus direitos, incentive, lute, invista no conflito.

Wallace Garroux Sampaio - Eu acho que além da saída dos órgãos públicos, que o Roque bem avaliou, Bauru tem outro problema: empresas privadas que mantinham seus escritórios regionais em Bauru em função da posição geográfica, com o desenvolvimento da informática e das telecomunicações deixaram a cidade. Então, não apenas aqueles órgãos públicos que eram muito presentes, mas os privados também deixaram Bauru. E Bauru precisa descobrir efetivamente novas matrizes de desenvolvimento. O que desenvolveu Bauru até dez anos não funciona mais. Temos que reequacionar isso e aí a vocação para o setor de prestação de serviços é fundamental porque nós precisamos ter um enfoque econômico. Ou seja, a universidade é importante do ponto de vista educacional, da formação das pessoas, das crianças, do ser humano, mas é um fato econômico importante existirem 22 mil universitários em Bauru e aproximadamente 28 mil vagas abertas que não estão preenchidas ainda. Metade dessas vagas é ocupada por estudantes de fora e isso é um fato econômico de peso. A área de saúde, com esse novo Hospital Estadual, com o Centrinho, que é referência nacional, com o Lauro de Souza Lima (Instituto Lauro de Souza Lima)... A área de turismo de negócios que se luta para implantar em Bauru também será fundamental. Os grandes eventos de negócios não comportam mais dentro de uma cidade só, como São Paulo, por exemplo. Vai ter que descentralizar e Bauru, com a posição geográfica privilegiada, tem que se preparar para isso. No setor de ensino, por exemplo, a luta de 50 anos de Bauru é por um faculdade de medicina, mas não seria mais interessante talvez estar lutando hoje por uma faculdade de agronomia, de veterinária, que são carreiras em expansão, com mercado garantido, capaz de trazer para o nosso jovem a fixação no município? Enfim, nós precisamos estar abertos para isso e olhar com muito carinho o setor de serviços, que é um setor que cresce com as suas próprias pernas sem incentivo. E o novo aeroporto também tem que ser visto como um fator potencialmente muito importante para Bauru.

Roque Ferreira - Outra coisa importante para Bauru: as ferrovias. Antes a gente discutia o emprego. Hoje se discute a possibilidade de empregabilidade, da pessoa ter uma ocupação para ter renda. Fruto de todo esse trabalho que a gente desenvolveu no sindicato, a ferrovia foi obrigada a fazer contratações. Ela está contratando 50 maquinistas, 50 manobradores e no início do ano agora, já em janeiro, ela contrata 450 artífices de via permanente para fazer intervenções pontuais de Bauru a Campo Grande. Intervenções pontuais não são fazer manutenção, recuperação. Está previsto para final de fevereiro a contratação de mais 650 para fazer intervenções já na base da infra-estrutura. Eu estou dizendo isso porque nós temos um problema: transportar a produção agrícola. Nós estamos com o sistema de transportes no Brasil falido. Bauru, que cresceu e se desenvolveu tendo como insumo três grandes ferrovias - primeiro a Sorocabana, depois a Noroeste e a Companhia Paulista -, hoje parece que se envergonha dessa tradição de natureza ferroviária. Eu também acho que nós temos um potencial grande em Bauru na questão de logística dos transportes. Tanto isso é verdade que nós estamos fechando um convênio com o Ministério dos Transportes para que seja implementado aqui em Bauru um curso técnico sobre logística dos transportes. Não existe isso em lugar nenhum.

Reinaldo Cafeo - A questão é: para onde nós vamos caminhar? Eu concordo, tanto com o Wallace quanto com o Roque na questão do fortalecimento do setor de serviços. Eu ampliaria o setor terciário da economia, que abriga o comércio e serviços. E Bauru não é diferente do que é o Estado. Se você olhar a participação relativa da importância do setor terciário é muito parecido com o que é o Estado de São Paulo, apesar do setor industrial ser sempre alardeado como o setor importante. É claro que a indústria é importante porque uma indústria forte gera oportunidades para os prestadores de serviços. Eu ampliaria, além do transporte, a questão da comunicação. Acho que Bauru tem um potencial enorme do ponto de vista das suas matrizes locais, para ser a referência em termos de comunicação, da tecnologia de informação. Apostaria fortemente e trabalharia do ponto de vista de marketing para mostrar isso para o País que nós somos efetivamente uma referência estudantil. Essa relação número de estudante/população em Bauru não é pouca coisa. Deve ser uma das maiores do País e isso tem que ser trabalhado como diferencia. Naturalmente, isso vai estar dentro da geração de uma base de tecnologia, tecnologia entendida não só como projetos industriais, mas tecnologia no sentido de buscar soluções. E aí retomo aquela questão anterior das alianças, para projetos locais e regionais. O que nós podemos fazer para que a universidade, o ensino médio e a pós-graduação conduzam para projetos de solução local? Aí você começa fazer aquela interface. Também avalio que nós devemos trabalhar com o fortalecimento das pequenas e médias empresas e parar de pensar na próxima indústria grande... Na minha ótica, mais importante que pensar na próxima empresa que vem é mapear o que está acontecendo com as empresas que estão indo embora ou que estão fechando. Então aí, projetos como a incubadora (de empresas) que nós já tivemos, e outros não podem ficar no papel. Do ponto de vista da cidade, eu acho que falta uma marca. Nós temos aqui uma feira de agronegócios importante. Nós temos iniciativas isoladas do Grupo Cidade e outras entidades, mas nós não temos uma marca e, talvez, essa marca fosse ser o receptor, o promotor dos negócios. Acho que Bauru, por sua localização, pode ser a grande alternativa ao grande centro para o turismo de negócios. E aí, é óbvio, vai passar por uma construção de um grande centro de convenções. Acho que o Comtur (Conselho Municipal de Turismo) tem um papel importante e fundamental. Eu vejo que acabou a época do isolamento. Vocação não se conquista no papel, se conquista com prática. E é preciso ter todos os setores da iniciativa pública convergindo para isso. E aí, as alianças naturalmente virão. Essas alianças têm que estar acima do projeto político local. Bauru também tem que trabalhar diferentemente do que vem fazendo até agora com as metais sociais.

Célia Retz - Eu gostaria de complementar o Cafeo. Bauru precisa de um planejamento integrado com as várias áreas. Tudo o que foi citado a gente já debateu na universidade. E a gente fez, inclusive, uma pesquisa com a população para determinar qual que era a imagem da cidade. Perguntamos sobre os problemas, etc.. E as respostas mencionavam inclusive problemas que são físicos, como buracos nas ruas e pavimentação na zona sul. Cada zona tem o seu problema específico, que é aquele mais visível fisicamente. Mas uma coisa que ficou permeada em todos os segmentos da sociedade é a avaliação geral de Bauru como uma cidade boa para se viver. E hoje no mundo todos pensam numa cidade boa para viver: a gente faz negócios numa cidade boa para se viver; a gente vai fazer turismo numa cidade que é boa para se viver. E isso é inato, mas não sei até quando porque temos que prestar atenção para a segurança, infra-estrutura, para as metas sociais e políticas... Se começa a ter problemas sociais, acaba tendo também falta de segurança. E a segurança hoje é uma coisa que as pessoas sentem muito presente por causa da mídia. Todo mundo se sente inseguro, mas na hora que você pergunta quem já foi assaltado, se já teve algum problema de violência, a resposta é não. Isso porque quando uma violência acontece nos Estados Unidos, as pessoas sentem como se isso estivesse do lado da sua casa. E essa insegurança faz pessoas que se conversavam, que se socializavam, a ficarem duras, não quererem conhecer outras pessoas, não se comunicarem, não deixarem as crianças conversar com outras pessoas... E perde a qualidade de vida. Eu acho que Bauru ainda tem essa característica: todos falam que é uma cidade boa para se viver. As pessoas são abertas, as pessoas conversam. A cidade não têm a postura de não aceitar o de fora, o forasteiro. O pessoal é aberto. Então, isso é uma coisa da população, que é uma coisa que você não consegue do dia para noite. Agora, temos que comunicar isso. As pessoas têm de saber isso já a priori. Está faltando comunicação. As pessoas que trabalham em São Paulo às vezes preferem morar numa outra cidade porque ela quer ter e dar uma qualidade de vida para o filho. Não é só uma escola boa, como a gente tinha antigamente. É tudo: é paz, segurança para deixar o filho atravessar a rua, para conversar com as outras pessoas...

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