Perspectivas 2004

Mobilização pode afastar crise


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Jornal da Cidade - Temos uma crise municipal em Bauru que se arrasta há vários anos. Como vocês avaliam essa situação e seus desdobramentos?

Roque Ferreira - Essa crise tem estagnado a cidade. Bauru, se você analisar de fora, tem os aspectos positivos e negativos da crise nacional. Nós temos de extrair dessa crise aquilo que nos ensina a fazer melhor. Entretanto, do ponto de vista da ação, a política está sendo feita pelo pior viés em Bauru. É o viés da vingança, o viés da conspiração, e quando os atores de natureza política colocam no centro da sua ação a conspiração, que foi praticada em vários momentos da história, isso leva à ação de naturezas menores. Então, a situação mais ampla da população, da sociedade, foi colocada no segundo ou no terceiro plano. Eu acredito que nós temos dados concretos para medir socialmente as coisas. Bauru tem um endividamento alto, tem aí toda essa discussão de dívida com o (banco) Chase Manhattan e uma série de outras coisas. Quanto mais essa dívida aumenta, mais precisa arrecadar. Se existe restrição na atividade econômica, se essa atividade econômica não gera imposto, não gera renda, não gera consumo, onde você vai buscar o recurso para pagar a dívida? É o problema concentrado da dívida, o endividamento deste País. Eu defendo a ruptura com o acordo do FMI (Fundo Monetário Internacional). É complicado, mas não existe mágica. Por mais exercício de natureza econômica, matemática, algébrico que a gente faça, dentro desse atual modelo não existe saída. Nós temos que discutir todos os teores do acordo. É possível o Brasil sozinho romper a questão da dívida externa? Então, dá para tratar o Brasil como se trata a Bolívia. Eu acho que dentro desse modelo atual, por mais honesto que seja o prefeito, por mais rigoroso eticamente, por mais comprometido com as questões de natureza social, ele não resolve os problemas de natureza social.

Reinaldo Cafeo - O que você está colocando é que existe, a partir do Estado, a possibilidade de expandir a economia, que à medida em que você paga o serviço da dívida sobram menos recursos, e aí entra o círculo recessivo. Pelo que eu estou entendendo, você defende um fechamento do País para o resto do mundo, porque à medida em que se rompe com o FMI e dá calote na dívida externa. Acontece que isso significa deixar de pagar uma série de dívidas do setor público. Então, acho que temos de trabalhar com coisas concretas, porque favorecer isso (o calote) também significaria favorecer uma base de multinacionais...

Ferreira - Sob o ponto de vista de natureza política, eu não acho que nós estaríamos dando um calote. Nós temos que analisar as raízes da dívida, não só sob o ponto de vista de natureza econômica, mas de natureza política. O que determina a vida é a política. Veja, a Argentina pagou a dívida. Se submeteu ao Fundo Monetário Internacional. O que aconteceu na Argentina? É história. E no Uruguai? Lá foi feito um plebiscito, no qual a Frente Ampla, sob o ponto de vista do interesse da população, foi varrida do poder. Não tem governo lá no Uruguai. Está lá o governo, mas desautorizado, por conta do quê? Das implicações de natureza social e sob o ponto de vista da vida concreta, no que isso implicou?

Cafeo - Na minha opinião, nada disso adianta. Sejamos práticos: qual era a grande expectativa do grosso da população? É que o PT fosse capaz de fazer esse rompimento, e não foi. Então, o que nós temos hoje de esquerda concreta no País, ou de oposição, nem é esquerda mais. Ou você tem uma esquerda extremamente radical, ou uma oposição, que é o PSDB e o PFL. Então, você não tem perspectiva. Eu quero saber o seguinte: o ano que vem (2004) a criança de rua, aqui (em Bauru), vai sair das ruas ou vai depender do rompimento com o Fundo Monetário Internacional? Eu vejo dessa forma.

Walace Garroux Sampaio - Eu acho que está claro hoje, independentemente de debate político, que o FMI é o grande guarda-chuva do investidor internacional. Ele não ajuda país nenhum, não ajuda o Brasil, não ajuda nada. Quando o investidor internacional teme tomar o calote, o FMI vem, faz um acordo para garantir aquela dívida. Esse é o papel do FMI, não é outro... Mas se deve continuar ou romper, não sei dizer.

JC - Mas vamos fechar a questão da crise municipal. Ela se arrasta há mais de uma década, e há o endividamento municipal que é grande também. Vamos continuar passando por mais muitos anos ainda nessa crise ou há perspectivas de romper com este cenário?

Sampaio - Vamos discutir o seguinte: será que a atuação da Secretaria do Bem-Estar Social, por exemplo, não poderia ser muito melhor em termos de resultado se houvesse investimento em capacitação para gerenciar programas? A participação da sociedade civil é fundamental nesse processo. Eu dou um paradigma, que por um acaso a gente (SinComércio) está envolvido. Está aí o programa Mesa Sesc Brasil-Bauru, que tem como recursos um caminhão, um motorista, um ajudante e dois funcionários do Sesc que fazem o gerenciamento, com dez meses de atuação está distribuindo uma tonelada de alimentos por dia, coletados de sobras das empresas de Bauru, que vão para 56 entidades assistenciais da cidade diariamente. O que tem de diferente nisso? O SinComércio entra com a capacitação e a USC entra com o treinamento. Então, é um programa privado, e o diferencial é o fato de ser uma atividade social com uma administração empresarial. Nós colocamos lá o conceito como se aquilo fosse empresa.

Outra análise: temos cerca de 5 mil servidores municipais. Quantos tem na atividade fim, na atividade meio, na retaguarda... Há carência de funcionários na Secretaria de Obras, falta de fiscais, e muitas vezes essa mão-de-obra não é qualificada. Portanto, você não tem um rendimento final lá na frente. Não deveria haver um programa requalificando essas pessoas para que fossem para a atividade fim, fossem dar aula, treinar, transformar?... Isto é uma coisa que eu acho que deveria ser discutida em termos de nova política de governo de novo mandato.

Roque Ferreira - Nós estamos vivendo uma verdadeira guerra, na qual a juventude está sendo dizimada. Nós estamos com problemas concentrados, localizados, fechados aqui. Por exemplo, transporte urbano neste grande centro chamado Bauru. A grande pergunta que nós temos que fazer é se o modelo de organização do transporte urbano de Bauru ou dos grandes centros, centrado na opção do modal rodoviário, com todas as fontes de financiamento, tem condições de oferecer uma nova qualidade de serviço para a população, ou se o município ainda vai continuar subsidiando, dando mais incentivo, e se isso vai se traduzir num serviço eficiente para a população. Eu também defendo que é preciso defender o servidor público. Só que nós precisamos entender o seguinte: se o Estado, tal qual ele está organizado, de fato tem interesse em praticar a universalização de serviços. Como é que nós vamos investir na qualificação do servidor público? Para ter serviço público de qualidade nós precisamos ter servidor público de qualidade. E servidor público de qualidade não tem falsa discussão: primeiro começa com uma remuneração justa. Transporte urbano é serviço, mas hoje está servindo de insumo para a iniciativa privada, que tem um contrato sem risco. A Câmara de Compensação Tarifária é um contrato sem risco, porque o governo municipal tem que continuar subsidiando. Será que não chegou a hora de a gente assumir a responsabilidade pelo transporte urbano e fazer um novo desejo para a cidade? Quem são os responsáveis por essa questão? É preciso encarar essas questões de frente para o bem da cidade e de seus habitantes.

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