Aos 8 anos, Beatriz Carvalho Cavalieri gosta de desenhos animados, filmes infantis e brinca com bonecas Barbie. Nada de incomum para uma menina dessa idade, não fossem as atividades secundárias na vida dela. Em primeiro lugar, seja nos programas de televisão ou nas horas de lazer, está o futebol. Atualmente, ela é a única menina que freqüenta e treina semanalmente numa academia de futebol mirim de Bauru.
A paixão pelo esporte mais popular do mundo surgiu – do nada, segundo a mãe, Maria Helena Carvalho Cavalieri – quando Beatriz tinha apenas 3 anos. “De repente, ela começou a brincar de bola no quintal e não parou mais. Deve ser uma coisa dela mesmo, porque não houve influência da família. Nem meu marido joga bolaâ€, afirma Maria Helena.
A própria jogadora mirim encerra a discussão sobre a origem da preferência. “Gosto por culpa de ninguémâ€, sentencia a menina de pouca fala, que também nega ser fã de Milene Domingues, rainha da embaixadinha, ex-mulher do craque Ronaldinho e atual estrela – talvez mais pela beleza – de um time espanhol.
Convencidos de que o gosto pelo futebol não era fogo-de-palha, os pais resolveram colocá-la numa escolinha especializada. Ficaram com pena da filha não ter com quem brincar. “Não temos vizinhos com a idade dela e a irmã (Bárbara, de 10 anos) não gosta de bolaâ€, justifica a mãe, que nesta sexta-feira recebeu um pedido especial da filha jogadora. “Pedi um irmão para ele jogar bola comigoâ€, explicou a menina.
Há dois anos, as aulas de futebol preenchem a agenda de Beatriz duas vezes por semana. Fora do campo, a menina também aprecia jogos televisados. “Ela assiste a qualquer um que estiver passando, embora prefira os da Seleção e do Corinthians, time que passou a torcer depois que entrou na escolinha. Antes ela era palmeirenseâ€, entrega Maria Helena.
Jogadora de defesa, a função de Beatriz não é fazer gols. Por conta da pouca idade, seus colegas de campo não fazem restrição ao fato de ela ser menina. “Nessa idade, as crianças não fazem distinção quanto ao sexo, coisa que muda de figura quando se chega na adolescência, a partir dos 12 anos. Daí, surgem, sim, comentários e preconceitos. Eu tinha uma outra aluna mais velha que desistiu, creio eu, por conta disso. Tomara que a Beatriz resistaâ€, torce o professor e ex-atleta profissional Sergio Clavero, 40 anos.
O fato de gostar mais de bola do que de bonecas não causa estranheza nas amigas de Beatriz. “Elas não ligamâ€, garante. Já quanto aos amigos de escola, ela está prestes a conhecer a reação. “Na escola, só três amigos sabem, mas agora todos vão saber, né?, questionou, envergonhada.
Segundo Clavero, ainda é cedo para avaliar o talento e o potencial de Beatriz para o futebol. “Os maiores trunfos dela são o gosto pelo esporte e o estímulo da família, o que não é comum. Ela tem suas carências, mas vem evoluindo muito bem. Seria importante de tivéssemos mais meninas interessadas, mas faltam incentivos de todos os tiposâ€, lamenta Clavero.