Modelo de tantas coisas ao longo da sua breve e extremamente produtiva existência, no dia em que serão renovadas as orações por intenção da sua alma, como seria importante para esta cidade adotada como sua – e tão pobre de lideranças como a que ele sempre exerceu de forma absolutamente natural - que o legado deixado a todos nós não se perca no tempo, mas ganhe a cada dia a consistência das grandes referências, como que a inspirar o comportamento das pessoas pensantes, representativas, produtivas e empreendedoras da nossa cidade, para que um dia ela consiga se transformar, exatamente, no que ele sempre sonhou.
Exemplos para isso ele nos deixou, e muitos. A começar da forma como conseguiu conviver com “a sentença de morte decretada, que só faltava a data para execuçãoâ€, como ele mesmo definia o estado em que se encontrava ao longo dos últimos dezoito meses, com uma sinceridade e uma naturalidade que poderiam até chocar quem ouvia, mas não quem o conhecia a ponto de identificar nessas suas palavras a resignação, o espírito guerreiro, o equilíbrio e a obstinação muito próprios de personalidades como a sua, com todas as características de seres humanos predestinados, daqueles que vieram para cá com a missão de não ser somente mais um, mas para fazer a diferença.
E se houve uma coisa que ele sempre soube fazer foi a diferença, o que empresta à sua morte, ainda que previsível, a nítida sensação que não aconteceu e que logo ele irá despertar daquele sono tranqüilo, sereno, calmo. Como seu rosto espelhava naquele momento de dor para todos que dele se acercavam para um adeus, mas que para ele não passava de mais um instante de paz, como se tivesse acabado de brincar com seus netos, por refletir a própria imagem da serenidade, da leveza, da segurança, da consciência tranqüila, pela certeza do dever cumprido e bem cumprido.
Singular em tantas faces da sua vida, a tal ponto de ninguém conseguir deixar de atribuir à sua ausência física a mesma força da sua presença sempre muito viva, como integrante da privilegiada classe de seres humanos para os quais a contingência da morte soa sempre como injusta, na condição de construtores - na família, no trabalho, nas amizades, na comunidade - e dotado de uma incomum habilidade para agregar, conciliar, influir e liderar, mesmo que silenciosamente, já que exercitava na prática a certeza de que as palavras podem até comover, mas o que arrastam são os exemplos. Moussa Tobias só nos deixou a dúvida se, de onde estiver, nos ensinará a viver sem a sua presença. Deus permita que sim. (O autor, Flávio Antonio de Angelis, é jornalista)