Cultura

É velho mas é novo!

Diego Molina e Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 5 min

Onde estavam os White Stripes que até 2003 ninguém falava deles, pelo menos no Brasil? O álbum “Elephant”, da duplinha Jack e Meg White, o melhor disco do ano, é uma profusão de sons que resume a tendência musical atual - que, provavelmente, terá continuidade em 2004.

Há um grande hit, “Seven Nation Army”, mixado até não poder mais nas pistas. Há o resgate de timbres e melodias próprias do blues e do folk e há um ar de modernidade nas letras e na voz (entediada/ansiosa) de Jack. Meg, um docinho que empunha suas baquetas como se fossem espadas, e Jack, um guitarrista extremamente criativo e, digamos, orgânico, formam o exército de dois que combateu a mesmice do ano que passou.

Na mesma linha do velho com roupa nova, embora cada qual com seu barato, a megabanda The Strokes lançou seu segundo álbum, “Room on Fire”, e uns moleques caipiras chamados Kings of Leon debutaram com o sensacional “Youth and Young Manhood”. Os primeiros conseguiram fazer funcionar ainda melhor a fórmula do primeiro álbum, colocando mais new wave no tempero. Muitos torceram o nariz, resmungando que era apenas “mais do mesmo”. Como se isso não fosse bom...

O Kings of Leon, por sua vez, provou que ainda é possível ser intenso e verdadeiro na música pop. Recheado de baladas punk, petardos country e vocais sacanas, o disco de estréia da banda aponta para um futuro generoso para os ouvidos atentos.

Como quem não quer nada, Thom Yorke - chamado de gênio, de novo Kurt Cobain, de alienígena - reincorporou melodia e ritmo ao som do Radiohead com o disco “Hail to the Thief”. Após dois álbuns idolatrados (e compreendidos) apenas por fãs, o Radiohead se firma como uma das bandas fundamentais do cenário pop rock mesmo na contramão, ou seja, tocando músicas que parecem de fato ter sido feitas no século 21.

Falando em rock “moderno”, dois álbuns de 2003 também não podem ficar de fora da lista dos melhores. O álbum de estréia da banda/projeto Audioslave, do ex-Soundgarden Chris Cornell e do pessoal do Rage Against the Machine, ganharam o gosto dos órfãos de ambas bandas, arregimentaram novos ouvidos e a belíssima faixa “Like a Stone” já se transformou em hit de formatura de 8.ª série. A descolada (também) banda/projeto Jane’s Addiction lançou “Strays”, após um sumiço de alguns anos. O disco, embora irregular, tem momentos fantásticos, mais por conta da voz sexy-melosa de Perry Farrel e pelas viagens do guitarrista Dave Navarro.

Baladinhas e dinossauros

Mesmo tendo seu álbum “A Rush of Blood to the Head” lançado em 2002, foi neste ano que o Coldplay arrebatou a mídia e os fãs, principalmente brasileiros, com sua passagem meteórica por aqui. Canções - maravilhosas - como “In My Place” e “Clocks” tocaram nas rádios e na MTV incessantemente e as conquistaram os corações dos abandonados. A banda soltou neste ano o registro da última turnê, “Live 2003”, num pacote de DVD e CD juntos. Meio paradinho, mas com tudo o que todos querem ouvir.

Na sessão “Ressurgindo das cinzas” e/ou “Precisamos de uma mansão nova então comprem nosso novo disquinho”, uma mega-banda e duas outras que são até inclassificáveis - dinossauros? deuses do rock? - voltaram ao topo das prateleiras. O Metallica soltou seu “St. Anger” retomando a fúria, a crueza e a violência de Natais passados, com boatos de que foi necessária a presença de uma psicóloga no estúdio para conciliar a banda. Mesmo tendo despertado ódio nos fãs quando lutaram bravamente contra o “mal da Internet” e derrubaram o Napster, a banda deixou muitos chorosos quando cancelou sua turnê por aqui.

O último filhote dos Beatles, “Let It Be” ganhou sua versão “...Naked”, que pretensamente seria o que os quatro rapazes gostariam de ter feito na época, mas não fizeram porque não se agüentavam mais - culpa da Yoko? As músicas perderam as orquestrações e o glacê incluídos por Phil Spector na produção, mas continuam clássicas. O álbum traz ainda uma versão de “Don’t Let Me Down” e um disco-extra com ensaios e conversas durante as gravações. Porém, se é o que eles todos queriam, nunca vamos saber.

E os Rolling Stones fecharam o ano com o lançamento do DVD quádruplo “Four Flicks”, com três registros da turnê “Forty Licks”, que comemorou os 40 anos da banda. Neste ano, além da coletânea homônima, a banda ainda se aventurou nas mãos de DJs como Fatboy Slim e The Neptunes e teve seus hits “Satisfaction” e “Sympathy for the Devil” preparados para bombar nas pistas.

Quem também sentiu o sabor do sucesso novamente foi o dino-rocker Rod Stewart, que lançou dois álbuns com clássicos da música americana dos anos 20, 30, 40 e 50, “It Had to Be You” e “As Time Goes By... The Great American Songs”. No Brasil, suas regravações foram tema de novela e levaram o bom velhinho de volta às rádios.

Vale apontar também a invasão do hip hop e do rhythm‘n blues (R&B) nas rádios e pistas brasileiras. Hits da nova diva pop Beyoncé e de Nelly, duas das integrantes do Destiny’s Child, além de Mariah Carey com Bustha Rymes, o rapper 50 Cent e até a mexicana Thalia tentando conquistar o mercado gringo, fizeram todo mundo dançar ao som das batidas marcadas e vocais adocicados.

Embora discutível, a lista acima reúne o que houve de mais interessante no ano de uma maneira ampla e pendendo para o óbvio. Há, claro, novidades deliciosas como The Rapture e Outkast, que devem se firmar no ano que vem. Para 2004, a dica é manter a espinha ereta e os ouvidos atentos - e não deixar passar batido qualquer coisa que pareça som de velho (ou de ET).

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