A cada ano, crescem as chances de Bauru ter o primeiro caso de dengue hemorrágica, a forma mais grave e mortal da doença que pode atingir as pessoas que já a contraíram uma vez. “Apesar do município possuir os fatores para seu surgimento, não a tivemos, ainda, por pura sorte”, diz. A afirmação é de Flávio Tadeu Salvador, coordenador do Núcleo do Controle de Vetores da Secretaria Municipal da Saúde.
Salvador justifica sua análise argumentando que não há outra forma para explicar tal inexistência da dengue hemorrágica. Segundo o coordenador, Bauru apresenta todos os riscos potenciais para que ela apareça, como a presença de mais de um tipo de vírus na mesma região, constantes epidemias e transmissões sempre nos mesmos locais.
“Em Bauru, de quatro sorotipos, foi detectado um, enquanto na região já chegamos ao três, que existia somente no Rio de Janeiro, Vitória e parte do Nordeste mas, aos poucos, introduziu-se no Estado e até já causou uma morte em Campinas”, salienta Salvador.
Além disso, acrescenta, a cidade já registra epidemias consecutivas há mais de cinco anos e com focos concentrados quase sempre nos mesmos bairros, como Bela Vista, Mary Dota, Vista Alegre, Vila Falcão e Núcleo Gasparini.
Por isso, alerta Salvador, o cuidado tem de ser redobrado, principalmente no verão, estação de chuvas constantes e temperaturas quentes, condições propícias à procriação do mosquito transmissor da dengue, o Aedes aegypti. “Pela biologia deste inseto, está é a melhor época para sua proliferação”, sustenta.
O coordenador do Núcleo de Controle de vetores explica que, no verão, o mosquito consegue com facilidade as condições ideais para sobreviver, como temperatura ambiente entre 28º C e 30º C e grande oferta de recipientes com água. “Agora é sopa no mel para eles. Chuva o tempo todo aliado à falta de cuidado da população é dengue na certa”, ressalta.
Para Salvador, o desinteresse comunitário ainda é problema seríssimo, apesar de todas as ações e campanhas educativas já desenvolvidas. “Todo mundo sabe o que tem de fazer. Por isso, basta fazer mesmo. Há pessoas que colaboram, mas de forma geral, infelizmente, muitos conhecem o problema e não fazem nada para combatê-lo. Há, ainda, outros que atribuem ao Poder Público a solução e apenas esperam providências.”
Ele ressalta que o controle da dengue era paternalizado, caráter que já foi radicalmente alterado. “Antigamente, era problema do governo, que nebulizava as ruas e os agentes entravam nas casas e limpavam os quintais. Agora estamos mudando essas estratégias, pois o veneno só é aplicado em condições especiais e não recolhemos mais o lixo das residências. Fazemos as próprias pessoas executarem esta tarefa.”
Por isso, complementa Salvador, cada um tem de tornar-se não apenas o fiscal de sua residência, mas também a de vizinhos e amigos. “Seria a atitude perfeita. Não é porque os outros estão fazendo algo errado que você deve fechar os olhos e lavar as mãos. Por isso, uma de nossas frentes de trabalho é essa, a de acolher denúncias e averiguar”, enfatiza.
Exemplo
Um exemplo desta atuação fiscalizadora foi dado pelo soldador Antônio Ardelindo Graciano, morador da quadra 2 da rua Afonso Formenti, no Mary Dota. Após verificar a presença de água parada em uma piscina de um imóvel vizinho ao seu, que está sem moradores há cerca de quatro meses, ele resolveu tomar providências.
A primeira delas foi contatar a Companhia de Habitação Popular (Cohab), que, segundo Antônio, era a responsável pelo imóvel. “Me propus a ajudar e recebi até um galão de água sanitária, mas desisti porque não havia condições. Além de estar com aspecto podre e cor esverdeada, a água tinha até ratos mortos lá dentro”, conta.
Entretanto, ele foi contatado por um funcionário da Cohab informando-lhe que a utilização do imóvel havia sido cedido à Secretaria Municipal de Cultura. “A piscina não pode continuar naquele estado. Por causa dela minha casa é invadida diariamente por pernilongos. Espero que alguém faça algo”, reclama.
O presidente da Cohab/Bauru, Rubens de Souza, confirmou que o imóvel foi cedido em comodato à Secretaria de Cultura. “Mas antes disso já havíamos providenciado a colocação de produtos químicos para que o local não se tornasse um criadouro de dengue”, afirma.
A assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru informou que a Secretaria de Cultura ainda não tomou posse da casa porque está aguardando a formalização da cessão de uso do imóvel.
Serviço
O telefone do Núcleo do Controle de Vetores é (14) 3235-1458.
146 casos em 2003
No ano passado, Bauru registrou 146 casos de dengue, sendo 131 autóctones (contraídos na mesma cidade) e 15 importados. O número é superior ao total de 2002, quando 121 pessoas contraíram a doença.
O índice de letalidade da dengue hemorrágica ainda não registrada na cidade tem aumentado desde 2001 e hoje, segundo o Ministério da Saúde, é seis vezes maior do que o aceito pela Organização Panamericana de Saúde (Opas).
De janeiro a setembro do ano passado, foram registrados 615 casos de dengue hemorrágica, com 40 mortes, no Brasil. O número é menor que o de 2002, com 2.714 doentes hemorrágicos e 150 mortes. Porém, em termos percentuais, o índice de letalidade de 2003 é de 6,5% (do total de pessoas infectadas), contra 5,56% registrados em 2002.
De janeiro a agosto de 2003, o número de casos notificados de dengue no País caiu 61,9%, passando de 768 mil, no mesmo período do ano anterior, para 292,6 mil, segundo dados do Ministério da Saúde. No ano passado, o País já havia registrado a maior epidemia desde 1998, quando houve 528,4 mil registros da doença.
Em 2002, o número saltou para 714,2 mil casos. O Rio de Janeiro foi o Estado com pior desempenho, com 286,8 mil casos no ano anterior. Isso representa 40,15% do total no País. O Estado também foi o que apresentou maior redução em 2003 - 96% de janeiro a agosto, em comparação ao mesmo período de 2002.
A maioria desses registros ficou concentrada no primeiro semestre do ano. O segundo Estado brasileiro com mais registros em 2002 foi Pernambuco, com 111,1 mil casos.