John Kenneth Galbraith, o famoso economista norte-americano, ao estudar os padrões de viabilidade política, condicionou-os a três fontes do poder: a personalidade, a propriedade e a organização. O código de personalidade abriga características e valores pessoais, como inteligência, criatividade, carisma, tenacidade, rebeldia, audácia, determinação, capacidade de expressão etc. No campo da propriedade, incluem-se os recursos e meios, os sistemas de mando e controle, o que, no caso de um governante, pode ser traduzido pelo poder da caneta. Já o espaço da organização agrega a perícia e a técnica para manipulação eficaz dos recursos. Oxigenando a água dessas fontes, movem-se ingredientes como a paixão, a motivação, o domínio tecnológico e científico. Dentro desse triângulo de poder, coloca-se a questão: onde o governo Lula é mais fraco e é mais forte?
Sem dúvida, o governo conquista boas notas nos créditos da personalidade. O carisma de Lula é alto. Se o perfil presidencial não é tão audaz, exibe inteligência, capacidade de adaptação aos climas ambientais e criativo jogo de cintura (...)
A organização do governo Lula é falha, a começar pela extensão da estrutura ministerial. Se Lula acha que os seus quase 40 ministros são poucos para administrar a dimensão continental do País - como se houvesse nexo entre largueza territorial e tamanho de Ministério - poderia mostrar onde estão os resultados das ações empreendidas por mais da metade dos comandantes ministeriais. Atropelos, setores atuando com o mesmo escopo, linguagens desentrosadas, metas divergentes - esse é o reflexo do espelho ministerial na área social. Nesse ponto, cabe pontuar sobre o sistema de valores do presidente. Diz-se que Lula gosta de acolher os amigos, não deixando ninguém ao relento. É um valor da grandeza humana. Um homem de alta responsabilidade pública até pode governar com o doce do coração, contanto que adicione o sal necessário para dar o devido equilíbrio à estrutura governamental. Lula precisa identificar as áreas que não funcionam, os setores que carecem de reforço, os espaços que estão imbricados, os programas e projetos que não saíram do papel e, ante essa prospecção, os perfis adequados para iniciar o segundo dos quatro ciclos do governo (...)
Adquirir mais perícia constitui um exercício permanente dos quadros. Inimizades viscerais ou amizades irrestritas podem atrapalhar os horizontes de uma administração. Há dificuldades de se tirar um amigo do Ministério? Que o amigo tenha a grandeza para enxergar além dos interesses de seus limitados espaços e colocar o cargo à disposição.
Esse é o quadro que se apresenta diante das indefinições a respeito da reforma ministerial e que até produziu uma nota oficial refutando as especulações da imprensa, como se a mídia fosse capaz de nomear ministros. Os meios de comunicação trabalham com nomes em evidência, alguns plantados nos espaços jornalísticos até por fontes governamentais interessadas em (in)viabilizar determinados perfis. Onde há fumaça, há fogo e o presidente, por mais esforço que faça, jamais conseguirá ter sopro para apagar esse inexorável fundamento da informação. O que não se deve contestar é o fato de que a demora na tomada de decisão estica a especulação. A dose cavalar de informes sobre a reforma ministerial tem como principal fonte originária a própria indefinição do governo. De tanto tatear, a impressão é a de que, nesse momento, o ator principal e coadjuvantes têm um palco, um patrocínio, um enredo, mas não uma peça pronta para ser ensaiada.
O autor, Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail: gautorq@gtmarketing.com.br.