Ainda falta muito para o Brasil e, principalmente, Bauru atingir índices de mortes no trânsito semelhantes a de países do chamado Primeiro Mundo. Para provar as diferenças brutais entre a realidade tupiniquim e a de nações européias, basta comparar estatísticas.
As mortes no trânsito urbano e rodoviário bauruense e regional assustam. Em 2003, 106 pessoas (18 na cidade e 88 nas estradas) perderam as vidas em acidentes, número que supera a média nacional - 11,6 vítimas fatais para cada grupo de 100 mil habitantes -, e a de países europeus, como a Inglaterra, que registra a menor incidência mundial de óbitos nas vias - seis para igual contingente populacional.
Entretanto, no último ano os óbitos no trânsito urbano diminuíram. Em 2002, 33 pessoas morreram em acidentes, número que, em 2003, caiu para 18 - uma redução de 47%. Além disso, mesmo com o aumento da frota bauruense, que em dez anos - 1994 a 2004 - passou de 90 mil para cerca de 130 mil veículos, em 2003 o total de acidentes (6637) ficou na média dos registrados (6794) em 1996.
Mesmo assim, segundo Jorge Luis Dias, comandante interino da 4.ª Companhia de Trânsito de Bauru, tais estatísticas poderiam cair muito mais. “A grande maioria dos acidentes é evitável, pois 93% deles ocorrem por imprudências humanas”, considera. “Por isso, se todos tivessem postura diferenciada ao dirigir ou atuar como pedestre relegaríamos as ocorrências às meras fatalidades”, sustenta.
Para Dias, diminuir os óbitos envolve muito mais mudanças comportamentais de motoristas, pedestres, ciclistas e motociclistas que o endurecimento da legislação e a adoção de medidas duras contra os maus motoristas, política adotada por países europeus “campeões” de baixa mortalidade.
“O Código Nacional de Trânsito é bom e eficiente, mas quando aplicado. Precisamos fazer cumprir o que já existe hoje para depois, dentro de alguns anos, pensarmos em modificar as leis”, enfatiza o tenente. “Mas, antes disso é preciso intensificar a conscientização das pessoas, em um processo semelhante ao feito com o uso do cinto de segurança”, complementa o comandante interino.
No entanto, Dias reconhece a necessidade de alteração de alguns pontos do Código, como a autuação de um motorista embriagado. “De que adianta falar que um motorista não pode beber se, por princípios constitucionais, não há como obrigá-lo a fazer o exame do bafômetro?”, questiona. “Neste caso, falta regulamentação”, frisa.
Além disso, o tenente argumenta que os poderes públicos também precisam dar sua parcela de colaboração a fim de reduzir as mortes no trânsito. “Estradas e ruas sem buracos e lombadas irregulares e com as devidas sinalizações horizontais e verticais também colaborariam muito para evitar tragédias”, defende Dias. “Mas, isso não serve para desviar o foco principal, que é a conduta humana de condutores e pedestres.”
Nas estradas
O mau comportamento dos motoristas também continua sendo o grande vilão das mortes nas estradas, conforme destaca o capitão Augusto Francisco Cação, comandante da 1.ª Companhia da Polícia Rodoviária de Bauru. “Cerca de 95% dos acidentes ocorrem pela ação ou omissão dos condutores”, destaca. “Os 5% restantes referem-se à má conservação das rodovias ou fatores inesperados, como um blecaute das luzes do veículo.”
Por isso, a exemplo do tenente Jorge Luis Dias, Cação defende que a conscientização é mais importante que o endurecimento das infrações contra os que transgridem a legislação. “O novo Código de Trânsito é um exemplo. Apesar de ter entrado em vigor com penalidades maiores que o antigo, nem por isso os acidentes diminuíram aos níveis do Primeiro Mundo”, sustenta o comandante.
Prova disso é o número de óbitos nos cerca de 1.040 quilômetros de rodovias que interligam 41 municípios da região de Bauru. Para Cação, conquistar índices europeus de mortes no trânsito só será possível através de uma ação conjunta que envolva aspectos educativos e até de formação dos condutores.
“É claro que uma legislação mais pesada colabora, mas por si só não resolve. É necessário mudar hábitos e melhorar o nível dos motoristas durante o processo da obtenção da carteira para que estes conscientizem-se das diferenças entre guiar na cidade e na rodovia”, salienta o capitão.
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Pedestres, motociclistas e ciclistas são maiores vítimas
Em Bauru, os motoristas não são as maiores vítimas do trânsito urbano. Na realidade, quem morre mais na cidade são os pedestres, ciclistas e motociclistas. Provas disso não faltam. Enquanto nos últimos quatro anos - 2000 a 2003 - 25 condutores perderam as vidas nas ruas locais, quase o triplo - 69 - dos três grupos restantes foram a óbito no mesmo período.
“Os pedestres, ciclistas e motociclistas ainda não se conscientizaram que são eles, e não os motoristas de veículos quatro rodas, que estão morrendo com muito mais freqüência na cidade”, alerta o tenente Jorge Luis Dias, comandante interino da 4.ª Companhia de Trânsito de Bauru. “Atualmente, eles são as pessoas mais vulneráveis em nosso sistema viário de tráfego”, complementa.
O tenente cita, ainda, outros números para demonstrar a situação. “Basta ver que, das 18 vítimas fatais no trânsito registradas na cidade em 2003, apenas uma era condutor de carro, enquanto as outras 17 mortes dividiram-se entre os pedestres, ciclistas e motociclistas”, sustenta Dias.
O comandante interino atribui tal fato a uma série de razões. O primeiro deles é o crescimento da utilização da bicicleta não apenas à prática esportiva, mas também como meio de transporte substituto de um veículo. “Seja para economizar combustível ou como a única forma de se deslocar ao trabalho, é comum vermos pessoas atravessando a cidade montadas nelas”, afirma.
Por essa razão, continua o tenente, é que os usuários das “magrelas” deveriam encará-las como um veículo. “E como tal, devem seguir a legislação de trânsito preocupando-se, principalmente, com os equipamentos obrigatórios, como os elementos retrorefletivos”, adverte Dias.
Igual raciocínio também precisaria ser seguido, conforme o comandante interino, pelos motociclistas, que descuidam da utilização do capacete. “Muitas vezes, um acidente que não traria maiores conseqüências ao condutor pode tirá-lo a vida por estar sem o equipamento”, alerta o tenente.
Para os pedestres, a recomendação é antiga, mas eficiente para evitar atropelamentos: o uso da faixa de segurança. “Também é preciso ter atenção especial com os idosos. Jamais eles devem atravessar uma via sozinhos, pois não são raras as vezes em que não conseguem avaliar com precisão a distância para os veículos”, enfatiza.
Já os motoristas bauruenses, conforme Dias, estão mais conscientes de suas responsabilidades. “Os esforços legais como a obrigatoriedade do cinto e a existência dos radares controladores de velocidade, e educativo através de campanhas fazem com que os condutores moldem seus comportamentos e cumpram mais a legislação”, ressalta.
Entretanto, complementa o tenente, ainda cabe aos condutores uma enorme responsabilidade. “Enquanto os pedestres, motociclistas e ciclistas bauruenses não se conscientizam, nosso motorista tem de aumentar a cautela e usar os conceitos de direção defensiva, que reza o seguinte: não importa quem tenha a culpa, mas sim fazer de tudo para evitar acidentes”, destaca Dias.