Não somente crianças reivindicam opções para diversão. Adultos e idosos dos bairros de periferia também sofrem com a falta de equipamentos de lazer. Sem alternativas, eles reúnem-se em bares, sentam nas calçadas para conversar com vizinhos ou ficam em casa assistindo televisão.
“Dos adultos, quem freqüenta bar, se reúne num bar. Quem não freqüenta, não tem opção nenhuma. Fica em casa. É ociosidade”, afirma Romildo Alves da Silva, presidente da Associação de Moradores da Pousada da Esperança.
Ele se diz preocupado com os idosos do bairro. “Com o idoso, é ainda mais sério porque o adulto sai para trabalhar e só fica em casa no final de semana. O idoso está o tempo todo e não tem opção nenhuma. É mais preocupante ainda”, argumenta Romildo.
Uma das reivindicações da associação, segundo o presidente, é que a Prefeitura de Bauru viabilize áreas de lazer para atender a demanda do bairro e da região. “O bairro não possui nada. Além disso, a prefeitura não tem aqui área disponível para isso. É problemático”, afirma.
Romildo sugere que as áreas de erosões do bairro sejam aterradas para que possam ser utilizadas com essa finalidade. “Poderiam construir uma quadra e um campo de malha. Não solucionaria o problema, mas já seria uma atividade”, observa.
O presidente da associação atribui as deficiências do bairro à política em Bauru. “A verdade é que, na atual circunstância política de Bauru, a gente não pode esperar muito. Mas a gente pede, conversa e insiste. Se reivindicando já está difícil, fica pior se parar de reivindicar”, comenta.
As opções das crianças na Pousada da Esperança não são diferentes dos demais bairros de periferia. “Época de férias é uma época em que as crianças estão todas em casa e não têm opção de lazer nenhuma. É problema para as mães e para todo mundo”, afirma Romildo.
Santa Edwirges
No Parque Santa Edwirges, a demanda, que tem crescido muito, preocupa o presidente da associação de moradores do bairro, Vivaldo Pereira Martins.
Ele solicitou à Prefeitura de Bauru a construção de um complexo de lazer com quadra e campo de futebol. O local sugerido é a quadra 4 da alameda Sócrates, que é do município e está vazia. “Já ajudaria bastante”, observa Vivaldo.
“Há muito tempo a associação reivindica lazer para a região. As crianças jogam bola no asfalto, jogam amarelinha na rua, pulam as grades da emei para invadir o parquinho. Os jovens correm risco nas ruas”, acrescenta o presidente da entidade.
Ele afirma que já aconteceram acidentes. Carros atropelaram crianças que sofreram fraturas nos braços e pernas. “Existe uma deficiência enorme na região. A população aumenta e os adolescentes ficam ociosos”, expõe.
Outro problema é o deslocamento para outros bairros que dispõem de equipamentos públicos de lazer. “Não temos uma linha que ligue ao Zoológico, ao Sambódromo, ao Vitória Régia. Fica bastante difícil porque é longe”, alega Vivaldo.
A moradora do Parque Santa Edwirges Maria Lúcia Posca tem três crianças em casa e conta da dificuldade de encontrar atividades para satisfazê-las. Parte do tempo elas passam na residência. No fim da tarde, saem para andar de bicicleta em frente ao portão.
“As crianças têm de brincar na rua porque não tem outro lugar. Eu não posso deixá-las só dentro de casa. Elas têm de ter convivência com outras pessoas”, expõe Mara.
O filho muitas vezes pede para ir ao parquinho do Vitória Régia. “Às vezes, eu estou sem passe e não tenho condições de ir. É difícil”, afirma.
Em casa
Para evitar incidentes, alguns pais preferem manter as crianças dentro de casa, evitando que elas saiam para brincar na rua.
É o caso de Wanderley Batista de Paula, morador do Jardim Tangarás. Ele tem um casal de filhos que ficam sempre dentro de casa, atrás de portões altos. “Nem na calçada eles saem. Tem gente que nem sabe que eles são meus filhos porque eles não saem na rua”, diz.
Os filhos reclamam, mas têm de brincar apenas no jardim. “Aqui não tem nada. A única coisa que tem aqui é o saneamento básico. Ônibus é ruim, não tem creche, não tem praça, não tem nada. Na rua, não tem condições (de brincar). Os carros passam com muita velocidade”, justifica.
Wanderley afirma que, se houvesse um parquinho no Jardim Tangarás, ele deixaria o casal de filhos sair para brincar. A opção é levá-los de vez em quando à praça mais próxima, que fica a três quilômetros de distância, no Jardim Redentor. “Tem que se deslocar mesmo. Não tem outro recurso”, afirma.
Wanderley já tentou vender sua casa para mudar para um bairro com estrutura melhor, mas não conseguiu devido à desvalorização do imóvel.
Ana Maria da Silva, que mora no Núcleo Fortunato Rocha Lima, tem duas meninas que brincam a maior parte do tempo dentro de casa. “Não tem outro jeito porque, se elas saem na rua, a gente se preocupa. Então elas ficam em casa”, conta,
Quando tem tempo disponível, Ana Maria sai com as filhas para brincar em frente ao portão da casa. “Eu fico no portão olhando. As crianças ficam muito presas dentro de casa. Elas pedem para brincar com os amigos e eu falo que não podem sair para a rua”, lamenta.
Quadras estaduais
As quadras poliesportivas das escolas estaduais de Bauru amenizam a situação dos bairros de periferia que não têm opções de lazer para crianças e adolescentes.
As quadras ficam abertas aos finais de semana, sob orientação de um funcionário da escola. A iniciativa faz parte do projeto Escola da Família.
De acordo com Marilene Guerrero, dirigente regional de Ensino, o projeto tem objetivo de reunir os pais para que conheçam o trabalho pedagógico da escola.
Além das quadras, a escola também oferece oficinas de culinária, bordado, crochê, tricô e palestras. “Para que os pais vejam na escola a continuidade da sua casa”, diz Marilene.
Ela afirma que, além das quadras, outras atividades chamam a atenção dos alunos, como sessão de cinema, judô, dança e karatê. “Mas tudo isso em forma de projetos, que têm início e prazo final. É um lazer, mas ao mesmo tempo incentiva a cultura, os costumes”, expõe.
A partir deste final de semana, as escolas voltam a abrir suas quadras. As demais atividades do projeto do governo estadual não funcionam nos dias úteis já que as escolas estão trabalhando, apesar do período de férias.
Devido à baixa freqüência aos finais de semana em bairros centrais, algumas escolas podem ser fechadas aos sábados e domingos. “Aos fins de semana, a freqüência não é mantida. Os alunos de outros bairros estão freqüentando as escolas dos bairros onde moram. Não é proibido”, explica a dirigente.
Ela explica que toda a comunidade pode desfrutar das áreas de lazer das escolas, independente da pessoa ser ou não aluna da unidade. “Neste momento, todas as nossas escolas da rede estadual estão participando”, enfatiza.
Das 49 escolas estaduais de Bauru, três delas não têm quadras poliesportivas. Entre as que possuem, 26 não têm cobertura.
Marilene afirma que está pleiteando junto ao governo federal recursos para tais obras. “Além disso, estamos com escolas precisando de reformas, principalmente dos telhados.”