Apesar de ter anunciado uma redução de 3% no número total de casos novos de malária no Brasil em 2003, o Ministério da Saúde tem se mostrado preocupado com a ocorrência de epidemias localizadas da doença, principalmente na Amazônia. Infecção grave, a malária não tem vacina e, se não for tratada corretamente, pode levar o paciente à morte.
De acordo com a Agência Saúde (assessoria de imprensa do ministério), o ano de 2003 foi marcado por uma epidemia de malária em Manaus, com um total de 71,19 mil casos da doença até o mês de novembro. “Esse número representa um aumento de 296% em relação ao mesmo período de 2002, quando foram registrados 17,98 mil casos”, informa.
Outro foco de epidemia foi detectado na cidade de Porto Velho (RO). Segundo a assessoria, o número de pessoas infectadas pela doença no ano chegou a 27 mil - 24% a mais que em 2002, quando foram computados 22 mil contaminações.
Em todo o País, foram registrados 320 mil casos de malária até novembro de 2003. Isso equivale a uma redução de 3% em relação ao ano anterior, quando foram totalizados 328 mil casos.
“Pode parecer uma queda não muito significativa, mas se não fossem as epidemias de Manaus e Porto Velho, teríamos uma redução total de 20% da incidência no Brasil”, salienta o coordenador do Programa Nacional de Controle da Malária, José Ladislau. Ele informa, por meio da assessoria, que as duas cidades reúnem 28% do total de casos da doença no País.
O Ministério da Saúde destaca que os nove Estados da Amazônia Legal (formada pela região Norte, Maranhão e Mato Grosso) são os locais de maior risco de transmissão da malária no Brasil.
Seis deles apresentaram redução no registro de contaminações em 2003: Acre (49%), Amapá (29%), Maranhão (44%), Mato Grosso (45%), Pará (30%) e Roraima (11%). Os demais tiveram aumento na incidência: Amazonas (83%), Rondônia (15%) e Tocantins (10%).
“Nos outros Estados do País a malária só ocorre quando as pessoas infectadas vêm de áreas onde a doença se concentra”, explica Ladislau. A malária é causada por um parasita transmitido ao ser humano pela picada de mosquitos da espécie Anopheles, muito comuns em regiões tropicais e subtropicais.
Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prevalência da doença é alarmante, pois a contaminação pode ser facilmente evitada com o uso de repelentes, roupas compridas e mosquiteiros nas portas e janelas, principalmente no período entre o entardecer e o amanhecer.
Apesar disso, a malária é endêmica em mais de 100 países, que são visitados por pelo menos 125 milhões de viajantes todos os anos. Os dados são guia “International Travel and Health”, editado pela OMS em 2002.
Características
De acordo com o Ministério da Saúde, existem três tipos diferentes de malária no Brasil: a “vivax”, a “malariae” e a “falciparum” - forma mais grave, que atinge 20% das pessoas infectadas.
A febre elevada é o sintoma mais marcante da infecção, que vem acompanhada de calafrios, fadiga, náuseas, dor de cabeça e, em alguns casos, anorexia (falta de apetite). Os sintomas podem aparecer em um período que varia de sete a 30 dias após a picada do mosquito, dependendo do tipo do parasita transmitido.
O coordenador José Ladislau salienta que gestantes, crianças e idosos são mais vulneráveis à forma grave da infecção. Nessa situação, correm risco de morrer. “As mulheres grávidas, que estão com o sistema imunológico mais frágil, podem sofrer complicações como a malária cerebral, hipoglicemia, edema agudo do pulmão, parto prematuro e até um aborto”, alerta.
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Trajetória
No início do século 20, a malária estava presente em quase todo o País, segundo o Ministério da Saúde. Na década de 40, foram registrados mais de 8 milhões de casos. A incidência só caiu nos anos 60, após intenso trabalho desenvolvido pela Campanha de Erradicação da Malária (CEM), quando houve redução para menos de 100 mil confirmações anuais.
“A política ‘desenvolvimentista’ do governo militar para o Norte, nos anos 70, provocou um crescimento demográfico acentuado e desordenado. Isso levou a epidemias de malária na Amazônia. Hoje a região concentra 99,7% dos casos. As condições sócio-econômicas e ambientais favorecem a proliferação do mosquito Anopheles, vetor da doença, e a exposição de grandes contingentes populacionais”, ressalta a Agência Saúde.
Mesmo assim, a CEM conseguiu cortar a cadeia de transmissão da doença nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul e em parte do Centro-Oeste. No final da década de 80, surgiu o Programa de controle da Malária na Bacia Amazônica (PCMAN).
Em 1992, a Conferência Interministerial, realizada em Amsterdã, lançou novas bases para a erradicação da malária no mundo. Ela estabeleceu uma “estratégia global” que tem como uma das principais metas a redução dos índices de mortalidade pela infecção.
Mesmo assim, a incidência continuava alta na Amazônia. Diante da grave situação epidemiológica apresentada em 1999, o Ministério da Saúde lançou o Plano de Intensificação das Ações de Controle da Malária na Amazônia Legal (PIACM), em julho de 2000.