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Para entidades sociais, Estado se omite

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

O Estado está cada vez mais passando para a sociedade parte de suas responsabilidades. Essa é a opinião de dirigentes de entidades assistenciais de Bauru, que dependem da solidariedade da população para sobreviver. “Além dos impostos altíssimos que paga, o cidadão ainda precisa contribuir em diversas áreas que seriam de responsabilidade dos governantes”, salienta Paulo Sérgio Canalli, presidente da Associação das Entidades Assistenciais e de Promoção Social de Bauru.

Segundo ele, os exemplos são latentes: nos esportes, na segurança, na educação, há sempre campanhas para estimular a solidariedade das pessoas e estimulá-las a ajudar financeiramente com projetos que, na opinião dele, deveriam ser de iniciativa exclusiva do Estado.

Como se não bastasse entregar nas mãos do povo a missão de ajudar, o governo ainda estaria lançando projetos para concorrer com a difícil missão das entidades de angariar fundos. Canalli salienta que o Programa Fome Zero, por exemplo, divulgado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é um deles. “É mais uma maneira de recolher donativos da população. Assim, os valores vão se dissipando em diversos programas e fica complicada a situação das entidades mais carentes”, destaca.

A presidente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), Olga Bicudo, entende que o Fome Zero foi criado com a melhor das intenções. No entanto, ela ressalta que o seu objetivo está se perdendo em meio à falta de informações. “Nós não sabemos se o Fome Zero está atingindo o seu objetivo, quem está sendo assistido por ele, ou seja, não temos um retorno disso”, diz.

Ela aponta que a Apae sobrevive basicamente de convênios e donativos da população. “Temos uma despesa de R$ 220 mil por mês e o governo só repassa R$ 10 mil mensais para nós. O restante, conseguimos com os convênios e com a sociedade”, salienta.

A diretora da Sociedade para Reabilitação e Reintegração do Incapacitado (Sorri), Maria Elisabete Nardi, destaca que as entidades já existem para cumprir um papel que deveria ser do governo. “Nós fazemos aquilo que o Estado deveria fazer para a população e não consegue”, diz.

Ela lembra que as pessoas, ao pagarem os seus impostos, já esperam esse retorno dos dirigentes do País. “A administração dos recursos é feita de forma inadequada. Não sobra dinheiro para investir no social.”

No caso da Sorri, Maria Elisabete salienta que a entidade, que presta serviço a 230 pessoas em apenas um de seus programas, já chegou a ser mantida com 60% de recursos públicos. Hoje, esse valor teria caído para 25%. “Essa queda tem ocorrido nos últimos cinco anos, principalmente.”

Para garantir a sua subsistência, a saída é apelar para a ajuda da população. “Fazemos campanhas para angariar fundos e dependemos das doações da população”, afirma.

Quanto aos convênios com o governo, ela diz que cada vez mais o valor diminui. “Somos prestadores do SUS (Sistema Único de Saúde) e estamos há dois meses sem receber o repasse de verbas.”

Como essa situação é comum a todas as entidades, surge um outro problema: a concorrência. Para ela, as pessoas são solidárias e querem contribuir com o maior número de entidades que podem. Isso faz com que a verba doada fique pulverizada e diminua entre as entidades. “A iniciativa das pessoas é muito boa, mas o total de arrecadação vem caindo”, diz.

Olga Bicudo, da Apae, lembra que pessoas que antes contribuíam com R$ 50,00, hoje só podem dar R$ 20,00. “As pessoas querem ajudar todo mundo. Além disso, sabemos que a condição financeira das famílias está complicada e elas já não conseguem colaborar como queriam”, destaca.

Maria Elisabete enfatiza que, para que os recursos doados sejam melhor distribuídos, as pessoas devem ficar atentas para onde estão mandando o seu dinheiro. “Existe concorrência desleal. Não é raro surgirem charlatões fazendo se passar por representantes de entidades e que só querem tirar dinheiro do povo. Por isso, é preciso conhecer muito bem a instituição que está pedindo o donativo”, alerta.

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