Cultura

A rua como palco

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Cenas de forte impacto visual, figurino carregado de cores, música, linguagem gestual e técnicas circenses - entre elas pirofagia, malabarismos, pernas de pau e palhaçadas. Essas são as principais características do teatro de rua, arte milenar que utiliza locais públicos como palco.

Criada na Europa, essa manifestação artística é considerada uma das mais democráticas formas de expressão cultural mundiais, e se tornou famosa no Brasil após o fim do regime ditatorial na década de 80.

Mas apesar de sua importância, atualmente o teatro de rua não conta com muitos grupos no País. Em Bauru, um dos únicos representantes desse gênero teatral é a Cia. Dramas e Folias, que há mais de 15 anos se especializa em levar espetáculos para as ruas da cidade.

O grupo - formado pelos atores locais Marisa de Oliveira, Ezequiel Rosa, Beto de Souza, Tato Marques, Alex Sevério e Danieli Oliveira - apresenta duas peças teatrais amanhã, sábado e domingo, às 20h30, na área central da Praça da Paz. A entrada é gratuita.

O primeiro espetáculo, denominado “O Romance de Clara Menina com Dom Carlos de Alencar”, conta a história de um amor proibido entre um príncipe e uma princesa. Durante um de seus encontros, o casal acaba se tornando vítima de um caçador que, visando tirar proveito da situação, ameaça contar o que sabe sobre os jovens amantes ao rei. Apesar de retratar mensagens como jogo de interesses, ganância e sentimentos humanos, a peça é tratada de forma cômica e lúdica.

Essas características também estão presentes na segunda peça encenada pela Cia., “A Trágica Paixão de Mugestantas”. Ela retrata um triângulo amoroso formado pela donzela Mugestantas e seus dois pretendentes, Miguelis e Antão.

“A mocinha está no deserto 465 dias esperando seu amado. Um dia, ela escuta o barulho das patas de um cavalo que está chegando. A história é muito engraçada, pois na verdade o amor da donzela é o próprio cavalo”, revela Marisa de Oliveira, que interpreta personagens em ambos os espetáculos. Juntas, as apresentações duram cerca de 40 minutos.

De acordo com a atriz, os temas escolhidos para as peças são inspirados em histórias de amor entre príncipes e donzelas medievais, justamente para simbolizar a origem do teatro de rua. “Essa manifestação era um meio de vida para os artistas na época medieval”, diz.

Marisa explica que além da linguagem circense, o teatro de rua mistura técnicas da ópera bufa, que prioriza a expressão e o trabalho gestual dos atores, e a comédia dell arte - estilo que teve origem no teatro italiano e remete ao lado cômico, com destaque para o figurino. “Nossa maior preocupação é tirar do ator todas as sensações e sentimentos, a importância está na interpretação, nos gestos e na entonação de voz”, aponta.

Longe dos holofotes

Como não conta com os aparatos técnicos de um espetáculo convencional - iluminação, equipamentos de áudio e cadeiras para a platéia, entre outras - o teatro de rua se concentra na expressão dos atores e abusa do colorido nos figurinos.

“Usamos muitos adereços. Isso é uma coisa que veio do meu pai, que participava da Folia de Reis e confeccionava as máscaras e roupa. No grupo, trabalhamos com a transformação artesanal de fantasias. Eu e meu irmão Ezequiel temos muito essa característica”, explica Marisa.

A trilha sonora do espetáculo também é produzida de forma caseira. Para as peças deste final de semana, a Dramas e Folias preparou um repertório formado por composições próprias de Tato Marques. “Elas são inspiradas em canções de cordel, tiradas do violão e acordeon”, destaca Marisa.

A interação com o público - que forma uma grande roda para assistir as peças - é outro ponto forte dos espetáculos. Segundo Marisa, durante a apresentação, os atores conversam com a platéia e até chamam algumas pessoas para participar de alguma cena.

Paixão pelo teatro

Embora não traga retorno financeiro - uma vez que não são cobrados ingressos para apreciar as peças - o teatro de rua é o gênero preferido da Dramas e Folias. “Trabalhamos de diversas formas e desenvolvemos outros projetos, mas a rua é a nossa paixão”, aponta Marisa.

A atriz confessa que o grupo sobrevive com poucos recursos financeiros e está sempre dependendo de patrocínio de instituições públicas ou privadas, mas afirma que a companhia não pretende desistir do teatro de rua. “Nosso objetivo é atingir toda a população, seja ela rica ou pobre. Buscamos mostrar que é importante se valorizar o teatro, principalmente o de rua, que apesar de já existir há muito tempo, hoje é visto como novidade”, observa.

• Serviço

Cia. Dramas e Folias apresenta os espetáculos “O Romance de Clara Menina com Dom Carlos de Alencar” e “A Trágica Paixão de Mugestantas” a partir de amanhã até domingo, na Praça da Paz. A entrada é gratuita. Informações: (14) 3227-1431.

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