O Hospital de Reabilitação de Anomalias Cranofaciais da Universidade de São Paulo, o Centrinho, e a Associação Hospitalar de Bauru (AHB), que administra os hospitais de Base, Manoel de Abreu e Maternidade Santa Isabel, têm para receber do Ministério da Saúde mais de R$ 7,9 milhões em repasses atrasados. A verba é referente a procedimentos realizados pelas instituições que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive os de alta complexidade.
De acordo com Ana Maria Carlele Soares, gerente geral da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf), que é a principal parceira do Centrinho, a instituição aguarda repasses de R$ 3,8 milhões para Bauru e mais R$ 1,85 milhão para as subsedes de Santo André, Itararé e Campo Grande.
Ela afirma que metade dos cerca de 900 funcionários do Centrinho ainda não recebeu o salário de janeiro, que deveriam ter sido pago no dia 8. A outra metade é contratada pela USP e não há atraso nos vencimentos.
“A situação já começa a ficar complicada porque os funcionários ficam sem dinheiro para comprar passe, para fazer suas compras. Do último repasse, estávamos aguardando R$ 3,8 milhões e recebemos R$ 180 mil. Só nossa folha de pagamento é de R$ 500 mil”, comenta, indignada.
A auxiliar administrativa Camila Alvarez confirma que o atraso dos salários está deixando os funcionários preocupados. “Não é a primeira vez que atrasa, mas eram poucos dias. No ano passado, quando eles começaram a atrasar o repasse da folha de pagamento, todos ficaram nervosos porque não entendiam o que estava acontecendo”, relata.
Ela comenta que alguns funcionários chegaram a cogitar a diminuição do serviço, mas não a organização de uma greve. “Depois que todos souberam o que estava acontecendo, ficaram mais calmos, mas ainda estamos preocupados porque todo mundo tem seus compromissos”, ressalta Camila.
Segundo Ana Maria, até o ano passado os repasses eram efetuados 60 dias após a realização dos procedimentos. “O serviço que o hospital fazia em janeiro, recebia em março. Agora, mudaram o sistema e desde outubro temos repasses que não chegaram”, diz.
O superintendente do Centrinho, José Alberto de Souza Freitas, tem ido com frequência a Brasília em busca uma solução para os repasses. “A dedicação do Centrinho aos usuários do SUS é da ordem de 100% e 90% desses atendimentos pertencem ao grupo de alta complexidade. Nossos pacientes pertencem às classes econômicas menos favorecidas da sociedade, e portanto têm na política do SUS a sua única alternativa de tratamento”, afirma.
Alguns fornecedores do hospital já começaram a demonstrar irritação com a falta de pagamentos anteriores e estão dificultando a entrega dos novos pedidos. De acordo com Ana Maria, ainda não faltam medicamentos ou equipamentos utilizados nos atendimentos e cirurgias, mas a situação pode agravar-se nos próximos dias caso o repasse não seja efetuado.
“Ainda não temos um prejuízo para os pacientes, mas se os fornecedores persistirem em não negociar, seremos obrigados a rever os serviços e até interromper certos atendimentos e procedimentos”, alerta a gerente geral da Funcraf.
A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde informa que foram liberados R$ 20 milhões para o pagamento dos salários dos servidores. No entanto, as parcelas só devem começar a ser repassadas em fevereiro.
O Centrinho tem cerca de 60 mil pacientes cadastrados pelo SUS e atende pessoas de toda o Brasil e América Latina.
AHB
A AHB tem orçamento mensal de cerca de R$ 3,2 milhões e desde o final do ano passado, e até a última quinta-feira, aguardava o repasse de R$ 2,3 milhões de diversos programas do governo federal. De acordo com José Cardoso Neto, superintendente da associação, os medicamentos, serviços e atendimento à população ainda estão garantidos, mas a situação também deve se complicar se o repasse não for realizado na próxima semana.
Os hospitais da AHB internam cerca de 20 mil pacientes por mês e deste total 80% são atendidos pelo SUS.