Ser

Uma vida pela música

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 9 min

Ela nasceu em 1921, mas oito anos depois já se encontrava em frente a um piano de onde nunca mais saiu. Todos os dias, a bauruense Nida Marchioni reserva algumas horas para dedilhar Chopin, Beethoven ou até mesmo Nida Marchioni, pois, mesmo com a idade avançada, ela ainda compõe.

No último dia 6, a pianista interpretou sua composição mais recente, intitulada “Barão” na casa da família Kesan que foi homenageada com a valsa.

Em sua trajetória musical, Nida se recorda de ter feito o primeiro concerto após a inauguração do Bauru Automóvel Club, em julho de 1939, em companhia da cantora Albanina Bortone, que era chamada de a mais linda voz de Bauru.

Em agosto de 1980, participou do show “3 bauruenses fazem arte”. Nida Marchioni fez as músicas, a pianista Ilza Antunes Araújo interpretou e Hélcio Pupo Ribeiro fez os comentários.

Novamente em parceria com a pianista Ilza Araújo, meses mais tarde, ela apresentou o show “Batuque”, com o lançamento de um disco, que dois anos depois também se tornaria um método com partituras originais e feitas à mão.

“Achamos que quem se interessasse pelo show poderia adquirir o método, que contém todas as minhas músicas. E sabe que toda a renda da minha obra musical vai para a Creche Monteiro Lobato? Fiz até um documento, registrado no cartório, que se houver alguma recompensa, direitos autorais, qualquer coisa assim, originários das minhas músicas, que pertence tudo à creche”, revela.

Na última segunda-feira, dona Nida que parece um bibelô e usa um anel de lira, o símbolo da música, recebeu a equipe do caderno Ser para um bate-papo. O destino fez com que o repórter fotográfico Jorge Arruda, que é regente e diretor da Orquestra Experimental São Miguel Arcanjo, registrasse a entrevista. Deste encontro entre dois amantes da música erudita já se pode contar com uma nova parceria na história de Nida, que vive da música e para a música e sonha ser regente, mas garante que vai ficar para a próxima encarnação. Confira.

JC - Para quem teve uma trajetória como essa, como a música entrou na vida da senhora?

Nida Marchioni – Com a idade de 8 anos, eu falava para o meu pai que tinha um açougue e acordava às 4h da manhã para preparar as carnes. “O senhor faça o favor! Me chama porque eu quero levantar para fazer uma serenata no quintal.” Eu tinha 8 anos de idade... e já tinha aquela adoração, aquela coisa com a música. Aí, eu pegava uma varinha e a minha mãe tinha uma janela com plantas e um sofá. Eu subia no sofá e ficava mexendo a varinha (gesticula como se estivesse regendo). Eu tinha uma irmã que falava para o meu pai que ele precisava me colocar para estudar piano. Afinal, gostava demais de música. Aí fui estudar no Instituto Dramático de Bauru, dirigido pela saudosa professora Nair de Araújo Antunes. 1938 foi o ano da minha formatura. Depois, segui meus estudos com o maestro Efísio Aneda, em Bauru e depois com o maestro João Seppe, em São Paulo. Quando voltei, retomei as aulas do professor Aneda, aperfeiçoando-me em harmonia e composição. Meu sonho era escrever música. O professor Élcio Pupo Ribeiro dizia que meu sonho era reger, porque eu falava muito em orquestra. Mas lecionei por muitos anos e fiz muitas audições públicas para mostrar esse trabalho.

JC – Algum aluno se destacou? Virou pianista como a senhora?

Nida – Dos irmãos Godoy, o Amilton, que está no Zimbo Trio, foi minha cria. Ele começou comigo e saiu daqui para ir direto para a escola da Magdalena Tagliaferro, em São Paulo. Hoje, é um dos maiores pianistas do País. Eu também dei aulas para o Adilson, que é compositor. Tem também um outro irmão que é maestro. Mas a minha vida é essa. Fui professora e hoje meus alunos estão por aí.

JC – Mas isso é um dom?

Nida – Eu nasci com uma vocação de tocar música. Naquela época, eu ia muito ao cinema e tinha cada música maravilhosa, eu chegava em casa e tocava tudo de ouvido. Qualquer música. Música de novela, de filme, tudo. Eu ouço, eu toco no piano, inclusive essa bonitinha de “Chocolate com Pimenta”. É uma gracinha, fiz até uma arranjo para a música de tão bonitinha que é.

JC – E a senhora tem a necessidade de estudar, tocar, compor todo dia?

Nida – Todo dia. Todo dia eu sento e estudo um pouquinho. Eu não posso ficar sem. Eu tinha a minha irmã... Nós éramos em oito irmãos, dois homens e seis mulheres, morreram todos, ficou só eu. A minha irmã Vivian morreu agora, há dois anos. A minha querida companheira... (diz com ar de muita saudade).

JC – Ela também tocava?

Nida – Não, ela nunca tocou. Ela nasceu primeiro, em 1917. Eu nasci em 1921. Ela era um pouco mais velha que eu e nós vivíamos juntas até que ela morreu. E sabe o que me dá força e coragem para continuar vivendo? A música, não é? A minha dedicação à música e ao estudo é para não ficar desesperada com a saudade e a falta que eu sinto dela. Então, todo dia eu venho ao piano e estudo.

JC – E tem um horário em que a senhora goste mais de tocar. Na infância, a senhora levantava de madrugada para fazer serenata, continua com essa mania e com disciplina de pianista?

Nida – (risos) Por exemplo, na composição, se eu acordo de madrugada com uma inspiração eu corro para cá (no quarto onde fica o piano, carinhosamente chamado de “meu mundo”) pego o papel e escrevo as primeiras notas. Aí sai a música. Geralmente, eu volto do almoço no restaurante, que faz uma comida caseira que é uma delícia e eu quero muito que você diga isso, leio o Jornal da Cidade e às 15h venho para o piano estudar. Eu faço técnica nos compositores, estudo as valsas de Chopin, o “Noturno”, que eu gosto muito. “A Sonata ao Luar”, de Beethoven, que eu adoro.

JC – Mas se a senhora estuda todos os dias, também acaba dando aulas?

Nida – Não, eu parei de dar aulas em 1971.

JC – Por quê? A senhora cansou?

Nida – Eu já tinha trabalhado bastante, né? Comecei a tocar com 8 anos, me formei em 1938, estava com 17 anos. Mas antes de me formar já dava aulas no conservatório da professora Nair Antunes, que é mãe da Ilza Antunes de Araújo, uma grande pianista. Aí como já estava com 50 anos parei de dar aulas e me dediquei às minhas composições. Comecei a passar a limpo muita coisa que estava no papel. Uma vez, eu fui a Poços de Caldas e fui visitar a Fonte dos Amores, aquele lugar lindo. Eu sou muito romântica e estava lá a estátua dos dois com uma frase assim: “Nesse recanto a amar, tudo convida. Amar é a vida. Mas a que impor tanto a beleza? A alma da natureza amai e orai”. Isso me inspirou um prelúdio que fiz dedicado ao Élcio (Pupo Ribeiro). Então, quero dizer que a composição é assim, você já sabe.

JC – Nessa história toda, teve um “muso” inspirador ou foram vários?

Nida – Olha bem, eu tenho sim. Eu sou espírita. Eu tinha uma amiga que me perguntava: “Oh! Nida, você tem tanto amor, você escreve tanto, mas não tem namorado”. Eu dizia, por enquanto, eu não tenho não, não me interessei por ninguém, mas eu possuo uma inspiração que tenho a impressão de que é alguém que me inspira, principalmente quando eu durmo e acordo para correr e tomar nota, é ele que me inspira. Então, essa minha amiga morreu e, depois da morte, ela manifestou-se através de uma mediunidade psicográfica e mandou uma carta para mim dizendo que já tinha a resposta que eu precisava dar para ela. “Eu encontrei o seu amado, aqui no outro lado da vida onde eu estou. O seu amado não está mais na Terra, não voltou mais. Ele foi maestro e você foi musicista”. Não sei se também não fui regente, porque eu gosto muito de orquestra. Uma orquestra é o apogeu. E eu sei que é ele, esse maestro que me inspira. Na carta, ela ainda dizia que eu tinha voltado, mas ele estava em outras esferas mais elevadas, mas ele continuava me inspirando. E deve ser mesmo, porque as minhas músicas são todas apaixonadíssimas.

JC – E existe uma música preferida?

Nida – Prelúdio n.º 1, que fiz inspirada na Chácara Itália, que considero um recanto de luz, e dediquei à minha amiga Avanir Franciscato Dabus. Foi o primeiro prelúdio que fiz, estava num momento de felicidade imensa.

JC – E qual a mais recente?

Nida - Quando comecei a freqüentar um restaurante aqui no Centro de Bauru, surgiu uma amizade muito grande com a família dos donos. Pessoas muito atenciosas, carinhosas. Eu estou admirada com a gentileza das famílias Kesan e Pereira. Resultado, eu resolvi fazer uma música para o restaurante onde almoço todos os dias. É o meu agradecimento a tanto carinho.. Eu apresentei essa música para as famílias e alguns amigos num pequeno sarau, na casa da minha amiga Celeste Kesan, no dia 6, semana passada. É uma valsa, chama-se Barão e eu só faço música erudita, popular eu não gosto.

Por quê?

Nida - Eu não gosto, não, eu não faço. Quando eu gosto de uma coisa bem feita como do (Tom) Jobim e de outros compositores bons de música popular que existem vários, eu ouço. A música popular evoluiu muito. Mas eu sou de Beethoven, de Chopin, de Debussy, dos franceses, dos alemães. Eu me inspiro muito em Chopin, porque eu gosto do romantismo. Eu acho que o romantismo é uma expressão legítima de música erudita, de música pura.

JC – E além de lugares e do muso, quais outras coisas que a inspiram? Quando a senhora sente que é motivo ou hora de escrever uma música?

Nida – Um momento de satisfação, de felicidade, porque eu gosto demais, eu adoro, a amizade. Todas as pessoas que conheço e tenho relação de amizade, acabo dedicando as minhas músicas, sempre tem alguém para dedicar.

JC – Hoje, o que representa para a senhora ter um disco, um método, uma música cantada por um coral (o Arte Vida, regido por Sônia Berriel tem em seu repertório a canção “Recanto de Luz”, de Nida Marchioni), a oportunidade de ter uma música executada por uma orquestra da sua cidade? Qual é a dimensão da satisfação da senhora?

Nida – É uma dádiva! É a satisfação de ter recebido de Deus, meu pai criador, a inspiração da música e poder viver no mundo da música, que para mim é o meu mundo.

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