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Cães e pedestres: convivência polêmica

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Grandes, pequenos, ferozes, mansos, com coleira ou correndo livremente. Os cães estão por toda a parte da principal via de lazer de Bauru, a avenida Getúlio Vargas, local que reúne no final das tardes centenas de pessoas fazendo caminhada, andando de bicicleta, praticando esportes ou simplesmente levando seu totó para passear e, talvez, fazer cocô.

Além do desconforto de ter de desviar dos montes deixados pelos cães, principalmente na grama que ladeia o calçamento, muitos pedestres se declaram incomodados e até intimidados com a presença dos cachorros nas calçadas da avenida, em especial aqueles de grande porte ou reconhecidamente ferozes, como o pit bull e o rottweiler.

Embora a lei municipal 4.430, de março de 1999, exija a utilização de corrente e focinheira nas raças citadas (além de outras de “confirmada ferocidade”) para passeio em vias públicas, ela nunca foi aplicada de fato nesses quase cinco anos. Os motivos são diversos: falta de funcionários treinados, inexistência de “carrocinha” ou de um local adequado para deixar os cães.

Um lei estadual em vigor desde novembro passado também exige a condução de cães de raças tidas como ferozes em vias públicas somente com guia, enforcador e focinheira. A lei prevê multa de dez UFEPs (pouco mais de R$ 110,00) a quem desrespeitar as regras.

Na semana passada, em Bauru, um incidente envolvendo o proprietário de dois cães da raça dogue alemão reacendeu o problema da lei municipal - que já está no rol daquelas famosas “leis que não pegam”. Embora assuste pelo grande porte, o dogue alemão é um cão considerado dócil.

Assustados com a presença dos cães sem focinheira - e, segundo relatos, com a guia solta - na avenida Getúlio Vargas, pessoas que caminhavam no local acionaram a Polícia Militar (PM). Os cães e o proprietários foram encaminhados ao Plantão Policial e liberados em seguida. O motivo: a raça em questão não é citada na lei e apenas um laudo poderia comprovar a ferocidade dos animais.

Para o veterinário José Rodrigues Gonçalves Neto, chefe da Seção de Controle de Zoonoses da prefeitura, o exemplo acima mostra que faltou estudo e análise na elaboração da lei municipal. Na opinião dele, mais do que uma lei, é necessário haver bom-senso por parte dos proprietários.

Incômodo

Quem caminha na avenida Getúlio Vargas nos finais de tarde já sabe que certamente vai cruzar com cães, de poodles a rottweilers. Embora alguns não se incomodem com a presença, a maioria é contra a presença de cães no local, especialmente das raças consideradas mais ferozes.

A estudante Fernanda Veronese Lima passeava na Getúlio com Aika, uma lhasa-apso, na tarde de sexta-feira. Ela conta que raramente leva a cachorra como companhia na caminhada - quando o faz, fica atenta para não passar próxima a cães maiores. “Eu tenho medo, apesar de ter também uma pit bull. Tanto que não a trago para andar aqui”, afirma.

A mãe de Fernanda, a dentista Isabel Cristina Veronese de Oliveira, também se incomoda com a presença de cães de grande porte no local. “Eu acho que não deveria trazer. Aqui é um local para as crianças andarem de bicicleta, para fazer caminhada. Todo mundo corta volta desses cachorros”, diz.

Ambas apontam também a questão da sujeira deixada pelos cães. No entanto, Fernanda afirma que a pequena Aika é educada. “Ela nunca fez, mas acho que, se fizesse, eu limparia”, diz.

O fotógrafo Frank Simões leva seu boxer King cerca de duas vezes por semana para passear na Getúlio. Apesar da “cara de mau”, Simões diz que o cão é dócil e brincalhão. “O pessoal não assusta com ele não, é tranqüilo”, diz. Quanto à sacolinha para recolher a sujeira, ele admite que não leva. “Como eu saio pouco com ele, nem trago nada, mas ele faz no mato. Mesmo assim é chato”, declara.

As dentistas Kellen Gasgue e Esther Takamori afirmam que os cães não causam tanto medo, apesar de elas tomarem alguns cuidados. “Não me incomoda muito não, mas prefiro não passar do lado”, diz Kellen. “A gente não sabe se os donos estão segurando direitinho. Vai que acontece alguma coisa e eles soltam os cachorros. Dá um certo medo”, completa Esther.

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Vira-latas respondem por maioria dos ataques

Os números do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) mostram que a quantidade de ataques de cães em Bauru é alta e a grande maioria provocada por cães sem raça definida, isto é, vira-latas. Em 2003, foram registradas 1.582 agressões provocadas por mamíferos - mais de 90% por cães.

De acordo com o veterinário José Rodrigues Gonçalves Neto, chefe da Seção de Controle de Zoonoses, não há relato formal de ataques de cães considerados ferozes, como pit bull, presos na guia. “Os acidentes que ocorrem com cães dessas determinadas raças foram porque esses cães estavam na sua residência e escaparam”, afirma.

Por esse motivo, Gonçalves Neto discorda da lei da focinheira. “Pelos números, exemplifica que isso não é o problema”, diz. E argumenta: “O CCZ e a administração pública não têm condições de ter fiscais na rua, fiscalizando se o dono está andando com o cão com focinheira ou sem focinheira”.

O veterinário insiste que não haveria polêmica alguma - nem seria necessária nenhuma lei - se houvesse mais bom-senso. “Se você tem um cão de grande porte e quer passear com ele, procure um lugar onde tenha pouca gente, não a Getúlio Vargas”, declara.

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