Cultura

Sobre mundos: No princípio era a palavra

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez o rei ordenou a um de seus servos: “Quero que vá ao açougue e me traga o que você encontrar de melhor!” Então o servo trouxe uma língua, a qual foi preparada pelo cozinheiro do palácio e levada ao rei em um prato de prata. No outro dia o rei ordenou ao mesmo servo: “Vá ao açougue e me traga o que você encontrar de mais ordinário!”

O servo, como fizera da primeira vez, trouxe uma língua. Esta foi novamente preparada pelo cozinheiro do palácio e levada ao rei em um prato de prata. O rei provando a língua disse ao servo: “Que quer dizer isso? Para qualquer recomendação você me traz sempre uma língua? O servo, que era, aliás, um verdadeiro sábio, explicou com certa mordacidade: “A língua é quanto há no mundo de melhor e, também, de pior. Se bondosa, nada há de melhor; se maldizente e mentirosa, nada haverá de pior”.

Na obra de Goethe “Fausto”, o protagonista procura fazer a tradução do Novo Testamento para sua língua materna. Ao iniciar sua tentativa, se depara com a frase: “No princípio era a Palavra”. Fausto procura, então, traduzir “Palavra” com mais precisão: “No princípio era o sentido”. Não satisfeito, toma a resolução de escrever: “No princípio era a Força”. Ainda não feliz com a tradução realiza sua última tentativa: “No princípio era o ato”.

Desta forma, Goethe propõe que palavra e ato sejam compreendidos como sinônimos. Sem dúvida alguma, aparentemente, existe uma grande distância entre o que falamos e o que fazemos. Mas, se prestarmos bem atenção na dinâmica do jogo da vida, chegamos à conclusão de que todo ato teve sua origem na palavra.

No jogo do viver tudo começa com nossa postura interior, através daquilo que pensamos e formulamos em palavras. Tudo aquilo que imaginamos com intensidade e freqüência possui conseqüências concretas em nossa vida. Por isso, para se obter êxito no jogo da vida é necessário educar nossos pensamentos, imaginações e palavras. Se tivermos nossa faculdade imaginativa educada para o bem, realizaremos em nossa vida todo o desejo justo de nosso coração: saúde, riqueza, amor, amigos, enfim, a expressão perfeita de nós mesmos.

A produção constante de nossa mente acaba sempre virando carne, tornando-se realidade. Nossa mente é constituída por três partes: o subconsciente, o consciente e o super consciente. O subconsciente é uma força poderosíssima, porém, neutra e sem direção. É como o vapor e a eletricidade, que executam coisas de acordo com a direção recebida. Aquilo que sentimos profundamente em nosso íntimo, ou aquilo que imaginamos é impresso em nosso subconsciente e programado para tornar-se ato.

A mente consciente é a nossa dimensão racional. Com ela julgamos aquilo que podemos ou devemos realizar em nossa vida. A mente super consciente é a mente divina manifestada em todo o ser humano, sendo, por isso, a região dos sonhos, dos desejos e das utopias.

Ela representa nossos ideais, a nossa expressão de perfeição e nos anima a permanecer na vida. A abundância existe em nosso caminho, porém, só poderemos levá-la à manifestação através dos desejos, da fé e das palavras. Jesus Cristo nos explicou que somos nós que devemos fazer o primeiro movimento: “todo aquele que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá” (Mt. 7, 8). Todo nosso desejo, manifestado ou não, é uma prece. Nada se impõe entre nós e nossas utopias senão o medo e a concepção infeliz de não sermos capazes.

A desconfiança em nós mesmos significa cegueira e o medo nada mais é do que a fé inversa. Uma das grandes mensagens de Jesus Cristo é a verdade de que somos filhos de Deus. Como tais, temos a capacidade, queiramos ou não, de tornar nossas palavras uma realidade. Nós temos sempre um ouvinte silencioso e poderoso ao nosso lado: o subconsciente. Todo pensamento, toda palavra é impressa nele e executado depois.

O caminho de realização pessoal se inicia com o rompimento de todos os antigos registros de nossa mente subconsciente, dos registros negativos e a sua substituição por outros que sejam novos e belos. Os maus registros de nosso subconsciente são os pensamentos que expressam os sentimentos de raiva, medo, tristeza e preocupação.

As nossas palavras, sejam elas pensadas ou pronunciadas, devem afirmar que nossa vida é uma expressão de princípios positivos como harmonia, amor, verdade e justiça. Apesar de muitos afirmarem que a vida é uma luta, se pararmos um pouco para pensar, chegaremos à conclusão de que ela é na verdade um jogo e este consiste na dinâmica do dar e receber. O que damos recebemos da vida. O que pensamos e fazemos possui seus efeitos no universo.

Se dermos ódio, receberemos ódio, se dermos amor receberemos amor. Para um recomeçar neste jogo da vida, além da mudança no ato de pensar, seria muito bom a leitura do pequeno livro “Alegria e Triunfo” de Lourenço Prado (Ed. Pensamento). “Os ideais que iluminaram meu caminho e sempre me deram coragem para enfrentar a vida com alegria foram a verdade, a bondade e a beleza” (Albert Einstein).

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