“Suplemento nutricional é como comida” - a afirmação é da nutricionista Érica Fernanda Zago. Pós-graduada em Nutrição Esportiva, ela condena a polêmica que se criou em torno destes produtos. “Eles servem para suprir carências nutricionais e não há qualquer registro ou depoimento de que eles tenham feito mal a alguém”, salienta.
Ela contesta afirmações feitas recentemente por nutricionistas de São Paulo que faziam um alerta contra o uso indiscriminado de suplementos. Em matéria publicada pelo JC Saúde no dia 4 deste mês, duas profissionais advertiam que o consumo exagerado destas substâncias pode causar danos graves à saúde, como problemas gastrintestinais, neurológicos e renais.
“Muitas pesquisas já foram feitas. Não se sabe exatamente quais são os efeitos colaterais dos suplementos, mas também não se conseguiu comprovar nada contra a utilização deles”, destaca Zago.
Ela confirma que a ingestão abusiva pode causar algum transtorno metabólico, alegando que até água em excesso faz mal à saúde. Mas pondera que mesmo o consumo exagerado do suplemento seria menos danoso ao organismo que o consumo exagerado da matéria-prima.
“A proteína do soro do leite, por exemplo, que é um dos suplementos mais consumidos: a indústria pega a matéria-prima, separa a gordura, separa o carboidrato e extrai só a proteína. Se você abusar do suplemento, vai ingerir só proteína. É muito menos prejudicial do que exagerar na feijoada, onde você tem uma quantidade enorme de gordura”, compara.
Na opinião dela, a preocupação exagerada com o uso dos suplementos alimentares deve-se à desinformação. Por trazerem em seus rótulos figuras de fisiculturistas “gigantes”, os produtos acabaram sendo associados aos anabolizantes - estes sim substâncias químicas usadas para aumentar a musculatura e que oferecem inúmeros efeitos colaterais.
“Isso assusta. Outro dia chegou uma mãe desesperada com um pote de aminoácidos na mão, dizendo que o filho estava tomando ‘aquilo’, como se fosse uma droga. Quando eu expliquei para ela o que era o suplemento, do que ele era feito, ela saiu rindo”, conta.
Zago adverte que o que pode fazer realmente mal são os produtos clandestinos, de má procedência, que podem ter sido manipulados e armazenados de forma inadequada. Neste caso, há risco até de contaminação.
“O perigo também está nos produtos que são proibidos, como os termogênicos com efedrina, que a gente sabe que são vendidos no comércio paralelo (...) Muito melhor que os jovens se entupam de suplementos nutricionais que de bebidas alcoólicas ou outras drogas”, enfatiza.
Usuários
Questionada sobre quem deve ingerir suplementos alimentares, a nutricionista Érica Zago afirma que eles são indicados para todas as pessoas que precisam complementar a ingestão de nutrientes quando esta não é suprida na dieta regular.
Isso pode ocorrer por uma necessidade aumentada em função da atividade física, por uma dieta restrita para ganho ou perda de peso ou ainda para quem precisa melhorar o estado de saúde durante um tratamento medicamentoso, por exemplo.
A indicação mais comum, segundo ela, é para os atletas profissionais, que chegam a consumir 8 mil calorias em um dia. “Isso sem falar na quantidade de minerais - cálcio, potássio, magnésio, etc - perdidos durante esses treinos e provas”, acrescenta.
Mas qualquer pessoa que apresente um déficit nutricional pode recorrer a eles, mesmo aquelas que mantêm uma alimentação balanceada e um nível normal de atividade física.
“Se a pessoa sai do trabalho e vai direto para a academia e sua última refeição foi o almoço, não é legal ela treinar sem comer, pois pode haver uma hipoglicemia. Um ‘shake’ de carboidrato melhora o desempenho. Nesse caso, o suplemento é muito bem-vindo”, exemplifica.
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Orientação profissional
Os suplementos nutricionais são classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como alimentos. Sua comercialização requer aprovação da Anvisa, mas a venda é liberada, ou seja, dispensa uma receita médica ou qualquer outro documento. Mesmo assim, a maioria dos estudiosos recomenda que se busque orientação com especialistas. Médicos e nutricionistas seriam os mais indicados.
A nutricionista Érica Zago, porém, salienta que o bom senso é fundamental. Ela afirma que apenas 2% dos profissionais cadastrados pelo Conselho Regional de Nutrição (CRN) são especializados em nutrição esportiva. “A tendência da maioria é recomendar só uma dieta balanceada, mas isso não satisfaz o aluno de academia que vê todos os outros usando suplementos”, comenta.
Ela cita o caso do atleta Mario Adriano Bassoto, que treinava meia maratona. Em reportagem para a revista “Muscle in Form”, ele conta que procurou diversos nutricionistas para orientá-lo, mas todos limitavam-se a indicar dietas balanceadas, mesmo ele dizendo que era impossível comer a cada três horas mantendo um treino diário e intenso. Cansado, ele buscou informações e começou a usar os suplementos por conta própria.
“Às vezes, é melhor conversar com um professor de educação física que entenda de suplementos do que com um nutricionista que não entenda. Ele fala que o aluno não precisa de nada, o aluno não se sente satisfeito, porque ele vê que outros tomam, que a academia vende e ele quer melhorar sua performance”, defende Zago.
Ela salienta que, teoricamente (porque não há nada comprovado), o risco de sofrer um prejuízo à saúde, mesmo usando o produto sem orientação, é mínimo. “O excesso teria que ser muito excessivo para ocasionar algum problema, se é que ocasiona. O maior problema que pode acontecer pelo excesso é o aumento de peso (...) porque o organismo não tinha necessidade de receber todo aquele nutriente”, comenta.