Suprema ignomínia! O Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP- Piracicaba, publicou trabalho na revista “Pesquisa Fapesp” de dezembro. Utilizando espectrômetro de massa, capaz de pesar quantidades ínfimas de matéria, descobriu que nosso vinho está batizado com álcool de cana. Muito mais grave! Nossa cerveja contém doses elevadas de milho.
Das amostras testadas, cerca de um quarto das garrafas de vinho nacional continha mais de 3% de seu teor alcoólico derivado da cana. Fabricantes injetam, ainda, gás carbônico nos vinhos espumantes. As borbulhas não são produzidas pela fermentação. O estudo do malte das cervejas mostrou que quase todas contêm altas doses de milho. Em média, 48,7% de malte de milho.
Atletas das cervejas, pasmem! Notícia perfeita para alegrar o ano. Reclamando de que? Comer gato por lebre? Estamos acostumados? Basta acompanhar o noticiário político de balanços do ano que se foi e escutar os augúrios do novo ano!
Delfim Neto, em artigo “... Se hace camino al andar”, lembra das loucas previsões dos economistas bem informados para 2003. Erraram radicalmente. Hoje, as previsões indicam, para 2004, um crescimento de 3,6% do PIB e saldo comercial de US$ 20 bilhões. Previsões que incorporam informações sobre o comportamento do governo Lula e da conjuntura internacional. Todas as incertezas de Bush e do governo Lula! É pouco. Muito pouco.
“Essas previsões têm de ser tomadas pelo que são: palpites mais ou menos informados. Ninguém prevê crescimento de 5% do PIB, pois ameaçaria a estabilidade e todo mundo prevê apenas 77 bilhões de exportações.” Ironiza o arguto deputado Delfim Neto: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”... As previsões dos economistas, mistura de astrônomos e astrólogos, são trituradas com elegância. Não vamos mais comer gato por lebre.
Lula da Silva, no final de 2003, discreto na fala, segredou em reuniões privadas: “O ano que vem (2004) ainda não será o dos meus sonhos. Ainda não dá para fazer tudo o que a gente gostaria, mas será melhor do que este ano”. Capitulação estratégica. Desistiu da reforma trabalhista e afirma que enviará ao Congresso a reforma sindical. Curvou-se diante das seguradoras, dos planos de saúde e dos bancos. Zé Dirceu quer rever os gastos com os aposentados das universidades públicas. Solução final para os idosos orquestrada pelo ministro Ricardo Berzoini. Redução da aposentadoria e pensões dos funcionários. Vem a redução da aposentadoria dos assalariados do setor privado. Aumento do imposto de renda dos salários, com recusa da correção. “Tudo se volta com quem passou vida trabalhando ou trabalha ainda como assalariado ou como funcionário civil. O governo do PT pune quem não se tornou patrão ou por qualquer modo, não se fez capitalista. Esperemos o Partido dos Capitalistas para compreender muito bem o valor do trabalho, logo, dos trabalhadores.” Arremata, em balanço crítico, mal humorado, Jânio de Freitas.
A oposição titubeia. Discute se ataca à política econômica do governo Lula da Silva ou defende a herança de Malan. Um crítico, irônico e lúcido, lembra o caminho a trilhar: “Se quiser fazer oposição séria à política econômica do governo, a oposição terá à sua disposição, à margem da política de estabilização, vasto leque de questões a merecer críticas severas. Basta ter em mente os descaminhos da reforma tributária, o desmonte das agências reguladoras, os delírios do BNDES, a inconseqüência da política fundiária e o experimentalismo amador que vem marcando a ação do governo em muitas áreas. Assinado, Rogério Werneck, do Departamento de Economia da PUC-Rio. Berço dos conselheiros de Antonio Palocci,
Lula da Silva recebe aplausos veementes do mega-empresário Benjamin Steinbruch e do presidente do banco Itaú, Roberto Setúbal, falando pelos banqueiros. Aleluia!... Estamos engasgados, devorando gatos por lebres...
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.