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O pianista solitário


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Ninguém mais solitário do que um pianista. Esse complexo instrumento não dá chance para o executante conversar com quem está do lado tal o número de tarefas a ocupar todos os dedos. Talvez venha daí a sensação de solidão que o pianista me transmite. Principalmente esses de bar. Quando estou no Rio de Janeiro vou ao Chiko’s Bar, na Lagoa, onde toca Luiz Carlos Vinhas. Dica do dr. Barthô totalmente aprovada. Além de grande compositor o homem estraçalha ao desfiar todo o seu repertório de MPB, principalmente bossa-nova. Olha que eu já vi e ouvi o Oscar Peterson tocando. Tinha uma mão tão grande que dava acordes de doze notas simultâneas com os dez dedos. O duro nos piano bar é agüentar os fregueses com aqueles pedidos de “toca outra vez” pronunciados com voz pastosa. Todos se sentem o próprio Humphrey Bogart no filme “Casablanca” onde Sam, o pianista negro, toca “As time goes by”. Meu amigo psicanalista Oswaldo dos Santos tinha cópias do filme original e masterizado. E mais 59 discos com arranjos diferentes da música-tema. Sempre me assegurava que o Rick (Bogart) jamais disse “Play it again, Sam”. A frase original é: “Se ela pode suportar eu posso suportar, toca As time goes by, Sam”. Toda vez que Oswaldo conseguia uma versão nova da música ligava para mim do Rio para comunicar a novidade. Nos estertores da morte, roído pelo câncer, pedia para a empregada repetir o mesmo disco com a Judy Garland, sua versão preferida. Morreu ouvindo “As time goes by”. E dizia que o louco era eu. Até como elogio porque, segundo ele, “os loucos é que são lógicos”.

Luisinho Eça, outro grande pianista carioca, lamentava a tragédia do cliente babando na gravata que pede para tocar “Babalu”. Há aquele que fuma com profundas tragadas enquanto ouve o pianista. Acho que fumar é um jeito discreto de ir queimando as ilusões perdidas. Daí esse ar entre aliviado e triste dos fumantes solitários. Vocês já repararam que nenhum deles fuma sorrindo? Minha filha ficou observando um cara que rodava o tempo todo o gelo do copo de uísque com o auxílio do dedo indicador, diante de um tira-gosto de lascas de bacalhau. Ela me perguntou se uísque com bacalhau é bom. Sei lá. Prefiro com vinho verde. Gostava de ir ao Bar Brahma, na esquina da Ipiranga com a avenida São João. Lá o repertório do pianista era de tangos e boleros. De vez em quando um desses caras de jaquetão e cabelo engomado pedia para dar uma canja ao microfone. Lá vinha “Cuesta abajo” ou “El dia en que me quieras”, no mais caprichado sotaque portenho.

Há canções que ecoam no tempo e jamais se calam. Podem se esgarçar no ar como a fumaça que passa. Assim cantava Dick Farney no Nick Bar. Mas o som, mesmo em surdina, permanece para sempre. Fim-de-tarde-começo-de-noite, durante a minha caminhada costumo fazer uma pausa no Confiança para tomar água. Ouço o pianista contratado para dar um tom de sarau às compras das tradicionais famílias bauruenses. Chego bem na hora do “I’ve got you under my skin”. Quando recebe ordens para acelerar as vendas, ele toca “New York, New York”. André Netto - acho que é este o nome do pianista - é ótimo, mas me parece outro condenado à solidão. Colocaram-no numa plataforma quase pregado no teto do supermercado. Estou louco para encontrar o Jad e sugerir a ele que ponha o pianista ao rés-do-chão cercado de melões, abacaxis e couves-flores. Os fregueses precisam vê-lo, apalpá-lo como fazem com os pêssegos, pedir “toque aquela outra vez”. Nem um pouco difícil que apareça alguém querendo “É o amor”, de Zezé de Camargo e Luciano. Que se há de fazer? Tenho certeza de que o supermercado venderia mais e o André deixaria de viver naquela plataforma, esmagado pelo teto. Coisas da vida. Isso é Bauru, onde ainda há lugar para boa música em supermercado. O que é bom cabe em qualquer lugar. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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