Sua função é não deixar ninguém sem notícias da família e dos amigos, sem a encomenda pedida por telefone ou pela Internet ou mesmo sem as contas e cobranças de todo mês. Os carteiros, que comemoram hoje seu Dia Nacional, enfrentam sol, chuva e muitos cachorros exaltados para entregar toda a correspondência de sua região.
Em Bauru, alguns desses profissionais passam por uma situação complicada, principalmente quando começam a percorrer um novo bairro da cidade: a falta de sinalização das ruas e a irregularidade dos números nas casas. Especialmente nos bairros mais recentes, muitas vias ainda não receberam placas com seus nomes e até mesmo os moradores locais se confundem na hora de prestar informação.
O carteiro Tadeu Pereira de Oliveira atende normalmente a região da Vila Garcia, Santa Cecília, Jardim TV e Parque São Geraldo. Ele aponta que alguns desses locais ainda não foram sinalizados.
“Nos primeiros dias em que eu trabalhei nessa região, sempre perguntava para as pessoas, pedia informação. Depois de descobrir o que eu precisava, eu ainda passava a orientação para outros colegas. A gente precisa fazer esta troca de informação, senão pode entregar alguma coisa em lugar errado”, diz.
Márcia Adriana Monge, que é colega de trabalho de Tadeu, percorre diariamente a região do Jardim Olímpico e Núcleo Geisel. Segundo ela, em alguns bairros a confusão é tão grande que as ruas chegam a ter três nomes diferentes. “Tem as ruas que tinham nome com letra, depois batizaram com um nome e com outro. Nem os moradores sabem direito em que rua eles vivem e é uma confusão”, diz.
Para Márcia, a falta de sinalização nos bairros traz um benefício: a amizade e o relacionamento com os moradores. “Mesmo a cidade sendo grande, acabamos conhecendo as famílias pelo sobrenome, sabemos quem mora nas casas. Então, se tem uma carta sem número, com endereço incompleto, a gente acaba encontrando mesmo assim, porque já conhece as pessoas”, comenta.
Normalmente, os carteiros passam por um rodízio semestral para conhecerem e atenderem outras regiões da cidade. No entanto, Oliveira observa que sempre é possível fazer amizades e conhecer os moradores e as pessoas que trabalham em cada bairro.
“As pessoas sempre gostam dos carteiros, a gente cria amizades até. Sempre tem alguém ou o pessoal de alguma firma que oferece água, café, que deixa a gente dar uma paradinha para ir ao banheiro. O que a gente precisa, eles ajudam”, conta.
Correndo do perigo
A cena de um carteiro fugindo de um cachorro pode parecer engraçada na tevê, mas esses profissionais passam por verdadeiros apuros quando encontram um “totó” menos amigável.
“Eu já fui surpreendido muitas vezes. No meu setor, tem um que corre atrás da minha moto todo dia, e eu corro com a moto para ele não me pegar. O nome dele é Beethoven. Todo dia ele escapa e vem atrás de mim. E eu escapo!”, brinca Oliveira.
Já Márcia não teve tanta sorte. Ela conta que já foi mordida duas vezes por cachorros grandes e uma vez por um pequeno, porém enfezado. “Na última vez, a moradora estava na porta quando o cachorro escapou e me mordeu. Ela me chamou e ajudou nos primeiros socorros, fez um curativo em mim”, relata.
Para evitar outras mordidas e sustos, Márcia explica que os carteiros têm por costume trocar informações sobre as casas com os “totós” mais afobados. “A gente já indica as casas onde não dá nem para colocar as cartas na caixinha (de correspondência) porque o cachorro avança pela grade. Contamos tudo para não deixar ninguém em apuro”, enfatiza a carteira.
Entregas
Somente no Centro de Distribuição Domiciliar (CDD), “Marechal Rondon”, onde Oliveria, Márcia e outros 40 carteiros trabalham, o volume de correspondência e objetos simples entregues por mês chega a 30 mil. Em toda a cidade, esse número chega a ultrapassar 80 mil unidades mensalmente.
O supervisor de distribuição Osires Claudinei Ervilha explica que todas as correspondências são entregues diariamente, mesmo que seja necessário que os profissionais trabalhem algumas horas extras.
“Estamos fazendo um trabalho em cima dos setores que têm ruas irregulares, para que os funcionários não percam tanto tempo e o trabalho não seja prejudicado”, afirma.
Porém ele concorda que essa situação que poderia dificultar o trabalho acaba realmente aproximando os carteiros dos moradores. “Há um rodízio de carteiros, que mudam de setor para conhecer outros pontos da cidade. Mas eles conhecem as pessoas de cada lugar e acabam tendo um contato bom, ganhando a confiança dos moradores”, conclui Ervilha.
Antigos tropeiros
Em 25 de janeiro de 1663, foram criados os cargos de “correio mor da terra” e “correio mor do mar”, os serviços que tentavam aproximar os primeiros moradores das terras brasileiras tanto de outros imigrantes como de seus antigos conhecidos deixados na Europa.
Os primeiros carteiros do Brasil, ainda na época da colonização, foram os tropeiros que realizavam entregas montados em burros e cavalos. Somente em 1835, um decreto instituiu os “correios” - os primeiros carteiros - que viabilizavam as entregas nos domicílios. Para tal, eles deviam saber ler, escrever e contar.
Finalmente em 1842, um decreto passou a chamar esses trabalhadores de carteiros e também instituiu o uso de selos adesivos nas correspondências. Com isso, os correios do Império passaram a usar porte antecipado das cartas.
Atualmente, mesmo com as mensagens eletrônicas, o movimento nos Correios ainda é grande e os carteiros seguem com seu trabalho, levando as encomendas e mensagens a pé, de moto ou bicicleta.