O Ministério da Saúde anunciou há alguns dias a intenção de construir no Brasil uma fábrica para a produção em larga escala de hemoderivados - subprodutos extraídos do sangue humano e processados industrialmente. Essas substâncias são usadas no tratamento de inúmeras doenças, com a vantagem de que a pasteurização industrial elimina os riscos de contaminação, tornando-as mais seguras que o sangue “in natura”.
Depois da coleta e dos testes de segurança, os hemonúcleos processam o sangue, fracionando-o em até quatro partes: concentrado de hemácias (usado para repor os glóbulos vermelhos), plaquetas (que facilitam a coagulação sangüínea em pacientes com hemorragia), o crioprecipitado (para coagulação em situações de emergência) e o plasma (parte líquida do sangue).
Usado “in natura”, o plasma auxilia principalmente no tratamento de queimaduras severas, fornecendo hidratação e fatores de proteção ao paciente. Mas o processamento industrial deste componente permite fracioná-lo em 60 proteínas diferentes. Metade delas já foi identificada para uso terapêutico.
Um exemplo é a utilização do Fator VIII no tratamento da hemofilia. Segundo o Ministério da Saúde, o consumo anual deste hemoderivado em todo o Brasil ultrapassa 150 milhões de unidades por ano. Nos últimos sete anos, cada unidade do produto foi importada por US$ 0,42, o que gerava um gasto anual de US$ 65 milhões.
Para abater as despesas com a importação dos hemoderivados, o Ministério da Saúde adotou mudanças nos critérios de licitação internacional em 2003. Uma negociação realizada em novembro conseguiu baixar o preço da dose do Fator VIII para US$ 0,12 - uma economia de aproximadamente US$ 25 milhões para o governo.
“A iniciativa permitiu uma redução total de 71,5% no preço de compra da unidade do produto em relação aos anos anteriores, e garantiu a assistência ininterrupta dos cerca de 7 mil hemofílicos brasileiros que dependem da medicação”, destaca a Agência Saúde (assessoria de imprensa do ministério).
Mais economia
De acordo com o Ministério da Saúde, a construção de uma fábrica de hemoderivados no Brasil deverá gerar uma redução de 50% no total de gastos anuais com a importação dos produtos. A empresa deverá fracionar 400 mil a 500 mil litros de plasma por ano.
Atualmente, existem duas fábricas deste tipo no País, mas que só processam a albumina (um dos 60 hemoderivados conhecidos). Por isso, o Brasil importa 90% dos derivados de sangue usados para atendimento de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso representa um gasto anual que varia entre US$ 120 milhões e US$ 140 milhões, segundo a Agência Saúde.
O governo prevê um investimento de US$ 60 milhões para construir a Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Embraheb). Em contrapartida, a fábrica deverá gerar uma redução de 50% no custo atual com as importações - uma economia total estimada entre US$ 60 milhões e US$ 70 milhões por ano.
“O projeto de lei que cria a fábrica de hemoderivados está em tramitação no Congresso Nacional, para onde foi enviado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, informa a assessoria de imprensa do ministério. O projeto foi incluído como meta do Plano Plurianual de Saúde e deve ser concluído em três anos.