Enquanto oposição, uma das maiores críticas realizadas pelo grupo que assumiu o poder no Brasil, liderado pelo presidente Lula, era de que os governos anteriores, especialmente a gestão FHC, investia muito pouco no País. Passado o primeiro ano de governo daqueles que lançavam bravatas contra FHC, percebe-se a enorme distância entre discurso e prática.
Em seu primeiro ano de gestão, o governo Lula investiu cerca de um terço daquilo realizado por FHC em seu ano mais apertado. Em 2003 o governo petista investiu 0,27% do PIB (R$ 4,2 bilhões), enquanto em 1999, ano mais difícil da administração anterior, foram destinados 0,71% do PIB para investimento. Além disto, o governo Lula é aquele que mais gastou com o pagamento de juros em relação à dívida federal (prática condenável por petistas enquanto cerravam fileiras na oposição), destinando R$ 83 bilhões para este serviço.
Segundo os petistas, investimentos tão parcos, pagamento de elevados juros e um enorme déficit no INSS fazem parte da “herança maldita” deixada pelo governo FHC. Não há dúvida de que a administração anterior deixou passivos elevados, visto que no início da gestão tucana o déficit do INSS era de R$ 500 milhões, além da dívida federal ser de 14,9% do PIB em 1995 e ter passado para 40% do PIB em 2003.
Entretanto, o governo FHC também deixou uma “herança bem-vinda” para este governo, ou seja, o aumento de receita, já que a carga tributária saltou de 26% do PIB no início da gestão FHC para 37% do PIB no final de sua administração. Neste ponto, o governo Lula aprendeu a lição muito rápido, pois o Brasil verificou novo aumento de receitas em 2003, deixando o governo federal mais rico e a população mais pobre. As receitas tributárias tiveram crescimento de 5,55% em 2003, o que levou as receitas totais a um crescimento nominal de 1,10%. Não podemos deixar de lembrar que o crescimento do país em 2003 será algo em torno de zero, logo, não serão gerados empregos, ao contrário, em São Paulo, o desemprego bateu recorde, chegando ao patamar de 20,1%. Enquanto isso, o salário daqueles que continuam empregados caiu 6,4% e o salário médio dos trabalhadores é o menor em 18 anos. Contra os números não há argumento.
Assim, com falta de recursos e contingenciamento das verbas orçamentárias, a lista de ministros do governo Lula passou o ano de 2003 reclamando da falta de verbas para suas pastas, exemplificada pela situação dos Ministérios dos Transportes, que investiu somente R$ 1,1 bilhão em 2003 (metade daquilo que foi investido em 2002). Contudo, 2004 tende a ser melhor. Será ano eleitoral, período de sufrágios municipais, onde serão eleitos mais de 5 mil prefeitos no País. Estas pessoas são de fundamental importância para a estratégia de reeleição de Lula.
A ordem no PT é eleger o maior número de prefeitos para lançar as bases da campanha presidencial. Assim, o Brasil verá na campanha “Lula 2006” a maior e mais forte máquina eleitoral já posta em prática na história. Em ano de eleições municipais o governo federal irá investir o orçamento ordinário do ano que se inicia, somado a farta sobra de recursos de 2003. O Planalto investirá muito em 2004, entretanto, ao custo de um crescimento pífio em 2003 e com um grande objetivo: vencer as eleições que lançarão as bases da reeleição do grupo que está instalado no poder. A estratégia petista-governista está lançada.
O autor, Márcio Chalegre Coimbra, é advogado.