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País prepara bons motoristas?

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

A cada ano, segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), mais de 1,5 milhão de pessoas tornam-se motoristas legalmente habilitados no País. Mas será que o sistema capaz de fornecer o direito de guiar por ruas e estradas a uma multidão de brasileiros consegue formar bons condutores?

A questão divide opiniões. Para o presidente da Associação das Auto e Moto Escolas de Bauru, Carlos Roberto Alves, a resposta é negativa. “O processo de habilitação instituído pelo novo Código de Trânsito é como um pai que não está sendo bom para seus filhos”, compara.

Alves sustenta que as 15 aulas obrigatórias exigidas legalmente no processo para habilitação de carro e moto são um período curto para quem nunca dirigiu antes. “Há a opção de fazer mais aulas, mas a maioria faz o mínimo, até para não gastar mais. E nós não forçamos porque senão acabamos saindo como vilões”, afirma.

No entanto, Alves destaca que há quem consiga aprender a guiar com eficiência cumprindo somente as horas/aula obrigatórias. “Mas hoje aprende-se apenas a tirar a carta e não a dirigir. É muito mais uma iniciação à direção”, frisa.

O presidente da associação concorda que outra falha do sistema é o fato de não prever ensinamentos para condução em estradas. “Como pode um motorista tornar-se legalmente habilitado se ele sequer foi treinado para dirigir em uma rodovia?”, questiona. “E não são poucos os que não vêem a hora de pegar a carta para viajar. É algo que arrepia só de pensar”, acrescenta.

Para Alves, guiar na rodovia trata-se de uma questão de bom senso. “Se a pessoa habilitou-se há pouco tempo, jamais poderá encarar uma estrada tão rápido. Uma saída é viajar com algum passageiro experiente que vá orientando o condutor”.

Outra medida sugerida por Carlos para amenizar tal problema aproveita o caráter temporário da CNH emitida àqueles que habilitam-se pela primeira vez. “Porque não proibi-los de pegar a estrada nos seis primeiros meses de vigência da carta?”, questiona Alves. “Pela proteção às vidas temos de fazer tudo ao nosso alcance”, complementa.

O presidente da associação defende ainda que, além de aumentar a carga horária mínima das aulas práticas, é preciso incrementar os conteúdos teóricos. “Hoje, os cursos teóricos, ministrados nos centros de formação, não têm índice de aprovação. Acho que não só deveria havê-los como também os de reprovação”, diz.

Além disso, complementa Alves, as auto-escolas não são mais obrigadas a atingir índices mínimos de aprovação de alunos, algo que era exigido anteriormente sob risco de advertências e até descredenciamento. “Tal fato é um grande erro, pois com eles nem os instrutores e os proprietários relaxam na qualidade dos serviços”, pondera.

Entretanto, Carlos entende que o sistema de multas e pontuação instituído pelo Código de Trânsito foi benéfico à formação dos motoristas. “Hoje, a pessoa já chega na auto-escola sabendo que se exceder o limite de velocidade, por exemplo, será multado de forma pesada”, salienta.

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Carta na mão

A bauruense Jéssica Lavado da Silva, 18 anos, tirou carta de carro e moto há cerca de dois meses. Para isso, efetuou o número de aulas obrigatórias por lei, que ela considera terem sido suficientes para o exame de automóvel. “Me dei bem com a quantidade mínima exigida por lei, pois me sinto segura para guiar atualmente”, considera.

No entanto, seu raciocínio modifica-se quando o veículo em questão é a moto. Para ela, o atual sistema de formação de condutores, principalmente o bauruense, é falho. “Os testes práticos são fora da realidade, pois quando estava tirando a carta andei apenas uma vez na rua. Falta essa vivência, que é importante para testar os reflexos de um futuro motorista”, considera.

A falta de experiência em estradas também já complicou a vida de Jéssica. Ela conta que quando precisou viajar de um município vizinho até Bauru ficou apavorada. “Fiquei com medo, pois tinha de enfrentar um ambiente onde nunca havia andado. A sorte é que estava com meu namorado, que me ajudou no momento. Mas se ele não estivesse comigo, jamais teria saído de lá”, revela.

Outro que também habilitou-se para carro e moto foi o bauruense Fernando, que pediu para não ter o sobrenome identificado. Para ele, o atual sistema não é capaz de formar bons motoristas. “A aprendizagem para carro é boa, mas para moto é falha, pois não há um percurso de rua para treinarmos”, critica.

Apesar disso, ele afirma sentir-se seguro para guiar. “Isso porque fiz mais aulas do que as obrigatórias e procurei me informar muito porque nunca havia guiado antes. Mas acho que uma pessoa de 18 anos não está muito apta a dirigir com os métodos que estão sendo utilizados hoje, principalmente os motociclistas”, argumenta.

Além disso, Fernando considera que dirigir na estrada será um dilema. “Não tenho experiência alguma em rodovia. É uma falha grave do sistema”.

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Para delegado, processo trouxe avanços

Enumerando uma série de razões, o delegado titular da 5.ª Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) de Bauru, Abel Fernandes Paes Barros Cortez, afirma não ter dúvidas de que o atual sistema forma bons motoristas.

Uma delas, conforme Cortez, foram os avanços no processo oriundos do novo Código de Trânsito, que geraram o aprimoramento dos métodos de aprovação. O delegado cita como exemplo a melhoria da qualidade dos conteúdos teóricos, que passaram a contemplar disciplinas como direção defensiva, primeiros socorros, meio ambiente, cidadania, segurança e mecânica e manutenção veicular.

O maior rigor nas punições aos motoristas infratores e a adoção do sistema de pontuação das multas também foram lembrados por Cortez como medidas positivas. “Isso tem feito muitos condutores conscientizarem-se de que se abusarem vão sentir no bolso as conseqüências”, destaca o delegado.

No entanto, Cortez afirma que o atual sistema de formação de condutores pode ser aprimorado. Para ele, o fato de não haver aulas práticas de direção em estradas não deve ser considerada uma falha. “O essencial é que a pessoa aprenda a guiar um veículo. Agora dirigir em uma rodovia após receber a habilitação é questão de foro íntimo e amadurecimento”, ressalta.

O delegado esclarece que durante o processo de formação dos motoristas são fornecidas noções teóricas de direção em estradas. “Todos os conhecimentos necessários, como as sinalizações, para que a pessoa tenha condições de guiar com segurança neste ambiente são repassadas aos candidatos”, argumenta Cortez.

Ele sustenta ainda que as horas/aula mínimas obrigatórias pela legislação, cujo número é criticado pelo presidente da associação das auto-escolas, foram estabelecidas por especialistas após estudos cuidadosos. Além disso, o delegado considera que nada impedirá o candidato a condutor a fazer aulas adicionais. “Cabe à pessoa analisar se está apta ou não para passar nos exames”, frisa.

Segundo Cortez, tal decisão é é uma questão de custo benefício. “Se uma pessoa não sente-se apta, insiste em fazer o exame e é reprovada, ficará mais caro para ela, pois terá de cumprir todo o processo novamente. Desta forma, o gasto será muito maior que se ela tivesse prestado algumas aulas a mais”, compara.

O delegado destaca também a seriedade e o rigor dos atuais exames. “Eles são executados por pessoas capacitadas e experientes na área. Por isso, quem não tem as condições mínimas para dirigir realmente não é aprovado. Basta ver o atual índice de reprovação em Bauru, que gira, em média, entre 40% e 50%”, ressalta.

Por isso, Cortez defende que tornar-se um bom motorista depende de conscientização. “A pessoa tem de estar preparada e conhecer sua capacidade e seus limites. Se ela foi habilitada, é porque reúne condições de dirigir, pois foi examinada anteriormente com rigor”, conclui.

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