No Parque Santa Edwirges, os idosos mostram-se insatisfeitos não só com a estrutura que o bairro oferece a eles, que deixa a desejar, mas com a insegurança. Eles reclamam da violência e passam grande parte do tempo dentro de casa.
O medo de sair às ruas e ser vítima de um assaltado, aliado à falta de opções de lazer, faz com que os idosos da periferia tornem-se sedentários e desestimulados.
A ex-doméstica Maria Amorim de Souza, 75 anos, mora há 45 no Parque Santa Edwirges. “Aqui é de amargar. Eu só estou aqui porque não tem jeito de sair. Aqui é barra pesada. É só briga, só gente matando os outros. É muita, muita violência. Muita”, enfatiza.
Além da falta de recursos, o reumatismo, o diabetes e a pressão alta de Maria a impedem de mudar para outro local. Dada a situação, ela prefere estar perto dos familiares.
“Eu gostaria de morar bem longe daqui. Lá para os lados da Vila Dutra. Lá é melhor. Aqui está muito feito. Tem muita gente, tem muito malandro. É ruim mesmo”, diz. “Eu não gosto daqui, mas não tem jeito de sair. A coisa está feia! Tem tiros à meia-noite, a qualquer hora”, acrescenta.
A rotina da moradora resume-se a lavar roupas, limpar a casa e cozinhar. “Eu não vou para canto nenhum. Eu gostaria que tivesse um lugar aqui para a gente passear, se divertir. Mas, aqui, não tem jeito. Não tem jeito de sair à noite porque o lugar é só gente matando gente. Para onde a gente vai? Eu não saio não”, salienta.
Outra reclamação de Maria refere-se ao atendimento no posto de saúde local. Ela afirma que só recebe remédios que não curam seus problemas. “Esses remedinhos do posto não servem para nada. Não melhoram nada. Estou só sofrendo, não posso nem comprar um remédio”, lamenta.
“Aqui (o bairro) merecia ter pessoas para atender os idosos melhor. Poderia ter uma ambulância para as pessoas doentes”, sugere.
Já Isabel da Silva Vasconcelos, 83 anos, deixou de lado o hábito de passear para evitar furtos em sua residência. Ela afirma que nunca teve problemas com violência mas já ouviu histórias contadas por vizinhos.
“Não saio porque eu não posso deixar a casa sozinha. Esse lugar é muito cheio de coisas, cheio de malvadezas. Quando eu fico em casa, eu tranco todas as portas e deixo só a janela aberta no meu quarto”, revela.
Mais violência
Maria da Conceição Brás de Souza, 61 anos, mora há 27 anos no Parque Santa Edwirges e também reclama da violência. Ela conta que seu filho foi espancado há poucos dias por um grupo de homens, em frente à sua casa.
“O mais duro aqui são as coisas de violência. É demais. Eu tenho medo de que eles matem alguém. Eu gostaria que as coisas fossem mais sossegadas e que não tivesse tanta violência”, diz.
O lazer de Maria da Conceição limita-se a visitar os filhos aos finais de semana. “Aqui não tem nada não. Só tem matagal. Se tivesse um lugar melhor para a gente poder andar seria melhor”, opina.
No quesito saúde, ela também mostra insatisfação. “Aqui, a gente vai ao posto e continua ruim. Só tem esses médicos ruins que nem põem as mãos na gente e dão o remédio de qualquer maneira. Isso deveria ser melhor”, afirma.
O morador Orlando de Souza Menezes, 71 anos, afirma que o bairro precisa de policiamento. “Os ladrões estão invadindo. Até enforcaram uma velhinha aqui perto. Isso não é um absurdo?”, destaca.
A casa de Orlando foi furtada três vezes. Nas ruas do bairro, ele já passou por dois assaltos. Em um deles, foi ameaçado com duas facas. Na segunda vez, com um revólver. Quando volta da igreja, à noite, o idoso tem medo de andar pelas ruas do bairro. “Claro que eu tenho medo da violência. Quem não tem medo?”
Maria da Conceição Silva Moraes, 75 anos, já evita ir aos cultos da igreja por insegurança. “Tem muito ladrão por aqui. Dá medo”, diz.
Ela reivindica mais policiamento. “O bairro tem que ser mais seguro. Só de vez em quando aparece polícia. Quando roubam alguma coisa numa casa, a gente chama e eles vêm. Mas demoram muito para chegar.”
Para o presidente da Associação de Moradores do Parque Santa Edwirges, Vivaldo Pereira Martins, as dificuldades que os idosos enfrentam no bairro são muitas.
“Falta lazer na região. Ainda não temos um centro comunitário então há uma enorme dificuldade com uma porção de coisas. Médico falta muito aqui no bairro. O prefeito não faz asfalto aqui de maneira nenhuma. O idoso fica mais em casa mesmo. Não tem para onde ir”, conta.
Comandante da 3.ª Companhia da Polícia Militar (PM), o capitão Flávio Jun Kitazume afirma que o Parque Santa Edwirges vive período menos violento que em anos anteriores. “Os crimes acontecem com menos freqüência”, diz.
Ele acrescenta que a Base Comunitária Noroeste, responsável pelo policiamento na região, faz trabalho preventivo com viaturas e motocicletas.
Kitazume garante que a violência está sob controle no Parque Santa Edwirges, embora ele não seja dos bairros mais calmos de Bauru.
“Não posso querer que de uma hora para outra um bairro carente como aquele seja um bairro tranqüilo. No que depende da polícia, posso te garantir que estamos dando resposta à comunidade. À medida em que surgem ocorrências, temos atendido”, diz.