“A vida não vale nada se você não tem uma boa história para contar”, diz o poeta Claufe Rodrigues, em seus “Poemas para Flauta e Vértebras”. É assim que me sinto agora, mesmo depois de ter assistido aos festejos dos 450 anos de São Paulo. Eu que vivi a passagem dos 400 anos, bem garotinho, postado à porta do Cine Marrocos transformado em Palácio do Festival de Cinema. Quando se é criança as emoções vêm fortes e à-toa. Vibrei quando vi Rhonda Fleming, belíssima com seus cabelos cor-de-fogo. Decepcionou-me a canastrice de Erol Flynn. Nunca me saiu da lembrança a careca reluzente de Eric von Stroheim, o motorista de Glória Swanson em “Crepúsculo dos Deuses”. Corri atrás dos triângulos prateados lançados por aviões sobre o prédio do Banespa - o mais alto naquela ocasião - enquanto holofotes em terra faziam brilhar aquela chuva de papéis. Infelizmente não fui tão precavido como o Ignácio de Loyola que guardou um dos triângulos entre as páginas do Atlas Geográfico e o tem até hoje. Cinqüenta anos são passados. Levei muito tempo para compreender porque tanta gente queria ver um enorme quadro na Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera recém-inaugurado, chamado “Guernica”, obra esquisita de um tal de Picasso.
Décadas depois revi o mural no Museu do Prado, protegido por vidros à prova de balas. Quando percorria o País Basco, de carro com o Marco Brisolla, nos demos ao luxo de passar um dia em Guernica. Ficamos surpresos com a cidadezinha pacata. Perguntei a um dos moradores onde ficava o memorial às vítimas do bombardeio alemão durante a Guerra da Espanha. Informou que nada havia a respeito. Franco jamais permitiria. Somente a estátua do fundador da cidade - um centurião romano - pichado de vermelho restava inútil na praça principal. Os guernicenses mais novos jamais haviam ouvido falar da tragédia que matou 1.200 pessoas somente porque Hitler, que apoiava Franco, queria testar o poder de fogo da Luftwaffe em treinamento para a II Guerra Mundial. Enquanto assistia ao show do Caetano na esquina da Ipiranga com a Avenida São João, vieram-me à mente essas imagens. Começou a chover quando a prefeita chegou ao camarote em companhia do seu novo marido. Realmente um homem belíssimo apesar da minha falta de prática neste tipo de análise. Logo atrás o ex-marido senador Suplicy. Pensei comigo: “Isso é que é ser civilizado”.
Sei lá como surgiu do nada um vendedor de capas de chuva, dessas de plástico transparente. Empreendedorismo de um crioulo que, certamente, havia se informado do boletim metereológico e apareceu na multidão com milhares de minúsculas embalagens das tais capas. Brotavam às dúzias de um saco que levava às costas. Com a rapidez de um cobrador de bonde (saudades) recebia o dinheiro da clientela, gritava palavras de ordem para disciplinar a multidão aflita com a chuva que apertava, fazia o troco e embolsava as notas de cinqüenta. “Calma, pessoal. Tem pra todo mundo. É só ter paciência”. Em pouco tempo a multidão estava toda plastificada. O vendedor com todo o merecimento terá um Carnaval gordo na Gaviões da Fiel. As músicas do show, francamente, não deu para ouvir direito. No meio de 60 mil pessoas os fanáticos por celular escolheram justamente o lugar onde eu estava. Ao mais leve tilintar o povo atendia com um “alô” em uníssono, crente que era o seu. Mamãe, os amigos, a namorada, a esposa, os filhos, os netos - todos querendo saber como a cara estava se virando na chuva. Era um tal de contar a história da capinha de plástico... Houve um que chegou a discutir com seu interlocutor sobre as possibilidades da descoberta de água em Marte.
Terminado o show com vaias, porque o Caetano deixou de incluir o “Trem das Onze”no repertório, fui comer pizza. Aí que a praga do celular me atacou de vez. Na mesa ao lado uma senhora dava bronca nos seus pirralhos que haviam ficado em casa com a avó e ainda não tinham ido dormir. Cheguei no apartamento do meu sobrinho com o joelho inchado. Bem que o Nuno Cobra me aconselhava - “Cuide do seu joelho. Será útil na velhice”. Fui para a cama com uma última recomendação depois de antecipar agradecimentos pela hospitalidade: “Amanhã, seu eu estiver dormindo, deixe-me em paz. Se eu estiver morto, me acorde”.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.