A tentativa de se aproximar da realidade humana através de cenas que misturam forte densidade e ao mesmo tempo leveza. Essa foi a principal característica da comédia romântica “Tudo de Mim”, apresentada em outubro no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves”.
No palco, os atores Bianca Rinaldi e Petrônio Gontijo interpretaram um casal apaixonado, que assim como é comum na vida real, enfrentam alguns problemas de comunicação no relacionamento. Em uma das cenas, o publicitário vivido por Gontijo é demitido e, sofrendo de baixa auto-estima, passa a viver a vida esposa, preparando pratos saborosos somente para agradá-la. Em outro episódio, a discussão sobre a traição de ambos os personagens dá início à reflexão sobre a sinceridade dos relacionamentos conjugais.
Apesar de usar a velha fórmula “love story” - onde um casal acaba resolvendo suas carências afetivas na relação e encontrando assim a felicidade - o espetáculo pode ser considerado uma das melhores montagens que passou pelo Teatro Municipal em 2003, embora não tenha lotado a casa durante as três sessões realizadas.
Pode ser que a qualidade do trabalho se deva à escolha pelo tema que, ao retratar o cotidiano de um casal, busca identificar-se com a realidade vivida pelo público. O sucesso pode ainda ser creditado às cenas, que se concentraram menos no aparato técnico do cenário e holofotes e mais na própria performance dos atores.
Globais
A receita do “love story” também ajudou a abrilhantar outro espetáculo romântico que trouxe Murilo Benício e Giovanna Antonelli aos palcos do Teatro Municipal. Com “Dois na Gangorra”, o casal viveu cenas de um romance que, embora envolvente, não termina em um final feliz para os personagens.
Mas, ao contrário da montagem “Tudo de Mim”, o ponto alto de “Dois na Gangorra” ficou justamente por conta da tecnologia. Dirigido pelo cineasta Walter Lima Jr. (que estreou como diretor teatral com a peça), dá até para arriscar que o espetáculo possui contornos cinematográficos, que destacaram todo o glamouroso visual americano dos anos 50 - período abordado na história, que se passa em Nova York.
Isso pôde ser conferido no cenário móvel e nos efeitos de luz e som, além da preocupação com os diversos móveis e objetos antigos precisamente colocados nos dois ambientes da peça - o apartamento de Jerry (Benício) e Gittel (Antonelli).
Pode ser que todo esse aparato técnico de “Dois na Gangorra”, associado, é claro, com a já conhecida curiosidade da platéia bauruense em assistir os famosos atores “globais”, tenha contribuído para que a peça tenha se transformado em recordista de público na cidade, com cinco apresentações no total.
O amor também foi o ponto central da peça “Norma”, uma verdadeira batalha de interpretações no palco entre Ana Lúcia Torre e Eduardo Moscovis que merece estar entre os destaques de 2003.
Ela, uma mulher de quase 50 anos, amargurada pela solidão e pela recente morte do único filho, ele, um jovem sensível e um pouco perdido em seus objetivos. De um encontro casual surge uma atração. Ela investe até descobrir que ele é homossexual.
Esta foi apenas a primeira surpresa do público, que daí em diante - já cativado - viajou no universo denso do espetáculo, de diálogos afiados e inteligentes. O personagem de Moscovis havia sido namorado do filho da personagem de Ana Lúcia, ou seja, ambos estavam conectados há muito tempo e de maneira nada agradável, já que, por não concordar com a opção sexual do filho ela o abandonou.
Emocionante em suas reviravoltas até o fim, o espetáculo mostrou o quanto alguns atores, que na televisão vivem os seus rótulos: Moscovis é o galã e Ana Lúcia uma coadjuvante de luxo, no palco podem demonstrar todo o seu talento.
Regina Duarte
Outro espetáculo que merece espaço para comentários é o monólogo, ou melhor, peça solo, como prefere dizer o diretor José Possi, “Coração Bazar”. Encenado por Regina Duarte, em dezembro, no Municipal, o espetáculo trouxe à tona a qualidade do trabalho da atriz, que com quase 40 anos de carreira, encheu os olhos da platéia com uma eclética performance no palco.
Regina deu vida a seis mulheres diferentes, passando de um personagem a outro com grande facilidade, um destaque ficou por conta da seqüência: garota sensual/feminista mal-humorada/dona-de-casa do Interior que oferece simpatias.
Fora a ótima interpretação, se percebe, através da montagem, que a história mistura ingredientes vividos pela própria atriz - seus desejos, medos e conquistas. Tudo isso, é claro, associado a uma boa dose de poesia e sonho, que ressaltaram o clima mágico do espetáculo (os efeitos especiais e a trilha sonora contribuíram para isso).
Apesar disso, toda a delicadeza de “Coração Bazar”, que retratou muito bem o universo feminino parece ter agradado mais às mulheres, o que não tira seu mérito.
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Nem peça nem musical
No primeiro semestre o Municipal recebeu um espetáculo incomum que, até certo ponto, teve menos repercussão do que deveria. “Palavra de Mulher”, dirigido por Fernando Peterlinkar misturou música e interpretação numa viagem emocional pela obra de Chico Buarque de Holanda, em especial as canções que falam sobre o universo feminino.
No palco, as atrizes/cantoras Valeska Lopes, Rita Maria e Anna Toledo usaram a música de Chico retratar as nuances do mundo da mulher em diversos papéis: a menina, a mãe, a amante... Com uma cenografia e um figurino simples e eficiente, de poucos e multi-funcionais objetos e peças, o trio se mostrou não só à altura das grandes cantoras da MPB que já gravaram Chico mas também demonstraram uma carga dramática em certos momentos absurda.
Não foram poucas as pessoas que foram às lágrimas em canções como “Atrás da Porta” (imortalizada por Elis Regina) e “Olhos nos Olhos”, clássica na voz de Maria Bethânia. Foram três apresentações lindas, um presente para o público que esteve no Municipal.