Portinari, nosso pintor maior, comemorou em 2003 o centenário de nascimento. O brilho de suas telas quase deixa desaparecer o lirismo de seus poemas. Poeta de um só livro, edição póstuma e de poucos exemplares, ele recebeu, no seu prefácio, as palavras do amigo Antônio Callado:
“Portinari pintava como quem lavra a terra, como quem cuida de uma fazenda... Portinari pôs em flor todo um latifúndio, e depois, para descansar, resolveu cultivar um jardim. Roçou um palmo de terra e plantou os poemas que aí estão... o gênio de Portinari era tanto que não coube numa arte só”.
Suas telas e seus poemas contam sua infância de menino pobre armando arapuca no areal de terra vermelha. Terra que serviu de chão para a saga dos retirantes e de palco e cenário para as brincadeiras dos meninos pobres de seu povoado. Povoado repleto de festas, procissões, bandas de música e repique de sinos. Mas infância festejada principalmente pela chegada dos circos.
“Sentia-me feliz quando chegava um circo. Vinha de terras estranhas. Todo o meu pensamento se ocupava dele. O palhaço, montando um burro velho, fazia reclame com a meninada acompanhando...”.
A imagem do circo, tantas vezes representada em suas telas, constituem-se imagens reiterativas nos seus poemas, metáforas que celebram a vida através da revocação do tempo perdido. De Paris, escreveu, Portinari, um dia: “Daqui fiquei vendo melhor minha terra fiquei vendo Brodósqui como ela é... vou pintar aquela gente com aquela roupa e aquela cor”.
E assim fez Portinari. Em suas telas e em seus poemas pintou sua terra e sua gente. Pintor exímio e poeta lírico, com suas tintas e com seus pincéis construiu, lírica e poeticamente, a história dos retirantes, dos trabalhadores brasileiros e da infância de tantos meninos pobres como ele.
Sua linguagem, tanto a pictórica quanto a verbal, denunciam o grande artista e o grande homem que foi. Artista que assume o seu dom de pintar, mas guardou no coração a vontade de usar, o seu lápis, com a mesma maestria com que usava seu pincel.
Um dia, Portinari afirmou: “Quanta coisa eu contaria se pudesse e soubesse ao menos a língua como a cor”. Mas na verdade ele nos contou. O poeta, pela beleza das imagens e pelo lirismo de seus versos, ombreia com o pintor em talento e sensibilidade.
A autora, Laurita F. Fassoni, é escritora e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte.