Economia & Negócios

Ex-ministra defende mais importações

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Mesmo com o crescimento das exportações em 21,1% no ano passado, em relação a 2002, o País necessita retomar maiores índices de importações para viabilizar e aumentar a produção nacional. Esta é a análise da economista e ex-ministra Dorothea Werneck, que esteve ontem em Bauru para divulgar um programa de incentivo e crédito para empresas que desejam avançar para o mercado externo.

A Agência de Promoção de Exportações (Apex) informa que as exportações brasileiras chegaram a R$ 73 bilhões, enquanto as importações, com crescimento de apenas 2,2%, alcançaram R$ 12,7 bilhões. O superávit (diferença entre exportação e importação) registrado foi de R$ 24,8 bilhões.

De acordo com Dorothea, a exportação brasileira deve continuar em crescimento em 2004. “Nós certamente já aprendemos como fazer, consolidamos o mercado, introduzimos novos produtos e a partir de 1999, com a mudança cambial, já tínhamos todas as condições necessárias para o Brasil ser um grande exportador”, afirma.

O registro de um alto superávit, no entanto, indicam que as importações não tiveram crescimento semelhante, segundo a ex-ministra. “As importações foram menores porque o País não cresceu no ano passado. Se retomarmos o crescimento das importações, viabilizamos o crescimento da produção nacional. O superávit não será tão grande porém o saldo deve ser positivo e o mais importante: teremos um contínuo crescimento das exportações”, argumenta.

Dorothea é coordenadora do Programa Exportar, do grupo Santander Banespa, que foi apresentado ontem a empresários bauruenses e da região. Ela explica que a iniciativa tem seu foco em empresas que possuem dificuldade no acesso ao crédito e investimentos que possibilitem a preparação para a exportação.

Entre os pontos mais importantes na adaptação para atender ao mercado externo, estaria a adoção de novas tecnologias, adequação dos produtos a normas de qualidade internacionais - como o ISO9000 e também a participação em feiras para divulgação dos produtos.

“O programa foi lançado em agosto em São Paulo e Minas Gerais. Pegamos as principais reclamações das empresas que não conseguiam financiamentos e tentamos atendê-las. A idéia é funcionar como uma encubadora, até que a empresa esteja madura e sem dificuldades para continuar a produzir e exportar”, esclarece e ex-ministra.

A maioria das empresas que já participa do programa é de pequeno e médio porte. Segundo Dorothea, elas conseguem alcançar sucesso de vendas no mercado externo porque os produtos brasileiros estão em pé de igualdade com os de outros países, tanto em em qualidade, tecnologia e design quanto no preço.

“Num primeiro momento, o empresário está inseguro, acha que pode ser complicado. Mas quando a empresa começa a entrar no mercado, a auto-estima de todos vai lá em cima, porque o produto se mostra competitivo e isto estimula enormemente”, declara.

O programa incentiva que os empresários iniciem as exportações com ritmo pequeno, com 1% a 2% da produção. Em menos de 24 meses, a expectativa é de crescimento até 10% da produção. “Sugerimos que este índice não passe de 30% da produção, para também preservar o mercado doméstico, mas temos empresas com mais de 50% da produção já voltada para o mercado externo”, comenta Dorothea.

Sem isolamento

Na opinião do diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), José Luiz Miranda Simonelli, os empresários que se interessam pelo mercado internacional têm que aprender a quebrar o isolamento e buscar informações. “Elas precisam buscar as entidades de classe, onde vão ter contato com as experiências de outras empresas, com os fatos positivos e negativos e o que ele pode usar para si”, diz.

Simonelli destaca que as empresas devem conseguir um diferencial, que as destaque de outras concorrentes. Ele comenta que a Comunidade Européia, por exemplo, deve adotar normas técnicas e de qualidade que pretendem reduzir a entrada de produtos. “Então, se não há competição no preço, o empresário precisa buscar sua diferenciação na qualidade, na certificação, na tecnologia, em algum dos aspectos em que possa se destacar”.

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Nota 11, com ressalvas

Dorothea Werneck participou como ministra nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Ela tem ressalvas, mas analisa o atual governo de Luíz Inácio Lula da Silva como “brilhante”. “Há certas coisas que são, de zero a dez, nota 11. A questão da política macroeconômica, o controle da inflação, a recuperação da imagem do País, tudo isto é brilhante”, elogia.

Na opinião dela, ainda existem pontos que precisam ser analisados, na expectativa das ações do governo. “Existia a expectativa de retomada do crescimento, de aumento de emprego e isto ainda não aconteceu. Vamos ver se isto ocorre diferente em 2004”, aponta a ex-ministra.

Ela argumenta que a gestão atual, com a participação de 32 ministros, torna o processo mais complicado. “Qualquer empresa com mais de 10 diretores já é uma complicação. Acho que o governo deixou a desejar na gestão pública e, por conseqüência, em resultados de interesse mais imediato, como as promessas de campanha”, conclui.

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