Chiadeira, agora, não resolve. No ano passado nós fomos obrigados a pagar R$ 145 bilhões de juros da dívida contraída nos últimos 10 anos e que hoje está próxima de R$ 1 trilhão. Muitas pessoas se surpreenderam com a divulgação desses números na semana passada e alguns mais afoitos sugerem que não se deve pagar. Acreditam que é possível provocar um “curto-circuito”, dizer “não vou pagar” e “vou agir unilateralmente”, mas o Brasil, e outros que tentaram, já aprenderam que isso não funciona. O país não pode se dar ao luxo de renegar compromissos assumidos, porque os custos serão muito maiores.
Tem razão, portanto, o ministro Palocci quando diz que “o Brasil decidiu pôr a casa em ordem”, indicando que nós temos que sair da armadilha da dívida de maneira correta e com paciência. A tendência é que os juros cresçam menos no futuro e com a economia em ordem e em desenvolvimento, o endividamento será reduzido em relação ao produto. É claro que todos têm o direito de se aborrecer diante da obrigação de pagar esse volume de juros, principalmente porque a maioria não foi corretamente informada, à época em que as dívidas, interna e externa, estavam sendo construídas. As pessoas provavelmente não se recordam que o debate econômico esteve interditado por longo tempo, quando generosos aportes publicitários conquistaram o silêncio cúmplice de uma boa parte da grande mídia. De nada adianta hoje culpar os juros, porque a taxa atual é simplesmente conseqüência do endividamento consentido pela política econômica do último governo.
Isso não significa que não devemos continuar insistindo numa queda mais rápida das taxas de juro. É preciso diminuir o custo anual com o pagamento dos juros da dívida interna pública, que hoje significa algo como 9% a 10% do PIB. O objetivo deve ser reduzir essa conta à metade, o que nos permitiria investir mais 5% do PIB, cerca de R$ 50 bilhões por ano, mantendo o mesmo nível do déficit que temos atualmente.
É uma vantagem o fato que o debate econômico hoje não está mais interditado. Aos poucos, a população vai tomando consciência das conseqüências do endividamento e das dificuldades para superar o constrangimento externo e voltar ao crescimento. A chiadeira, mesmo na direção errada, tem o mérito de trazer essas questões ao debate, melhorando a compreensão da sociedade sobre as causas da interrupção do desenvolvimento brasileiro, na contramão do crescimento da economia mundial nos últimos 10 anos.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br.