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Rui Barbosa, palco da excomunhão

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

Ela nasceu de um fato inusitado: a excomunhão da cidade pela Igreja Católica. De amaldiçoada, a Praça Rui Barbosa passou a ser o principal centro de lazer da cidade e se manteve nessa posição durante décadas, até se transformar no centro nervoso do município, com bancos ao seu redor, comércio em sua área e corre-corre de apressados transeuntes.

O jornalista Luciano Dias Pires, diretor do Instituto Histórico Antonio Eufrásio de Toledo, conta que as famílias costumavam se reunir todo domingo na praça para apreciar a apresentação de bandas no coreto e encontrar os amigos. “Era costume na cidade: todo o mundo se reunia lá nos finais de semana”, destaca.

O historiador Gabriel Ruiz Pelegrina, diretor do Departamento do Patrimônio Histórico de Bauru, lembra que o logradouro nasceu amaldiçoado. “Para urbanizá-la, o então prefeito Manoel Bento da Cruz precisou derrubar a capela do Divino Espírito Santo, o que causou a revolta da Igreja Católica”, conta.

Inconformada com a demolição do templo, a Igreja excomungou o povo de Bauru por três gerações.

Logo depois da derrubada da igreja, os funcionários da prefeitura deram início ao projeto paisagístico da praça e abriram passagem para a continuação da rua Batista de Carvalho, que antes era seccionada pela capela. “Em 1914, a nova praça foi inaugurada de modo festivo”, conta Pelegrina.

A partir daí, ela se tornou o ponto de encontro dos bauruenses, que curtiam os seus momentos de lazer no logradouro.

Mas a praça, que até 1923 era denominada Jardim Público, também concentrava os acontecimentos históricos da cidade. Pires destaca que o espaço era muito utilizado para homenagens e discursos. “Os políticos de fora que vinham visitar Bauru desciam na estação ferroviária e subiam até a Rui Barbosa para discursarem”, destaca.

O coreto, construído em contornos sextavados e com grades em estilo rococó, era o símbolo da descontração local. Hoje é o único remanescente dos áureos tempos da praça.

Pires conta que a denominação atual foi dada em 1923, após a morte de Rui Barbosa, como uma forma de homenagem ao Águia de Haia.

Uma nova era

Em 1955, mais uma vez a igreja matriz foi demolida, dando lugar à catedral que hoje pode ser visitada na praça. “Dessa vez, não houve excomunhão. Foi a própria Igreja que decidiu pela demolição”, salienta Pires.

A praça, que tinha muitas árvores, pedras e até um jacaré no lago que a decorava, perdeu as suas características originais por volta de 1990, quando foi remodelada e tomou a forma arquitetônica atual. “Foi quando recriaram o espaço público obedecendo a outro contexto histórico desenvolvimentista e a novas concepções urbanísticas”, destaca Pelegrina.

Para comemorar os 90 anos, o prefeito Nilson Costa nomeou uma comissão de revitalização, que deverá levantar quais os principais problemas do logradouro e definir o que deve ser feito para dar um novo visual à Rui Barbosa.

Luciano Dias Pires, que preside o grupo, diz que há muitos detalhes a serem observados, como a estrutura dos bancos de madeira, o piso, a fonte luminosa.

Se a reforma vai trazer de volta o glamour dos velhos tempos, isso é uma incógnita. “Acho muito difícil ver a praça voltar a ser o ponto de lazer que era antigamente. As pessoas hoje têm outra concepção de diversão e não possuem o costume de se reunir nos locais públicos”, diz Pires.

Mesmo assim, a manutenção deve ser vista como uma maneira de cuidar de um patrimônio significativo para a história da cidade.

Cenário pitoresco

“Eu morava na rua 1.º de Agosto, quase em frente à Praça Rui Barbosa, na minha época de criança. Portanto, conheci o local num período muito diferente do de agora. Lá tinha muitas árvores, flores lindas e constantes revoadas de andorinhas. Todo domingo tinha apresentação de uma banda no coreto, que atraía muitas pessoas em busca de diversão e boa música. Não havia fonte luminosa, mas um lago bem charmoso.

Quando criança, a diversão era brincar com os amiguinhos na praça. Depois, mais mocinha, ia namorar lá. Era um cenário bem pitoresco, parecia um bosque”, relembra Vilma Janzon Godoy, professora aposentada.

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