Tribuna do Leitor

OSTRACISMO, BOCA DE URNA E CHOCOLATE QUENTE


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Antigamente as eleições eram diferentes. Os gregos votavam nas pessoas que perturbavam a tranqüilidade e harmonia do corpo político. Caso condenadas elas perdiam os direitos políticos e eram banidas de Atenas por 10 anos. Num dia previamente marcado eles escreviam o nome do acusado num fragmento de ostra e colocavam na urna. Daí vem a expressão usada até hoje: “fulano foi relegado ao ostracismo”, quando alguém perde uma eleição. O uso correto devia ser somente para aqueles que perdessem os seus direitos políticos.

Todavia, existe um fato importante: eram eleições abertas e públicas. Realizavam-se na Ágora, centro nervoso da Grécia, e havia necessidade de 10 mil sufrágios para se concretizar o ostracismo. Isto quer dizer que eram eleições tumultuadas, no bom sentido. Cheia de discussões, ataques, defesas, silogismos e sofismas.

O JC publicou a 28/1/04: “Os senadores Edward, Lieberman e Clark passaram o dia de ontem telefonando para os eleitores e distribuindo chocolate quente nas ruas.” O dia em que o JC se refere é o das eleições primárias no gelado estado de New Hampshire nos Estados Unidos. Gostaríamos de perguntar aos membros do Tribunal Eleitoral se no Brasil isso seria considerado boca-de-urna e tentativa de ganhar votos através de favores pessoais ou não? Imaginemos o Suplicy ou o Tuma distribuindo chocolate quente numa manhã eleitoral fria de S. Paulo.

Provavelmente seriam presos. A boca-de-urna foi proibida em parte por causa dos currais eleitorais, dos favores pessoais, condução, lanches, etc. No tempo dos coronéis os “eleitores” vinham em caminhões iguais aos de gado, daí o termo “currais eleitorais”, com as cédulas prontas e apenas as colocavam na urna. Havia locais onde um jagunço era colocado dentro da cabine eleitoral para conferir. Aqui em São Paulo sempre foi diferente!

Chegamos a participar de eleições com boca-de-urna. Os candidatos colocavam seus cabos eleitorais com bandeiras e sacolas nas imediações das escolas. O dia da eleição era um dia festivo. Cheio de discussões, esclarecimentos, réplica, tréplica, etc. Podia, às vezes, sair algum desentendimento entre cabos eleitorais, mas bem menor do que ocorre entre Gaviões e Mancha nos jogos Corinthians x Palmeiras. Alguém pode argumentar que o horário livre na TV é gratuito e feito para esclarecer o público. Em primeiro lugar é preciso discutir se esse é um bom meio de se gastar o dinheiro do povo. Os economistas dizem que em economia não existe almoço grátis. É com o dinheiro do povo que se paga este tempo na TV. Além disso, apesar dos esforços do Duda Mendonça e outros publicitários, 90% da população recebem com irritação a entrada do horário eleitoral em seus aparelhos de TV. Ao se proibir a boca-de-urna para dificultar a obtenção indevida de votos se coibiu também um processo cultural importante de diálogo e divulgação política. É mais ou menos como proibir o padre de falar de casamento no ato do matrimônio. Ou proibir-se de falar em vacinação no dia nacional de vacinação. Esta história de que se pune os cartéis econômicos com proibição de boca-de-urna é sujeita a críticas. O poderio econômico se manifesta de muitas formas. Todo mundo conhece a história do candidato que distribuía 1.000 pares de sapato. Um pé antes da eleição e o outro depois. Acho que deveríamos lutar para transformar as eleições em um dia festivo e cultural. O povo não gosta muito de política e no dia de eleição, ocasião propícia para o assunto ser suscitado há o clima de segredo absoluto. Do jeito que está, muito quieto, cochichado, é triste. O ato eleitoral mais parece uma convenção da Máfia. Até o Dia de Finados é mais alegre! Enquanto isso, os órgãos de educação deveriam incrementar o ensino da política, já prevista nos currículos, a seus alunos. Discutir as várias câmaras políticas, suas funções, objetivos, etc. As escolas que fazem eleições simuladas entre os alunos são tão raras que quando isso ocorre, é notícia de jornal. Os cabos eleitorais remunerados eram muito dignos e sérios na defesa de seus candidatos. Aliás, devíamos deixar de ser hipócritas e aceitar a profissão de cabo eleitoral com carteira assinada. A maioria deles é constituída de pessoas honestas que dão a vida por seus candidatos. Peçam ao Franciscato, ao Abrahim, ao Tidei, ao Purini, ao Pedro, para que falem de seus cabos eleitorais e ficarão surpresos. É capaz de surgir lágrimas nos olhos do entrevistado pois as relações políticas são muito fortes.

A batalha entre os cabos eleitorais era sadia, do tipo réplica e tréplica, sem exageros. Aqueles exércitos eleitorais muito elegantes em seus uniformes e bandeiras contribuíam para a formação política do povo, esclarecendo dúvidas, informando locais de votação, facilitando a chegada dos eleitores a suas seções, etc. Cada equipe era formada por centenas de participantes, verdadeiros líderes de opinião a suscitar assuntos políticos por meses a fio.

A proibição da boca-de-urna, a nosso ver, colabora para a desinformação política do povo e serve para manutenção de castas de poder aliado ao fato de que os partidos mais fortes dominam o tempo da TV que é comprado com dinheiro do povo e deveria, por princípio democrático, ser igualmente dividido entre todos. (Ruy Celeste Bertotti - médico, ex-vereador e ex-professor da Faculdade de Direito - ITE - por 8 anos)

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