Cultura

Sobre mundos: O desafio de ser bom

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Durante todo o verão, enquanto as formigas trabalhavam, a cigarra cantava. Todas as manhãs, as formiguinhas levantavam bem cedo e começavam a carregar as folhas e abastecer o formigueiro com um bom suprimento alimentar. Enquanto isso, a cigarra, bem acomodada sobre o galho de uma árvore, cantava praticamente o dia todo. A música da cigarra muitas vezes servia de ânimo para as formigas, outras vezes causava uma certa irritação pois, afinal de contas, quem carregava as folhas de longe até o formigueiro eram as operárias. O tempo passou e o temível inverno acabou chegando.

As árvores já não possuíam folhas, muito menos frutos e a neve cobria toda a região. As formiguinhas alegres pelo suprimento acumulado fecharam o formigueiro e ficaram protegidas do frio. Em um certo dia, alguém bateu à porta do formigueiro. “Com certeza é a cigarra!”, pensaram as formigas. As operárias, então, abriram a porta do formigueiro. Do lado de fora, estava a cigarra coberta de jóias, vestida com um lindo casaco de peles ao lado de uma Ferrari vermelha: “Olá, amigas formigas! Eu vim me despedir de vocês, pois estou de partida para Paris. Eu fui descoberta por um empresário e estou indo gravar o meu primeiro CD!” Aristóteles escreve em sua “Ética a Nicômaco” que o homem prudente luta para libertar-se do sofrimento, não do prazer.

O filósofo expressa, desta forma, a tendência saudável do ser humano em buscar uma vida harmoniosa. Esta é construída através de nossas boas escolhas, ou seja, quando nos es forçamos para ser bons naquilo que fazemos e somos. Apesar de parecer tudo muito simples, este caminho da felicidade se depara, já em seu início, com uma das maiores questões da ética e da religião: como posso saber se deter minada escolha é boa, como tenho a certeza de que estou realizando o bem, em outras palavras, o que é o “bom”.

Certa vez, afirmou Jesus Cristo, “por que me chamas de bom? Ninguém é bom senão só Deus” (Mc 10, 18). Desta forma, o Cristo esclarece que o bom, em seu sentido pleno, nunca poderá, pelo menos nesta existência, ser alcançado pelo ser humano. A plenitude do bom sempre será uma utopia para a qual devemos caminhar. Somente Deus pode ser completamente bom, pois é um ser perfeito.

O ser humano, por sua vez, está sempre se desenvolvendo a caminho da perfeição. Este caminho, porém, é percorrido através da busca de sermos bons. Mas, o que é o bom? Saber que o bom é o contrário do mau, não nos ajuda em nada. Se não sabemos o que é o bom, como então distinguir um do outro, como eliminar o ruim de nossa vida. O grande problema diante desta questão é o fato de que uma definição do bom na verdade não existe. Por mais frustrante que seja esta constatação, ela corresponde à realidade. O bom constitui-se em uma expressão simples e por isso impossível de nos oferecer uma definição.

Definições são sempre descritivas e por isso necessitam de uma diversidade de características. Tentar definir o bom é o mesmo que buscar uma definição para a expressão “amarelo”. Como podemos esclarecer a alguém que nunca viu a cor amarela o que é o amarelo. Da mesma forma acontece com o bom. Uma definição não deve somente substituir a palavra que se refere ao definido por uma outra, mas oferecer uma enumeração de características do mesmo.

Para isso é necessário que o definido seja complexo em sua composição. Não somente complexo, mas o definido deve possuir características não mutáveis, ou seja, essenciais. Nós podemos definir a expressão “cavalo” pois esta refere-se a um objeto complexo cheio de características permanentes. O cavalo sempre será assim descrito com suas características essenciais em diferentes culturas, épocas e mentalidades. O bom, por sua vez, não possui aspectos permanentes.

No transcorrer da história ele foi compreendido de diferentes formas dependendo das necessidades e valores do universo humano. Mesmo em nossa própria vida individual mudamos nossa compreensão sobre o mundo. O que foi bom para mim há alguns anos talvez não seja mais hoje em dia. “Qual será o absurdo de hoje que será a verdade de amanhã?” (Alfred North Whitehead).

O bom não é somente temporário, mas também relativo. Nem sempre aquilo que causa satisfação, alegria e prazer pode ser classificado como bom. “Conhecer a verdade não é o mesmo que amá-la e amar a verdade não equivale a deleitar- se com ela” (Confúcio). Muitas vezes perder alguma coisa pode ser um motivo de grande alegria e outras vezes ganhar alguma coisa pode significar o início de grandes preocupações e dores de cabeça.

Aquilo que é bom para uma pessoa, grupo ou sociedade, necessariamente não precisa ser para outros. O bom é temporal e relativo e para alcançá-lo não existe receita definitiva. O significado do bom deve ser descoberto por cada um em seu contexto de vida. Uma coisa é certa, a relatividade e temporariedade do bom exigem sempre uma postura de liberdade e flexibilidade, de respeito e abertura às opções individuais de cada pessoa humana. “Preocupe-se mais com seu caráter do que com sua reputação, porque seu caráter é o que você realmente é, enquanto a reputação é apenas o que os outros pensam que você é” (John Wooden).

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