Economia & Negócios

Empreendedor de Bauru erra em setor

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

O bauruense tem perfil empreendedor mas, em sua maioria, peca ao escolher a área para começar seu próprio negócio. A opinião é do gerente do escritório regional do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de Bauru, Milton Aparecido Debiasi, que comparou os números de uma pesquisa mundial sobre empreendedorismo com o cotidiano do atendimento a novos empreendedores na cidade.

De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que monitora o nível de empreendedorismo em 30 países, o Brasil ocupa o sexto lugar no ranking mundial - em 2000, o País ocupou a primeira colocação. Segundo o gerente regional do Sebrae - entidade que coordena a pesquisa no Brasil -, a tendência observada em nível nacional é semelhante à de Bauru. Em média, 15% dos brasileiros estão “empreendendo” atualmente, apesar dos entraves burocráticos e culturais.

Segundo Debiasi, a questão cultural é um fator importante e pouco investigado na área de negócios. “Além dos entraves tributários e dos entraves burocráticos, no Brasil é crônica a questão cultural: desde pequenas, as pessoas não são preparadas para pensar e desenvolver habilidades empreendedoras. A pessoa aprende a ser empregada”, diz.

Os números do atendimento do Sebrae em Bauru demonstram o grande desconhecimento da pessoa que decide abrir seu próprio negócio. Dos cerca de 300 atendimentos mensais da entidade, 80% são feitos para pessoas físicas. Desse universo, 70% não têm idéia de que rumo tomar: são os chamados “pára-quedistas”.

Debiasi também aponta um certo conservadorismo do empreendedor bauruense. Segundo ele, 70% da demanda por novos negócios estão na área do comércio e, em seguida, 15% no setor de serviços. A área produtiva, isto é, a indústria, é o setor de interesse de apenas 1% dos que procuram o Sebrae em Bauru. “A preocupação nossa é que as pessoas procuram a mesmice. Elas acabam entrando em segmentos saturados”, afirma.

De acordo com o gerente do Sebrae, o empreendedor interessado em abrir um negócio comercial opta por setores em que a concorrência é alta, como lanchonetes, farmácias ou lojas de produtos a R$ 1,99. No caso da indústria, as fábricas de doces e o setor de usinagem são os mais pesquisados. “O que nos causa preocupação é que são negócios comuns, com nível muito grande de concorrentes e que a tendência é que, se as pessoas não estiverem bem preparadas na gestão empresarial, estarão fadadas ao insucesso”, diz.

Diante disso, Debiasi recomenda uma investigação profunda do mercado e dos custos, além das próprias habilidades do empreendedor para o negócio. “A pessoa tem de investigar no mercado se aquilo que ela está querendo abrir tem espaço”, declara.

Outro fator importante, segundo Debiasi, é a faixa etária do empreendedor. De acordo com levantamento da GEM, 65% dos empreendedores têm idade entre 25 anos e 44 anos. Em Bauru, uma pesquisa de potencial de consumo do Sebrae em parceria com a Target Marketing mostra que quase um terço da população de Bauru está entre 30 anos e 49 anos. E é justamente essa interseção que, em grande parte, favorece o empreendedorismo na cidade, analisa o gerente do Sebrae.

Êxito

Com experiência no setor, dinheiro para investir e sem emprego, a farmacêutica Roberta Maria Strozi Solci, 37 anos, resolveu montar seu próprio negócio. Há três meses, inaugurou uma farmácia de manipulação, com espaço para fitoterápicos e alimentos dietéticos. Ela conta que estava há sete anos numa indústria farmacêutica de Bauru, que fechou as portas em 2002. Diante da necessidade, decidir ativar uma idéia antiga, que vem dando certo.

“Como eu estava bem no meu emprego, fiquei com essa idéia meio adomercida. Quando a empresa foi desativada e eu fiquei sem emprego, resolvi montar meu negócio”, conta Roberta, que resolveu empreender o negócio com uma sócia, então proprietária de uma drogaria. Da idéia à inauguração, transcorreu cerca de um ano de análise de mercado e cursos de gestão.

Roberta conta que, até agora, a empresa está funcionando “dentro do planejado”. Ela e sócia têm duas funcionárias, mas já estão precisando aumentar o quadro. Apesar do êxito até o momento, a farmacêutica admite que a necessidade falou mais alto que a oportunidade. “O cargo e o nível salarial que eu tinha não conseguiria encontrar em outra empresa aqui em Bauru”, afirma.

Para Debiasi, do Sebrae, o Brasil ainda é a terra do negócio por necessidade. “Criou-se no Brasil um mundo, parte formal, parte informal, buscando a sobrevivência”, afirma. E finaliza: “São aquelas pessoas para as quais bateu uma situação difícil e precisam ganhar algum dinheiro”.

• Serviço

O endereço do Sebrae em Bauru é a avenida Duque de Caxias 20-20. O telefone é (14) 3234-1499. O atendimento é gratuito.

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Mão-de-obra

Para o secretário municipal do Desenvolvimento Econômico, Domingos Malandrino, o principal fator do empreendedorismo em Bauru é a qualidade da mão-de-obra. “Na minha opinião, isso é fruto da qualificação que temos em Bauru, com a quantidade de faculdades e colégios técnicos”, diz.

Segundo Malandrino, há um “burburinho” no setor de novos negócios industriais na cidade. O secretário afirma que, desde 2002, foram doadas 50 áreas para a instalação de pequenas indústrias - muitas delas iniciadas no “fundo do quintal”. “São empresas de pequeno porte, genuinamente de Bauru”, comemora.

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