Geral

Carlos vai fazer exame de DNA hoje

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 3 min

O supervisor de obras Carlos Alberto de Souza, 38 anos, morador de Bauru, irá coletar hoje o material para a realização do teste de DNA que irá esclarecer se ele é, na verdade, Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, seqüestrado em 1973, no Rio de Janeiro, quando tinha 10 anos.

Souza, que está trabalhando em Casa Branca, na região de Campinas, viajará hoje pela manhã para Bauru. “Vou para colher o material”, afirma. O resultado deve ficar pronto dentro de 15 dias.

Se o exame atestar que o supervisor de obras é mesmo Carlinhos, um mistério que já dura mais de 30 anos terá chegado ao fim. Nesse intervalo, a polícia chegou a prender suspeitos de terem seqüestrado o garoto, mas não conseguiu elucidar o seqüestro.

Até mesmo o pai de Carlinhos, João Mello da Costa, atualmente separado da esposa, foi preso como suspeito pelo desaparecimento. Um funcionário do seu laboratório farmacêutico, reconhecido como seqüestrador por uma irmã do menino, foi condenado a 13 anos de prisão, mas recorreu e foi absolvido.

Questionado se acredita que o pai de Carlinhos poderia ter cometido o crime, Souza não descarta a hipótese. “Fiquei sabendo que ele tinha um laboratório. Ele mexe com remédios e poderia ter dado alguma coisa para a criança”, comenta.

Casado e pai de duas filhas, Souza foi criado pelos avós maternos, já falecidos, após ser abandonado pela mãe durante a adolescência. Ele só conheceu o pai aos 17 anos, mas, segundo a família, não mantém mais contato com ele. Da infância, guarda apenas a recordação de uma viagem de caminhão. “Eu lembro de muito pouca coisa”, revela.

Para a psicologia, esse esquecimento é possível, embora seja um fato raro.

O supervisor de obras foi descoberto há cerca de um ano pelo SOS Crianças Desaparecidas, programa da Fundação para Infância e Adolescência (FIA) da Secretaria de Estado da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, que recebeu uma carta anônima de uma pessoa que se identificou como amigo de Souza e notou semelhanças físicas entre ele e uma projeção, feita por computador, do rosto de Carlinhos na idade adulta.

Desde então, o caso vinha sendo investigado em sigilo, mas veio a público anteontem, o que fez com que Souza passasse a ser assediado pela imprensa e por pessoas interessadas na solução do mistério. “Não estou acostumado com tudo isso. Estou vivendo um martírio”, confessa.

____________________

Caso raro

A psicóloga Marisa Meira, afirma que, caso Carlos Alberto de Souza seja mesmo Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, é possível que o trauma de ter sido seqüestrado aos 10 anos possa ter provocado um bloqueio em sua memória. “Mas é óbvio que ele vai ter que passar por uma avaliação médica para que isso se confirme. Essa amnésia em relação a um período da vida dele também pode ter sido provocada por algum tipo de traumatismo físico”, comenta.

Ela explica, porém, que o caso é raro. “Não é comum que se apague o passado durante tanto tempo da memória, mesmo diante de uma situação de profundo impacto psicológico. O mais comum é que você se lembre, pelo menos, de algumas coisas”, justifica.

Para Meira, um acompanhamento psicológico pode ajudá-lo a se lembrar do passado. “Num trabalho terapêutico, uma das coisas que se faz é justamente o resgate de experiências passadas. Há um instrumental da psicologia que permite isso”, declara.

Comentários

Comentários