Era uma tarde do mês de maio, quando o bauruense Atá Catalan encontrou com Kurikaré, da tribo Kalapalo, que há pouco tinha recolhido alguns ovos de tracajá e descia em uma canoa o rio Xingu. Em um breve diálogo, Atá questionou o indígena sobre o que faria no futuro, “daqui para frente”. “Em novembro tenho que colher pequis”, informou Kurikaré. “Em novembro? E o resto do tempo?”, perguntou Catalan. “Ah! Vocês brancos pensam muito.” Com esta frase, Kurikaré resume uma das sensações que se tem ao conhecer o Parque Xingu, bem no coração do Brasil, no Mato Grosso. Lá, a relação de tempo é bastante diferente.
Para os povos indígenas, a natureza dita o quê e quando fazer, o importante é saber ler seus sinais e respeitá-la. E isso, apesar do contato necessário com a civilização, eles não abandonam e passam seus ensinamentos aos descendentes. A criança indígena é livre. Ela brinca, aprende com os mais velhos, cuida dos menores e é muito respeitada. Mas é na adolescência que o indígena mergulha profundamente no conhecimento da sua cultura.
A menina, após a primeira menstruação, fica separada na oca, em um local onde só terá contato com os pais. É nesse momento que ela aprenderá os ensinamentos de sua tribo, conhecerá cada detalhe da confecção do artesanato e saberá como conduzir a sua vida. Esse período pode durar de um a dois anos e não é privilégio das meninas. Os garotos também ficam separados em suas ocas, normalmente quando atingem 15 anos. A reclusão pode chegar a três anos.
Para o jovem Kayamoru, da tribo Kamayurá, ficar “preso” na oca foi tranqüilo. “Aprendi a fazer arco, flecha, pente. A gente toma banho em casa e só meus pais e meu avô falavam comigo”, lembra o jovem. “Depois eu saí, fui aprender a pescar e caçar.” Kayamoru ficou cerca de três anos em reclusão como a maioria dos meninos indígenas, saindo apenas para comparecer às festas e rituais de aldeias, como o Kuarup. Para os povos ditos civilizados, a cultura indígena pode causar certo estranhamento, mas é nesse momento de reclusão que os ensinamentos são transmitidos, solidificando suas tradições.
A reportagem do Jornal da Cidade esteve, em uma das raras visitas permitidas a empresas, na Reserva Indígena do Xingu, no Mato Grosso, e busca, neste caderno especial, mostrar uma significativa parcela da luta dos povos xinguanos pela preservação ambiental, que está ameaçada, principalmente nos limites do parque.
Criada com a luta dos irmãos Villas Bôas e a união dos povos indígenas em abril de 1961, no governo de Jânio Quadros, a reserva possui quase 28 mil quilômetros quadrados, onde habitam mais de 4 mil índios, de duas dezenas de etnias diferentes, que falam mais cinco línguas distintas. Como costumavam dizer os irmãos Villas Bôas ao se referir ao Parque Indígena do Xingu “é uma sociedade de nações”. O português serve como um idioma para as diferentes tribos se comunicarem e para os índios negociarem com o homem branco.
Leonardo, foi o primeiro irmão Villas Bôas a falecer vítima de complicações cardíacas devido a doenças tropicais, no ano da criação do parque, aos 43 anos. Álvaro, que presidiu a Funai em 1984, faleceu em Bauru aos 72 anos. Cláudio, que permaneceu com Orlando por mais de 30 anos no Xingu, faleceu em 1998, aos 82 anos.
A morte de Orlando, em 2002, aos 88 anos, deixou uma forte marca nos povos indígenas, que manifestam respeito e admiração ao indigenista. Atualmente, o cacique Aritana, da tribo Yawalapiti, é a principal liderança do Xingu e defende a autonomia dos povos do Xingu e a preservação da cultura indígena. Ele conheceu os irmãos Cláudio e Orlando Villas Bôas na infância: “Aprendi muito com eles sobre a importância de se preservar os hábitos antigos”.
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Recepção
Quando o bimotor aterrissa na pista de terra do Posto Indígena “Leonardo Villas Bôas”, as crianças são as primeiras a chegar. Correndo ou em bicicletas, elas se preparam para conhecer os novos visitantes. O local, batizado com o nome de um dos irmãos indigenistas, marca onde tudo começou. É possível conferir as construções em alvenaria da casa de Orlando e da sua esposa Marina Villas Bôas, onde ela exercia a função de enfermeira. Também existe um posto de saúde para o atendimento odontológico e ambulatorial, além de algumas casas/alojamentos. É no Posto Leonardo que ficam a estação de rádio, a pista de pouso e onde ocorrem várias reuniões entre as tribos. Depois, o grupo que partiu de Bauru, pôde fazer uma visita à aldeia Ywalapiti, onde vive o cacique Aritana, suas esposas e cerca de 200 pessoas. Nesse momento, foi possível conhecer a cultura de um povo que, mesmo sentido as influências da civilização, busca manter viva suas raízes, as relações com a natureza, a religiosidade e a liberdade. Antes do retorno, a convite do cacique Aritana, o grupo banhou-se nas águas do rio Tuatuari, “para lavar o espírito e partir renovado”.