Turismo

Tradição de cada tribo

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 7 min

Quando em 1943, a Expedição Roncador-Xingu deveria desbravar a região e “abrir caminho para o progresso”, ninguém imaginava que iria encontrar vários povos indígenas embrenhados na mata. Alguns eram inimigos, outros viviam isolados e todos foram surpreendidos pela chegada do homem branco. Mas, felizmente, a expedição tinha à frente os irmãos Villas Bôas, que fizeram as tribos se unirem para defender suas terras da inevitável invasão.

Os indigenistas prepararam os povos para a pacificação e alertaram sobre os desafios que viriam a seguir. Assim, unidos, eles permaneceram na Reserva Indígena do Xingu e, cada vez mais, participaram das decisões para defender seus interesses. Cada povo lutando de alguma maneira para manter viva a tradição de sua tribo.

No Posto Leonardo, já é possível perceber diferentes influências. Desde as roupas e calçados, até o uso de ferramentas e bicicletas. Eles possuem barcos com motores, mas nem sempre há combustível. Algumas tribos têm um caminhão ou trator, que é usado como transporte em dia de festa para chegar até outras aldeias. As distâncias entre o Posto e a aldeia, antes percorridas a pé, passam de oito, dez quilômetros. O caminhão, apesar do sacolejar, facilita bastante.

A perfeita harmonia das ocas, dispostas em uma clareira, chama a atenção pela arquitetura. Com cerca de 30 metros de extensão e dez de altura e largura, a construção da oca segue a tradição. O curioso são as duas únicas portas, com menos de dois metros de altura.

Em seu interior, famílias inteiras dividem o espaço. Cada homem tem a sua rede, em um local mais alto, e abaixo ficam as esposas. Os índios podem e têm mais de uma esposa, às vezes três, desde que possam sustentá-las. E são elas as responsáveis por manter aceso o fogo durante a noite.

Mesmo durante o dia, a oca mantém uma temperatura mais agradável e fresca, porém é preciso habituar os olhos à penumbra. Sem janelas ou paredes, as poucas divisões são feitas com esteiras e tecidos. A aldeia Yawalapiti é uma das poucas que possuem escola.

Diferente dos padrões urbanos, a aula é mesmo na oca do professor Yanamã, da tribo Kuikuro, mas que vive há alguns anos com os Yawalapiti. Com uma lousa improvisada, Yanamã ensina as crianças em português e agora prepara a cartilha na língua Yawalapiti. “As crianças têm aula todo dia, mas se a comunidade tem alguma atividade para fazer, eu paraliso a aula, porque elas têm que participar. Elas têm que aprender junto com os pais, por exemplo, quando é época da plantação da roça ou alguma festa.”

Apesar da pouca estrutura, o professor Yanamã ensina as crianças sobre a importância de sua história. Eles utilizam livros que foram produzidos especialmente para a alfabetização indígena, com a participação de Yanamã. “Eu trabalho com muita dificuldade, eles têm cadernos, mas é tudo na dificuldade. Dou aula para as crianças de segunda série. Agora, são dois professores e mais uma menina que está se preparando para começar e pegar uma turma.”

Ele explica que os livros abordam temas relacionados à história e cultura indígenas. “Nossos livros falam da região, da importância das águas”, comenta Yanamã. Os títulos “Brasil e África”, “Livro das Águas - Índios do Xingu” e “Saúde no Xingu” foram produzidos pelos professores e trazem ilustrações e frases de crianças de várias tribos. A maioria das crianças fala o português, o que é inversamente proporcional com os mais velhos, que preferem não aprender.

A culinária indígena

A mandioca brava oferece a base da alimentação dos povos indígenas do Xingu. É dela que eles tiram o polvilho para fazer o beiju e o mingau. Em uma espécie de silo é armazenada uma quantidade de polvilho suficiente para um ano de uso na oca, onde moram cerca de 30 pessoas. Primeiro tira a mandioca, raspa, rala, tira o caldo (usa para cozinhar) e seca o polvilho.

O beiju, preparado em chapa de cerâmica pelas mulheres, é consumido puro ou como bom acompanhamento de produtos de caça e pesca. Apesar de apreciarem muito a pesca, que é feita com arco e flecha, mas a linhada de mão já encontrou adeptos, aves, porcos do mato e macacos também oferecem uma boa refeição.

A Reserva do Xingu possui uma criação de gado. “Tudo é de todos”, explica o cacique Aritana, que eventualmente oferece carne para festividades especiais. Eles consomem frutas silvestres e, no geral, são bastante saudáveis.

O sal também é produzido de uma forma muito curiosa. “Da alga sai o sal”, conta Ivã, que também é Kuikuro e vive com os Yawalapiti. O sal tem um sabor agradável e, segundo o professor, não faz mal à saúde. “Nem para a pressão alta”, reforça Yanamã. Para consegui-lo, uma das índias explica: “Pega o aguapé, seca o aguapé e depois queima. Pega a cinza e vai pingando água, depois ferve no tacho até secar. Aí, aparece o nosso sal!”

Crianças livres

As crianças estão sempre espalhadas pela aldeia. Elas acompanham todos os movimentos e não perdem uma oportunidade de se divertir. Os maiores ensinam os menores e assim vão crescendo. Desde muito cedo, elas aprendem a nadar e aproveitam a proximidade do rio nos dias quentes. Com olhares curiosos e corpinhos nus, elas correm, mergulham, brincam e carregam em seus braços outros curumins. Elas também fazem beiju e os meninos arriscam pequenas caçadas.

Os curumins são realmente encantadores. Têm a agilidade da criança que cresceu em contato com a natureza, a curiosidade latente e a facilidade para aprender o português. As mais comunicativas tornam-se “intérpretes” dos adultos no trato com o “homem branco”, inclusive no que se refere a preços e “pechinchas”.

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Agricultura

O cultivo da mandioca sustenta a base alimentar. A agricultura ainda inclui a cultura de outras plantas tanto para fins cerimoniais (como urucum e fumo), quanto para atender à produção de artesanato (como cabaça e algodão). Do algodão, as mulheres fazem os fios para a confecção de redes, que também contam com os fios de buriti, uma fibra da palmeira. Os fios de buriti são cuidadosamente enrolados nas pernas das índias, que depois os tingem para preparar lindas redes e esteiras.

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Caciques de várias tribos fazem reunião para discutir a Reserva

Durante a visita do Jornal da Cidade à Reserva Indígena do Xingu, vários caciques estiveram reunidos preocupados com a ocupação de terras próximas ao parque. A reunião, comandada pelo cacique Aritana, também contou com a participação de Atá Catalan, proprietário do Rancho Xingu e visitante da comunidade indígena há mais de 20 anos, de Oscar Nolf, 53 anos, e João Pereira dos Santos, 51 anos.

A reunião baseou-se na preocupação com as nascentes dos rios que estão localizadas fora da região delimitada pela Reserva. Eles buscam verba da Unesco para reintegrar essa área ao parque. Os indígenas também acompanham o processo de derrubada das matas. “O desmatamento está chegando no limite, na década de 80 isso não existia. Agora já está próximo às nascentes”, comenta Amanuá, da tribo Kamayurá.

Diante disso, eles chamaram as lideranças para conversar. Os mais velhos têm interesse em retornar às suas terras de origem, que também ficariam fora da Reserva. Nolf também pôde debater com as lideranças do Xingu sobre os desmatamentos. “Meu esforço é viabilizar contato com o Instituto Socioambiental (ISA), o contato com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fema) para oficializar um acordo de cooperação entre órgãos governamentais, índios e pousadas para tornar oficial a ação de fiscalização das áreas próximas às nascentes, que ficam fora do parque”, explica Nolf.

Os indígenas também preocupam-se com a chegada da temporada de pesca, em março, pois infelizmente ainda há muitos pescadores-predadores. Eles não são favoráveis à entrada na reserva para a pesca e caso isso ocorra sem autorização, o pescador corre o risco de ficar a pé, na beira do rio, sem barco nem motor.

Atá Catalan, proprietário do Rancho Xingu, ofereceu combustível para auxiliar a fiscalização na temporada de pesca. “Queremos ajudar a combater a pesca predatória, gente que coloca armadilha, rede e espinhel”, comenta Catalan.

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