Turismo

Reserva e desmatamento: contrastes

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 8 min

Quando o grupo de sete pessoas partiu de Bauru, no mês passado, no bimotor Sêneca III prefixo V.O.A., com destino ao Alto Xingu, nem todos poderiam imaginar o que iriam encontrar. De São Paulo, Oscar Nolf, 53 anos; de Alphaville, João Pereira dos Santos, 51 anos; de Bauru; Helder Luiz Julião Rosa, 46 anos; José Francisco Wolff, 48 anos; Roberta Mathias e Atá Catalan, e no comando da aeronave, o piloto Ciro Koizimi, 49 anos. Todos já haviam visitado a região em pescarias.

Atá Catalan e Ciro Koizimi freqüentam a Reserva Indígena do Xingu há muitos anos. Para eles, poucas novidades. Mesmo assim, é visível as modificações ao observar os comentários. Nolf e Pereira estiveram no Xingu em agosto de 2003 e ficaram surpresos com a rapidez com que o desmatamento aproximou-se da reserva. “A derrubada, feita a correntão, quase eliminou a mata que há menos de seis meses enfeitava, protegia e dava vida ao trecho entre os rios Kuluene e Sete de Setembro”, comenta, indignado Nolf.

Da aeronave, era possível conferir a quantidade de lavouras de soja existentes. “São enormes extensões de terra, com uma ampla gama de tons verde, dependendo da variedade e ponto de maturação das plantas, com poucas áreas de mata, mesmo junto aos rios. E onde não tem rio, tem pasto”, acrescenta Nolf.

Ao mesmo tempo que é possível observar o desmatamento, existem áreas preservadas, verdadeiros oásis vistos do céu. Depois, ao aproximar-se da Reserva Indígena do Xingu, a preservação é evidente. Além disso, a relação de respeito entre os povos fica bastante marcante.

Com exceção de Atá Catalan e do piloto Ciro Koizimi, que em muitas oportunidades estiveram na Reserva, todos estavam “debutando” no parque. Koizimi conta que a primeira vez que participou do Kuarup (cerimônia dos mortos) interagiu bastante com os povos. “Eles até me pintaram, com tintas produzidas com urucum e jenipapo. Fiquei um tempão para eles fazerem os desenhos, parecia quase incolor, depois mandaram eu me lavar no rio”, lembra Koizimi.

Nessa hora aconteceu o imprevisível, a pintura ficou escura na água e não saía. “Chegando em casa, passei de tudo, sabão, gasolina de avião, até bombril e nada tirava aquela tinta. Fiquei uns 15 dias sem sair de casa. Acho que demorou uns 30 para tirar tudo”, comenta, sorrindo, o piloto.

Histórias curiosas é que não faltam para aqueles que puderam conhecer esse maravilhoso lugar. As mulheres observam, fazem seus trabalhos manuais e acompanham o dia-a-dia da aldeia, sem muitos movimentos. Mas a atmosfera que permanece na Reserva é tão agradável como surpreendente. Para o bauruense Helder Luiz Julião Rosa, conviver com os indígenas foi uma experiência singular. “Fiquei fascinado em poder viver um pouco da cultura e da tradição indígena, talvez tenha sentido o mesmo que o Orlando e sua mulher sentiram quando foram viver ali”, acrescenta Rosa. “Gostaria, sem dúvida, de voltar mais vezes, quero conhecer mais sobre eles. Farei isso através do Atá.”

Outro bauruense, José Francisco Wolff, também encantou-se com a visita. “Foi uma grande satisfação participar e conviver alguns momentos ao lado de grandes personagens, comandantes da nossa cultura indígena. Ver de perto o que só vemos em filmes, livros, jornais e revistas. Sem contar o riquíssimo visual da região, que é de deslumbrar”, finaliza Wolff.

Interferências do branco

No primeiro contato com a aldeia Yawalapiti, algumas interferências da civilização. Na casa do cacique Aritana, a energia solar se faz necessária para dar suporte à estação de rádio. No artesanato, a influência das miçangas industriais é visível. Mais fácil de trabalhar do que as tradicionais sementes, as índias misturam as matérias-primas e fazem colares, brincos e outros adornos, abusando do colorido, uma característica do bom gosto indígena. É claro que elas preservam sua cultura de diversas formas, produzindo cerâmicas, redes com tramas e esteiras.

João Pereira dos Santos lembra das palavras do cacique Aritana: “Ele ficava puto com Orlando Villas Bôas por não dar presente, chinelos de dedo. E o Orlando dizia que o uso de chinelos iria deixar seus pés mais finos e logo logo eles não conseguiriam andar pelas trilhas descalços e não subiriam em árvores”. Por isso, Pereira preocupa-se com a “invasão” do homem branco. “Poderia descaracterizar muito a vida daquelas comunidades, pois iriam levar de tudo que é ruim para eles, como: bebidas, presentes, dinheiro e até prostituição”.

A busca pela sobrevivência influencia a cultura. “Me impressionou a velocidade com que nossos costumes vêm influenciando seus hábitos. Vi índio com vergonha, praticando política, virando comerciante, procurando mais comodidade através de um anzol. Enfim, desenvolvendo certos interesses que não percebi na ‘pajelança’ mais velha”, comenta Rosa.

Saúde da tribo

A saúde no parque é coordenada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). A execução das Ações da Atenção Básica de Saúde Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal do Estado de São Paulo. No posto Leonardo Villas Bôas há uma unidade de saúde, com atendimento médico, odontológico e ambulatorial.

A equipe, além de atuar no Posto, visita periodicamente as aldeias, atendendo toda a comunidade. “Às vezes, a gente fica até uma semana na aldeia. É muita gente para atender”, explica A dentista Raquel Pacagnella, que é de Ribeirão Preto e está na Reserva há três anos. Como as outras pessoas que prestam atendimento aos indígenas na área e saúde, Raquel fica 30 dias no parque e 15 dias em casa.

“A própria prática do trabalho nos oferece uma relação multicultural, pois são 14 povos com línguas diferentes e culturas diferentes”, comenta a enfermeira Patrícia Rech, paulistana, que também está no Xingu há três anos. “Eles têm uma medicina própria - à base de remédios e espiritual - há o pajé e o raizeiro. Aí, a gente aprende muita coisa também”, salienta Patrícia.

A médica Rosana Borges de Carvalho é de São Paulo e estava na Reserva há apenas 15 dias quando ocorreu a visita da reportagem do Jornal da Cidade, no dia 16 de janeiro deste ano. Mesmo assim, Rosana ficou surpresa com as condições encontradas. “Eles são certinhos, não têm problemas de higiene, não é tão grave como eu imaginava. Eles não fazem nada perto das casas (dejetos), não são fedidos. Estão sempre nadando no rio. Não tem comparação com o pronto-socorro de São Paulo”, lembra, sorrindo, a médica Rosana.

Ela comenta que a vida ativa colabora com a saúde do indígena. “Na gravidez, ninguém engorda mais de seis quilos. Eles também têm o hábito de comer frutas.” As doenças mais comuns são as respiratórias. “Hipertensão somente nas aldeias próximas à civilização. E caso de diabetes só vi um, mas dizem que tem mais uma pessoa”, conta ela.

Esse contato direto com as comunidades indígenas fez com que as profissionais tivessem que incorporar certos hábitos. “Aprendemos seus costumes, nadamos no rio, fazemos beiju pela manhã”, comenta Patrícia.

“Também comemos carne de caça como capivara, anta, cobra, macaco, paca e peixe, muito peixe e frutinhas”, dizem. “A gente nada todo dia, o rio Tuatuari é maravilhoso”, lembra a dentista Raquel. Com a falta de recursos e de energia, existe gerador no Posto, mas nem sempre tem combustível para mantê-lo, as profissionais usam métodos alternativos. “Eu aprendi a não usar o motorzinho, porque aqui a gente só tem um e quebra, fica sem energia. Uso uma técnica de fazer restauração manualmente. E eu tenho gostado, não quebra, não tem barulho.”

Para ela, a maior dificuldade é a comunicação. “O mais difícil é chegar no diagnóstico por causa das diferentes línguas. Mesmo tendo um tradutor, há sentidos diferentes. As pessoas aceitam o tratamento muito bem. Eu faço a restauração do que é possível e em alguns casos há a necessidade de extração”, diz Raquel.

Apaixonadas pelo Xingu e seus índios, as profissionais de saúde sente-se bastante à vontade entre os povos. A maior preocupação é relacionada às interferências causadas por produtos industrializados. “De acordo com relatos dos mais velhos, tinha muito pouca dor de dente”, comenta. Agora há a necessidade de tratamento. Elas buscam opções para fazer o trabalho preventivo. “Além da parceria com a Colgate, que envia periodicamente escova, creme e fio dental, assinamos um convênio com a USP de Ribeirão Preto, que vai enviar grupos de alunos para prevenção e assistência. São 4,2 mil pessoas na Reserva e fica difícil a prevenção”, diz Patrícia.

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Visitas são rigorosas

Visitar uma reserva indígena não é nada fácil. Além de estar preparado para enfrentar o choque cultural, às vezes sem o recurso mínimo de um banheiro, é preciso estar atento para não interferir em seus costumes. Além disso, é necessária autorização da Funai ou um convite das lideranças.

Segundo informações, os indígenas do Xingu pretendem oficializar junto à Funai mecanismos para receber turistas interessados na cultura indígena. Dessa forma, os visitantes poderiam passar um dia ou dois na tribo e conhecer seus rituais e danças, além do contato com toda a vida na aldeia.

O custo de uma diária em uma aldeia sairia algo em torno de R$ 500,00, levando em consideração que, para chegar lá, é necessário percorrer um trajeto de nove horas de barco pelos rios Xingu e Tuatuari, saindo do Rancho Xingu. Outra opção seria um vôo fretado em Canarana, com Gilson Rocha, na Canatur Locação e Turismo, que sai a R$ 1.500,00 em seis pessoas. De Bauru a Canarana são 1.300 quilômetros, que podem ser feitos de carro ou via táxi aéreo. Um vôo fretado custa cerca de R$ 8 mil.

Em Canarana, a opção de hospedagem é o Hotel Tangará, administrado desde sua fundação, há 18 anos, por Edite Strelow, que oferece excelentes acomodações e um café da manhã espetacular. Para se ter uma idéia, são vários tipos de bolos, pudins, frutas, sucos e pães caseiros. Na formação de Canarana, os aviadores estacionavam suas aeronaves em frente ao Hotel Tangará, um marco na história da cidade.

O Rancho Xingu, de propriedade do bauruense Atá Catalan, recebe visitantes para passeios ecológicos e pescadores na temporada de pesca, que vai de 1 de março a 31 de outubro. Ele também faz contato com a Reserva para verificar a possibilidade de visitas, com agendamento antecipado.

• Serviço

Rancho Xingu (14) 3223-5237 e 3227-9735

www.ranchoxingu.com.br

Canarana Locação e Turismo (66) 478-1359

Hotel Tangará (65) 478-1214

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