Jornalistas, equipes de TV, câmeras, entrevistas coletivas, depoimentos, correria. O supervisor de obras Carlos Alberto de Souza, 38 anos, nunca pensou que estaria no centro disto tudo em algum dia de sua vida. No entanto, desde a última segunda-feira, quando um jornal carioca revelou a suspeita de que ele poderia ser o menino Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos, seqüestrado em 1973 no Rio de Janeiro, seus passos têm sido acompanhados de perto por leitores, ouvintes e telespectadores de todo o Brasil.
Funcionário da empresa Colorado Construções e Telecomunicações há mais de dez anos, Carlos Alberto retornou ontem de manhã de Casa Branca (SP), onde coordenava a instalação de postes de sustentação de cabos de telefonia. Foi onde ele ficou sabendo que a investigação sobre esta suspeita tinha sido divulgada.
“Eu estava trabalhando na beira da rodovia e começaram a chegar equipes de TV por lá. Eu não estou preparado para isto. Sempre achei que meu nome só apareceria nos jornais quando eu morresse, nas notinhas de falecimento”, brinca.
Logo que chegou a Bauru ontem, por volta de 11h, ele foi diretamente para a sede da empresa, no Parque Vista Alegre. Duas equipes de reportagem da Capital e uma jornalista do Rio de Janeiro já o acompanhavam desde anteontem à tarde. Apesar de sua disposição e boa vontade em atender a todos os veículos da imprensa que o procuraram, Carlos Alberto estava visivelmente cansado.
Ele comenta que sempre teve desconfianças quanto à sua origem e a possibilidade de não ser filho biológico de seus pais, visto que tem pele clara e olhos azuis, enquanto seus pais são morenos e seus irmãos, negros. No entanto, a relação com o caso Carlinhos só foi levantada há cerca de um ano.
“Eu fui procurado pelo Programa SOS Crianças Desaparecidas, do Rio de Janeiro, que recebeu uma carta anônima relatando sobre a minha pessoa e relacionando minha história com a do menino seqüestrado. Começamos a trabalhar nisso e eu aguardava a coleta do material para o exame de DNA, que confirmaria esta hipótese”, diz.
Neste período, Carlos Alberto conversou diversas vezes com a mãe do menino Carlinhos, Maria da Conceição Ramires da Costa. Ele ressalta que não havia intenção de divulgar a investigação, mesmo por parte do SOS Criança, apesar de todos saberem da repercussão até internacional que o caso já teve.
“Tratamos isto com sigilo por um ano, porque sempre foi uma dúvida minha perante minha família, nunca tinha relacionado isto com o caso Carlinhos e sabíamos o estardalhaço que a suspeita poderia causar. Agora que estourou, a única coisa que eu posso fazer é esperar o exame de DNA”, afirma.
Por volta de 14h30, Carlos Alberto foi conduzido até a Delegacia de Investigações Gerais (DIG), onde o presidente do Instituto Vital Brazil, Oscar Berro, realizou a coleta do material para a análise de DNA. Neste momento, mais de dez equipes de TV e diversos jornalistas de Bauru, da Capital e do Rio de Janeiro acompanhavam o supervisor de obras.
“Muitos vão falar que eu sou mais um que quer aparecer. Mas é justamente o contrário. Eu poderia ter saído ‘latindo’ sobre isto para todo mundo, mas não fui. O Luiz Henrique (Oliveira, gerente do SOS Crianças Desaparecidas) deixou claro que isto poderia acontecer, de estar toda a imprensa aqui atrás de mim e agora, não há nada a fazer”, conforma-se.
Mágoa
Carlos Alberto se diz um pouco magoado com a cobertura que a imprensa vem dando ao caso, especialmente por conta de declarações publicadas em um jornal da Capital que ele afirma não ter feito. “Colocaram que eu disse que havia 80% de chances de eu ser o Carlinhos, mas eu jamais falei sobre isso. As pessoas já estão colocando palavras na minha boca e isto pode prejudicar tudo. Eu não posso negar que há evidências, mesmo o aspecto físico é semelhante, mas precisamos esperar o exame”.
O supervisor de obras comenta que diversas emissoras de TV já ofereceram propostas e convites para que ele participe de programas para contar sua história. “Mas eu quero esclarecer este fato antes”, indica.
Carlos reitera que não estava preparado para a divulgação do caso e que ainda não conseguiu pensar no que pode acontecer daqui para frente. “Se o teste de DNA der negativo, todo mundo mete o pé em mim e eu continuo a procurar a minha origem. Se der positivo, é uma situação totalmente diferente. Hoje, eu não sou o Carlinhos, mas preciso pensar em tudo o que pode acontecer quando esse resultado sair”, conclui.