A suspeita de que o supervisor de obras Carlos Alberto de Souza, 38 anos, que mora em Bauru e diz não lembrar da infância, possa ser o Carlinhos, menino seqüestrado aos 10 anos no Rio de Janeiro em agosto de 1973, é recheada de mistérios. Coincidências à parte, há controvérsias que podem mudar o rumo da história até que o resultado do exame do DNA seja divulgado e o caso, totalmente esclarecido.
Um dos pontos nebulosos da história é que o registro da casa onde, de acordo com a certidão de nascimento, Carlos Alberto nasceu em 1965, na rua Nicola Constantino, 1-79, no Vila Popular Ipiranga, revela que a transação foi firmada em 1968. Nessa data a casa foi comprada por Silvio de Souza, avô de Carlos Alberto.
A família podia estar morando no imóvel três anos antes da transação, quando o menino nasceu. Mas o intrigante é que embora o avô fosse um vigia ferroviário, pessoa simples de hábitos conservadores, a transação foi firmada no Rio de Janeiro, onde Carlinhos, o Carlos Ramires da Costa, foi seqüestrado.
Outra coincidência de locais é o fato de Maria Izabel de Souza, que segundo o registro de nascimento é mãe de Carlos Alberto, e sua irmã, Cleuza de Souza, terem morado no Rio de Janeiro no final da década de 60 e início da década de 70.
Consultada sobre o porquê da transação ter sido firmada no Rio de Janeiro, Cleuza garante desconhecer o fato. “Eu não sabia disso. Meu pai nunca mudou de Bauru. Eu não sei porque a transação imobiliária foi feita no Rio”, diz.
Para deixar a história mais intrigante, uma vizinha da casa que foi da família Souza entre 1968 e 1977, diz que nunca viu Carlos Alberto de perto. Maria Aparecida de Araújo, 52 anos, que nasceu nesta rua e que tinha 13 anos quando Maria Izabel, aos 15 anos, engravidou, diz que só viu o bebê de longe.
Ela pondera que, naquela época, ser mãe solteira, situação de Maria Izabel, era uma vergonha. “Os pais reprovaram a atitude da filha e tentaram esconder a gravidez. Mantinha a jovem escondida em casa”, conta.
Pouco tempo depois do nascimento do menino, período que a vizinha não soube precisar, a família deixou o Jardim Popular e mudou-se para o outro lado da cidade, no Jardim Redentor. “Depois disso, perdemos o contato. A única coisa que eu posso afirmar é que vi a Maria Izabel grávida. Eles diziam que a criança tinha olhos azuis e cabelos claros porque o pai era magro, alto e de pele clara.
Maria Aparecida lembra que não chegou a ver o menino andando. “Eles já tinham mudado daqui”, reafirma. Ela confirma que o pai de Maria Izabel era ferroviário, de hábitos muitos simples.
Considerando que há 30 anos as viagens para o Rio de Janeiro era extremamente dificultosas, fica a pergunta: porque um ferroviário simples iria sair de Bauru para firmar a compra e venda de um imóvel a cerca de 800 quilômetros? Se o proprietário anterior da casa era carioca, quem ele era?
Embora não seja ilegal fazer a transação em qualquer Estado brasileiro, é intrigante, especialmente quando aparece a cidade do Rio de Janeiro, onde a história de Carlinhos começou. Pela lei, o imóvel só pode ser registrado no próprio município, mas a escritura pode ser lavrada em qualquer localidade.
"Ganhei uma mãe”"
Carlos Alberto de Souza se emociona ao falar da mãe de Carlinhos, Maria da Conceição Ramires da Costa. “Eu a conheci anteontem (terça-feira) pessoalmente. Anteriormente, havia conservado apenas por telefone com ela. Entre nós aconteceu algo especial. Quem presenciou o encontro se emocionou junto comigo. Eu disse que ganhei uma mãe, independente do resultado do exame de DNA”, disse ontem. O resultado deve sair em dez dias.
Carlos Alberto diz que a mãe dele, a pessoa que o criou e dedicou carinho a ele, foi sua avó, Ana Terezinha de Souza. “Ela foi quem fez o papel de mãe. A Maria Izabel nunca teve afinidade comigo. Nós tivemos muitos problemas”, conta.
Enfático no que diz, ele garante que não fará exame de DNA com Maria Izabel. “Eu não fui atrás disso. Foi o pessoal do Programa SOS Crianças Desaparecidas, do Rio de Janeiro, que veio atrás de mim. Se o resultado for positivo, eu vou pedir explicações para Maria Izabel”, afirma.
Neste caso, o supervisor de obras diz que vai querer saber de Maria Izabel como ele veio parar em Bauru. “Vou fazer um estardalhaço”, promete.
Ele garantiu desconhecer que seu avô viajava para o Rio de Janeiro. “Se ele era carioca e se viajou para o Rio de Janeiro, eu desconheço”, diz. Sobre sua infância, ele faz questão de frisar que se lembra de muito pouco. “Da escola, eu lembro de alguns colegas”.
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Dois anos de diferença
O Carlinhos seqüestrado no Rio de Janeiro em 1973 nasceu em 21 de junho de 1963, segundo informou sua mãe, Maria Conceição Ramires da Costa.
Já Carlos Alberto de Souza, conforme certidão de nascimento registrada em Bauru em 12 de outubro de 1965, nasceu no dia 23 de setembro de 1965, portanto dois anos e três meses depois do Carlinhos do Rio.
Apesar do primeiro nome ser o mesmo, não há mais coincidências entre os registros dos dois. O Carlinhos seqüestrado foi registrado como Carlos Ramires da Costa enquanto que o menino de Bauru foi registrado como Carlos Alberto de Souza.
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Desavença familiar
A falta de entendimento entre Maria Izabel e Carlos Alberto veio à tona, ontem, quando ela tentou justificar a distância entre ambos, apesar de, segundo ela, serem mãe e filho. Ele foi criado pelos pais de Maria Izabel - Silvio e Ana Terezinha de Souza.
“Quando meus pais morreram, deixaram a casa do Jardim Redentor. Ele (Carlos Alberto) foi morar lá. Nós éramos quatro herdeiros e eles queriam vender o imóvel e pediram para ele sair. Acho que ele não gostou porque não deram nada para ele”, afirma.
O supervisor de obras contesta a versão de Maria Izabel. “Ela autorizou eu a ficar na casa. Eu não queria, mas ela insistiu com a minha mulher. Nós pegamos todo o dinheiro que tínhamos e até o que não tínhamos e fizemos uma reforma.”
Depois da casa reformada, os herdeiros pediram para ele sair do imóvel. “Eu não queria participação na herança. Queria apenas respeito pelo que eu tinha feito. Eles venderam a casa e não pagaram os gastos da reforma”, ressalta.
Carlos Alberto reclama da situação em que ficou. “Fiquei sem o dinheiro e sem a casa. Se não fosse minha sogra, eu, minha mulher e minhas duas filhas estávamos na rua”, frisa. Para ele, a partir disso, Maria Izabel e seus irmãos deixaram de existir. “A partir daí acabou tudo. Além da desconfiança que eu tenho em relação a ela, ela ainda foi aprontar essa”, diz.