Jaú - Um projeto piloto viabilizado pelo Serviço Agroindustrial Integrado (SAI) de Jaú (47 quilômetros a Leste de Bauru) e a Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento (UPD) de Barra Bonita vai preparar os pescadores da região para a criação de tilápias em tanques-rede no rio Tietê, capacitando-os desde o processo de produção até a venda da mercadoria. A iniciativa está abrangendo inicialmente um grupo de cerca de 50 pescadores de Barra Bonita e Igaraçu do Tietê.
De acordo com a supervisora do SAI na região de Jaú, Luciana Piva Miranda de Almeida Prado, o objetivo é oferecer uma nova alternativa de geração de renda aos pescadores, que atualmente se dedicam apenas à atividade extrativista.
“A proposta principal é a criação de peixes, que provavelmente vai gerar aumento de renda, melhoria de qualidade de vida e desenvolvimento local”, explica.
A previsão é de que os criadouros comecem a ser instalados no segundo semestre deste ano no rio Tietê. Inicialmente, para cada grupo de cerca de cinco pescadores, serão disponibilizados 17 tanques-rede (estruturas submersas no rio e cercadas por telas).
De acordo com o assistente técnico da UPD, José Reinaldo Spigolon, em um período de aproximadamente quatro meses, cada estrutura terá capacidade para gerar até 600 quilos de peixes.
A partir da criação das tilápias, segundo a supervisora do SAI, o projeto de capacitação também deve oferecer condições para que os pescadores se dediquem a outras linhas de produção, como o aproveitamento dos resíduos e a possibilidade de fabricação de couro por meio da pele do peixe.
“Além de vender a carne, é possível aproveitar os resíduos para o curtimento. O couro poderá ser curtido de forma artesanal e utilizado para fazer casaco, saia, colete e até mesmo sapatos”, afirma. “Como Jaú tem um pólo calçadista talvez seja possível absorver esse produto”, completa.
Segundo Luciana, o projeto de capacitação foi idealizado a partir de diagnósticos do SAI que apontaram o potencial da região para a atividade. A escolha da tilápia ocorreu pela facilidade de criação e comercialização, além da possibilidade de aproveitamento dos resíduos dessa espécie.
Os investimentos para a instalação dos tanques-rede devem ser levantados por meio de financiamentos junto ao Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos (Ceape).
Capacitação
Dentro do cronograma de implantação do projeto, terá início hoje em Barra Bonita um curso para capacitação dos pescadores, cujas aulas devem abranger custos de produção, comercialização e administração rural. Para março, está previsto o início de um treinamento sobre as técnicas de curtimento e aproveitamento da pele da tilápia.
Com a preparação técnica dos integrantes, de acordo com Luciana, o próximo passo será a criação de uma associação e futuramente de uma cooperativa de produtores de tilápia.
“Eles devem começar a aprender a trabalhar juntos e ver os benefícios de se atuar em grupo, como ter maior poder de negociação e venda. Sozinho é muito difícil de conseguir resultados para entrar no mercado”, explica.
Além do SAI e UPD, estão envolvidos na iniciativa a prefeitura de Barra Bonita e o Sindicato dos Pescadores. O SAI é ligado a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), órgão da Secretaria de Estado de Agricultura e do Abastecimento, e ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A UPD também é um órgão vinculado ao governo do Estado.
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Couro
De acordo com a professora da Universidade Estadual de Maringá, Maria Luiza Rodrigues de Souza, especialista em processamento de peles de peixes, o couro de tilápia é um produto de grande resistência, que pode ser utilizado em vestuário, calçados e artigos em geral como bolsas e artesanatos.
Na avaliação dela, o produto destaca-se pela beleza, qualidade e sofisticação, entretanto ainda seria pouco explorado no País. “Ainda tem muita coisa para ser feita. Eu acho que o Brasil poderia ser um dos maiores produtores e exportadores de couro de peixe”, avalia.
Maria Luiza afirma que, atualmente, existem apenas quatro associações de pescadores processando a pele de tilápia de forma artesanal no País. Além disso, há pequenos curtumes que se dedicam ao processo industrial. Entretanto, segundo ela, as produções ainda seriam bastante tímidas.
“Se nós começarmos a fazer esse tipo de trabalho em cooperativas, quem sabe não poderíamos começar a exportar essa matéria-prima”, afirma.
Segundo ela, o couro de peixe é comercializado em média por R$ 250,00 o metro quadrado. Ela afirma que o processamento não exige equipamentos sofisticados, mas seria encarecido pela mão-de-obra. O trabalho leva cerca de quatro dias e passa pelas etapas de preparação da pele do peixe (limpeza e hidratação), curtimento e acabamento. “É um processo que requer dedicação e paciência, mas qualquer pessoa pode fazer”, diz.
Em março, a professora deve ministrar o curso sobre as técnicas de processamento do couro da tilápia para o grupo de pescadores que participa do projeto de capacitação na região de Jaú.