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O caso Carlinhos


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Continua rendendo para a imprensa o chamado “Caso Carlinhos”. Desde agosto de 1973 o garoto seqüestrado no Rio de Janeiro de vez em quando reaparece no Interior fluminense ou de Minas Gerais. Agora foi a vez de Bauru ter o seu lugar no noticiário, já que estamos carentes de cassações, inundações e apagões.

Alguém suspeitou que um bauruense de 38 anos pode ser o Carlinhos redivivo, embora em agosto de 1973, quando se deu o desaparecimento do garoto carioca, o nosso Carlos já fosse aluno no Grupo Escolar do Redentor. A imprensa detesta detalhes que derrubem pautas. O importante é o espetáculo que o assunto pode proporcionar. Até a Glória Maria, repórter do “Fantástico”, apareceu por aqui em elegante terninho branco.

“Seqüestrou” a mãe do Carlos e a trancafiou num hotel para que a concorrência a ela não tivesse acesso. O fato provocou, segundo me disseram, reações iradas do Ratinho contra um delegado local. Sobrou para quem não tinha nada a ver com o esconde-esconde e sequer tem meios legais para obrigar que alguém dê declarações e muito menos de impedir o seu direito de ir e vir.

O saudoso pensador Pierre Bourdieu deixou muitas reflexões sobre o interesse da imprensa em suspeitas que podem ser banais para os outros, mas que são extraordinários para os editores. Até lamenta a condição dos jornalistas, “condenados a oferecer cotidianamente o extra-cotidiano”. Aí o lugar de destaque que conferem ao extraordinário ordinário. É uma limitação terrível: a que impõe a perseguição do furo.

Para ser o primeiro a ver e a fazer ver alguma coisa, está-se disposto a quase tudo. Nessa corrida de fazer antes dos outros, ou a fazer diferente dos outros, acaba-se por fazerem todos a mesma coisa. A busca da exclusividade, que, em outro campos do saber, produz originalidade, a singularidade, na imprensa resulta na uniformização e na banalização.

O tema criança sempre rendeu muito para o espetáculo televisivo. Os telespectadores se emocionam com o reencontro de pais e filhos separados pelo destino. Assistimos perplexos a polícia de Taiwan com o garoto Iruan tirado à força dos braços de tios e vizinhos. O problema é que as imagens chocantes são apresentadas na tevê e ninguém se preocupa em aprofundar os fatos. A criança teve que aprender uma nova língua, quando ainda mal sabia falar a materna. Conviveu com pessoas totalmente estranhas e com hábitos exóticos. Depois de adaptado, um grupo de homens invade a casa em que o menino morava e o arranca com violência dos braços das pessoas que o criavam, e ainda o colocam num avião de volta para a casa em que nasceu no Brasil. O trauma estava estampado na face de Iruan. O que justifica o apego feroz da família paterna pela criança? Contas bancárias, terras deixadas pelo pai? O que será dessa criança massacrada, quando crescer? Se essa história fosse um filme eu já teria deixado a sessão no meio para não ver o final. Provavelmente trágico...

Muitas vezes a imprensa perde a oportunidade de mostrar a importância social do incidental. Veja o caso do ministro do Trabalho Ricardo Berzoini que levou uma tortada na cara. Os repórteres se preocuparam mais em saber do que era feita a torta do que em analisar a importância (se é que tem alguma) do gesto. Ficaram atrás da identidade da autora quando o importante era saber se o povo achou justo, ou não, submeter a vexame o ex-ministro da Previdência. Aquele que mandou para a fila do INSS todos os velhinhos com mais de 90 anos para provarem que estavam vivos. Uma espécie de Dóris, personagem de “Mulheres Apaixonadas” que também fazia crueldades com os idosos. E ele declara esperar leis rigorosas para acabar com esse tipo de delito que vem fazendo vítimas em todo o Brasil... Maluf, Genoíno. Pessoas que praticam o avesso do próprio discurso. Provavelmente, se depender de Berzoini, depois da lei contra o porte de armas vamos ter a lei contra o porte de tortas. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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