A diferença básica entre o homem e os animais não está apenas na racionalidade, mas no fato de nascer. “O homem nasce duas vezes. Ele nasce e depois tem que nascer no mundo humano. Ele leva mais 12 meses fora da barriga para fazer o que o animal faz já na hora que nasce. Ele tem uma gestação social”, explica a psicóloga Carmem Maria Bueno Neme, a Pilé, professora de psicologia clínica na Unesp de Bauru.
Nesse sentido, o ser humano depende de outro ser humano, não só para suprir necessidades biológicas, mas também para estabelecer vínculos afetivos. Afinal, se desde cedo um bebê não se sentir seguro, terá problemas mais tarde.
“Para sobreviver psiquicamente, o homem precisa de outro ser humano. O viver com o outro é básico”, determina a psicóloga. Mesmo assim, ela admite que gerenciar esse processo de convivência é uma tarefa árdua e que pode trazer conflitos.
No universo, existem pessoas e pessoas, limites e prioridades. Algumas pessoas são mais abertas e precisam de maior contato; outras são mais fechadas e naturalmente exigem um contato menor. Assim, existem pessoas que têm necessidade de um tempo maior sozinhas, gostam disso e se sentem bem. Já outras precisam de mais presença.
Entretanto, Pilé alerta que a presença física não quer dizer ausência de solidão. “A pessoa pode estar numa multidão e, interiormente e intimamente, estar sozinha, por não estar conseguindo compartilhar. Ela não consegue estabelecer uma troca com o outro, nem afetiva, nem de comunicação social mesmo.”
Essa barreira, geralmente, é imposta pela própria pessoa. As únicas exceções são dadas quando as características pessoais provocam esse distanciamento. Por exemplo, se a pessoa é muito chata, dominadora ou pegajosa, pode repelir naturalmente os outros.
“Mas existem também as pessoas que não permitem a proximidade do outro. Ela mesmo se isola”.
Patologia
Todas as diferentes posturas apresentadas pela psicóloga Carmem Neme são consideradas normais. Mas existe um tipo de solidão que é parte de um problema maior e incide em pessoas que tiveram dificuldades de vínculos durante a infância. Quem foi perturbado, complicado e inseguro quando criança, pode acabar desenvolvendo uma forma de se relacionar com os outros também muito desconfiada, amedrontada de forma até patológica.
Pesquisas mostram que os primeiros vínculos que a criança tem na infância, vão determinar em larga escala o tipo de vínculo que ela irá estabelecer na vida adulta.
A psicóloga ressalta também que relatos apontam a solidão a dois como o pior dos tipos. Pois é uma situação de casamento ou de relacionamento amoroso em que a comunicação já não existe mais. Dessa forma, as pessoas vivem muito próximas fisicamente, mas psiquicamente numa distância enorme. “É como se fosse um fosso entre uma pessoa e outra”.
Essa solidão também pode se dar no âmbito familiar, onde as pessoas vivem juntas, mas muito distanciadas em termos de comunicação e de afeto.
“Esse é o pior tipo de solidão. Você está junto fisicamente, mas não consegue uma pontinha de comunicação com o outro”.