A solidão, seja a patológica ou a individual, sempre existiu. Mas no mundo moderno se tornou paradoxal.
Com o advento da Internet e da agilidade de todos os outros meios, a comunicação se tornou mais rápida e aproximou as pessoas. Entretanto, as pesquisas comprovam que elas estão cada vez mais sozinhas.
Para comprovar esta tese basta olharmos ao redor e verificar que as famílias estão cada vez menores, nosso rol de amigos está mais reduzido, bem como o nosso tempo para conversar.
“Aparentemente na aldeia global, as pessoas estão mais juntas. Mas o espaço de intimidade está menor. Os reallitys shows comprovam isso. Eles dão a sensação de se tornar íntimo daquelas pessoas observadas na vida cotidiana. Você vê aquilo todo dia, passa a “conhecer” a pessoa e até imagina laços de amizade”, comenta a psicóloga Carmen Maria Bueno Neme.
Hoje, as pessoas conversam mais via e-mail ou por telefone, mas compartilham cada vez menos o que pensam e o que sentem. As estruturas sociais também são outras.
Uma cidade universitária como Bauru, há cerca de dez anos era povoada por estudantes que viviam em repúblicas que contavam com, no mínimo, mais de quatro moradores. Muitas vezes, casas grandes eram alugadas por oito, dez universitários. Hoje, o perfil de república é outro: três ou duas pessoas dividem casas e apartamentos menores ou optam por morar sozinhas.
Medo
A psicóloga aponta que o ser humano é plástico aprendem a viver sozinhas, mas o individualismo é um sinal da atualidade. “Apesar da nossa vida estar mais devassada, está cada vez mais difícil viver junto.”
Da mesma forma em que querem estar sós, as pessoas têm muito medo da solidão. Ao ponto de checarem em casa e ligarem rádio, tevê e outros eletrodomésticos que fazem barulho para não se sentirem sozinhas.
Mesmo assim, isso também não pode ser considerado solidão. Pode ser apenas uma maneira da pessoa ficar de bem consigo, apenas dando um tempo
“Elas se cercam com medo da solidão e na verdade estão cada vez mais sós. Além disso, existe o medo da solidão no sentido da pessoa ficar sozinha afetivamente o que a leva a ficar ansiosa, extremamente exigente, pegajosa nas relações. É muito comum isso, na ânsia de não ficar sozinha a pessoa acaba cavando exatamente esse resultado.”
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Sozinhos apontam prós e contras
“Sou só por opção. Eu adoro a minha companhia!”, dispara a dona de casa Marilena Berriel Joaquim, que ficou viúva há nove anos e desde então mora sozinha.
Apesar de adorar a companhia dos netos, filhos e amigos que sempre lhe enchem a casa, confessa que o silêncio pós-visitas é muito confortador.
Marilena revela que sempre teve e tem uma vida social muito ativa. Cuida do serviço de rua, gosta de fazer sua própria comida, faz ginástica todos os dias, papeia na Internet, sai com as amigas, canta no coral Arte Viva, toca violão e guitarra (que comprou depois que foi em um show da Marisa Monte) e está planejando ir sozinha para a Austrália, encontrar a neta mais velha que está fazendo intercâmbio.
“Hoje, eu percebi que tenho uma facilidade para encerrar etapas. Estou mais seletiva com tudo e não preciso da companhia de ninguém para sair. Se quiser ir ao cinema e não tiver ninguém, eu vou do mesmo jeito. Sozinha e sem problema nenhum, nenhum.”
É claro, que Marilena sentiu a viuvez e que no começo as coisas foram mais difíceis. Mas hoje ela declara: “Solidão tem quem quer”.
“Eu conheço pessoas que ficam arrasadas com o fato de estarem sozinhas, mas eu não. Acho que hoje tenho a vida que todo mundo pediu a Deus, aliás digo até que ganhei da vida mais do que pedi e, por isso, ninguém me vê para baixo, nem que precise de botox.”
Quem também vive só é o decorador Paulo Burian, que, em meio a festas e muito Carnaval, aponta que, muitas vezes, a solidão o ataca em plena multidão.
“Não é sempre. Mas às vezes, nessa vida toda agitada, a coisa acaba pegando e você se vê numa situação que não é a sua e assuntos que não são os seus. Envolve emprego, atividade profissional e funcional, mas nem sempre é a sua realidade ou aquilo que você gosta de fazer consigo.”
Mas quando isso acontece, Burian sente que precisa resgatar algo dentro dele. “É como se sentisse saudade de mim.”
Para matar essa saudade ele procura os amigos, sai para tomar chope e conversar, ouvir música ou simplesmente não fazer nada. “Isso me acorda e não me deixa alheio a todos”.
O fato de morar sozinho também não abala a estrutura emocional do decorador. Aliás, ele julga este espaço como essencial e seguro e diz não haver nada melhor para espantar a sensação de estar sozinho do que voltar para casa.
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Isolamento deve ser evitado
Segundo o psiquiatra João Maurício Bolzan, a identificação da solidão é um processo altamente subjetivo. Afinal, existem pessoas que moram sozinhas e gostam da situação.Não tem companhia fixas e não se importam. Outras moram com outras pessoas e se sentem só mesmo com a companhia de quatro, cinco pessoas.
Esse quadro é resultado da forma como a pessoa foi criada. “Muitos pais, ao invés de criar os filhos para o mundo, criam-nos para eles e muitos se sentem despreparados para enfrentar a vida e acabam se isolando e se sentindo só”, avalia o médico.
Ele aponta que a solidão só é patológica quando fica em um grau acima do tolerável e o paciente passa a expressar a sua dor e desconforto em relação ao problema. Nesses casos, os corretivos seriam, além da psicoterapia, a medicação com antidepressivos e o aumento da convivência.
“A primeira medida é evitar o isolamento, procurar amigos, um clube, uma excursão ou atividades em grupo que hoje existem da primeira à 15.ª idade”, afirma.
O que não pode ocorrer é a pessoa, ao se sentir só, entrar num casulo ainda maior.
Entretanto, Bolzan adverte que para todo e qualquer ser humano, a cada 24 horas do dia é necessário um período de recolhimento interior, para se refletir e estar consigo. Esse momento pode variar entre 15 minutos ou algumas horas. Não existe uma determinação, o limite, de acordo com o médico, é dado pela necessidade e o bom senso.