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Entrevista da Semana: Brunoro culpa Tanzi no caso Parmalat

Rodrigo Allegro
| Tempo de leitura: 11 min

Elo da co-gestão Palmeiras-Parmalat de 1992 a 1997, José Carlos Brunoro, que após seu envolvimento como gerente esportivo na parceria entre o clube e a multinacional abriu sua própria empresa de marketing esportivo, diz que a grave situação da Parmalat não tem nada a ver com os investimentos feitos no esporte e que a parte esportiva é uma gota d’água no escândalo envolvendo o presidente, Calisto Tanzi, e seus filhos, que estão presos acusados de desvio de dinheiro deixando um rombo estimado entre US$ 14 bilhões e US$ 18 bilhões.

O consultor esportivo se diz surpreso com todo o caso de corrupção e que jamais poderia prever um fim como este a uma das empresas mais bem-sucedidas na associação de uma marca ao esporte.

José Carlos Brunoro, 53 anos, nasceu em Santo André, é formado em educação física e tem mais de 30 anos dedicados ao esporte, principalmente ao vôlei, modalidade em que começou a sua carreira em 1965 como jogador do Pirelli, em sua cidade natal.

Brunoro esteve em Bauru na última terça-feira, na sede do Serviço Social do Comércio (Sesc). Na ocasião, o consultor em marketing esportivo passou seu conhecimento e a importância da atividade física para o trabalhador, além de mostrar todos os meandros para se elaborar um projeto bem-sucedido que agregue lucro, sucesso e credibilidade para o cliente e a marca a ser associada.

Antes da palestra, Brunoro falou à reportagem do Jornal da Cidade sobre a crise que passa a multinacional italiana, sua passagem pela Parmalat como gerente esportivo no Brasil e, claro, sobre marketing esportivo, além da sua participação na elaboração do código disciplinar no esporte e também a emoção de dirigir um dos times de vôlei mais vitoriosos do mundo, o Pirelli. Confira os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Seria inevitável perguntar ao senhor a respeito de todas essas acusações que a multinacional Parmalat vem sofrendo, e sobre a prisão do presidente da empresa, Calisto Tanzi, e seus filhos.

José Carlos Brunoro - Quando eu saí, em 1997, a empresa estava no seu auge em relação à credibilidade, faturamento e publicidade. Sobre esta situação de desvios, lavagem de dinheiro e corrupção, foi uma surpresa para mim e ao mesmo tempo uma decepção principalmente pela perda que o esporte mundial vai sofrer com a falta de investimentos em diversas modalidades.

JC - Em seus anos como funcionário da empresa o senhor teve contatos com Calisto Tanzi?

Brunoro - Eu tinha sim, e eram dos mais diversos contatos. Desde a situação da empresa em relação a co-gestão, futuro da marca no esporte, marketing, ou simplesmente conversar horas e horas após as reuniões sobre futebol, já que o Calisto Tanzi, fundador e presidente da Parmalat, era um apaixonado pelo esporte. Ele era um homem inovador e de visão, tanto na área comercial quanto esportiva, por isso a surpresa foi ainda maior com todo este escândalo.

JC - Na opinião do senhor, Calisto Tanzi é o principal responsável por tudo isso que está acontecendo com a empresa? O senhor previa um fim como este para a Parmalat?

Brunoro - Como principal dono e fundador da empresa ele é sim o maior responsável por toda essa encrenca, e tem mais, com essa imagem negativa que começa a se construir, eu acho que vai apagar tudo que ela (Parmalat) fez pelo esporte mundial. E agora cabe às leis da Itália investigar e punir todos os responsáveis, haja visto que não é só o presidente o responsável.

JC - E no que diz respeito ao tempo em que o senhor era gerente esportivo, poderá acontecer algum tipo de investigação ou solicitação de depoimento?

Brunoro - Na época em que eu trabalhei para a empresa, tudo era controlado. Havia cotas, e não podia gastar um centavo a mais, além de prestar contas mensalmente sobre tudo que acontecia aqui no Brasil. Então, eu assumo todos os meus atos e estou tranqüilo no caso de ser chamado para falar a respeito da minha passagem pela empresa.

JC - Como surgiu o convite para ser gerente esportivo da Parmalat?

Brunoro - Para minha surpresa, em 1992, veio um convite da Parmalat para gerenciar todo processo esportivo no Brasil. Eles já estavam acompanhando o meu trabalho e queriam uma pessoa com experiência no esporte, na área administrativa esportiva e que fosse brasileiro.

JC - Quais os motivos para o Palmeiras ser o escolhido nessa co-gestão?

Brunoro - Já estava decidido por eles (Parmalat) que seria o Palmeiras o clube a ser investido, mas eles não sabiam a maneira como fazer essa co-gestão. No momento eu aceitei e fui contratado como gerente de esportes do clube aqui no Brasil. As negociações basicamente se deram por três motivos. Primeiro, a direção da empresa queria um time com origem italiana. Segundo, com uma grande torcida e terceiro, que tivesse uma infra-estrutura com estádio e centro de treinamento, além de aceitar essa co-gestão que foi inovadora no futebol brasileiro.

JC - Como era lidar com as acusações dos dirigentes e torcedores dos outros times que diziam existir o esquema Parmalat?

Brunoro - Era tranqüilo, porque nós tínhamos a confiança da diretoria, dos jogadores, já que o projeto era comandado em parceria pela direção do Palmeiras e da Parmalat e em nenhum momento nós nos deixamos influenciar por essas acusações.

JC - Fale mais sobre o suposto esquema Palmeiras-Parmalat.

Brunoro - Para você ver como era tranqüilo, na época nós até brincávamos que existia o esquema Parmalat, mas era o esquema de trabalho, esquema de apostar na contratação, na hora certa, de jovens craques. Foi uma época que ninguém vai conseguir apagar estas conquistas.

JC - Nas negociações de compra e venda de jogadores no Palmeiras, como era o meandro de tudo isso (valores, divisões, empréstimos)?

Brunoro - Quem comprava os jogadores era o Palmeiras. A gente repassava o dinheiro como cotas de patrocínio para o clube poder efetuar a compra, depois nós dividíamos a folha de pagamento mensal dos jogadores. Já no caso dos atletas que eram vendidos para fora do País, o Palmeiras ficava com 10% em torno do valor da venda e a empresa com o restante.

JC - A direção da empresa ficou satisfeita com a co-gestão? Até o momento em que o senhor era o dirigente, aponte alguns números em termos de investimentos, números e marketing esportivo.

Brunoro - Acho que sim (risos). Em 1995 a Parmalat no Brasil já representava cerca de 40% dos negócios mundiais da companhia. E em 1996, a Parmalat atingiu o topo do ranking no País com relação à venda de leite e laticínios, que era o seu principal objetivo desde 1977. Já no esporte, principalmente no futebol, através da co-gestão com o Palmeiras até 1997 a empresa obteve 300% de lucro com o futebol, enquanto que nas outras modalidades, como hóquei, basquete e vôlei, o lucro era somente de 50%.

JC - Por que a co-gestão foi desfeita entre o Palmeiras e a Parmalat? Não teria acontecido por ciúmes, desgaste ou arrependimento do presidente do Palmeiras, Mustafá Contursi, em dividir o clube com uma empresa do Exterior?

Brunoro - Sinceramente, eu já não estava mais lá, eu saí em 1997 e a parceria ficou mais três anos, e somente representantes das duas diretorias é que podem responder com propriedade sobre o fim da co-gestão. Pode ter acontecido um pouco de ciúmes e desgaste nas relações após um certo tempo de parceria sim, na época até aconteciam algumas discordâncias de opiniões, mas logo tudo era resolvido e prevalecia o nome Palmeiras.

JC - Mudando de assunto, como foi o início da sua carreira no esporte, principalmente no vôlei?

Brunoro - Minha carreira no vôlei começou cedo, aos 14 anos, como jogador do Pirelli em Santo André. Depois eu recebi o convite para ser treinador das escolinhas de vôlei do clube. Mas ao invés de receber como jogador, eu recebia para dar aulas nas categorias de base da Pirelli. Já em 1975, eu cheguei à Seleção Brasileira Feminina de Vôlei, como preparador físico, mas sempre conciliando a carreira de preparador físico da seleção e a de jogador.

JC - Como surgiu o convite para ser treinador da seleção juvenil feminina de vôlei?

Brunoro - Em 1978 eu fui chamado para ser técnico da seleção juvenil feminina, e logo no primeiro ano nós fomos campeões sul-americanos. Em seguida, a Pirelli resolveu trabalhar com o vôlei e eu fui convidado para ser o treinador profissional do time masculino, já que eu tinha uma certa experiência.

JC- Fale sobre a emoção de dirigir o Pirelli, um dos times mais vitoriosos do mundo nas décadas de 70 e 80. A conseqüência desse projeto foi a conquista de muitos títulos. Cite alguns.

Brunoro - Foi sensacional! Mas antes eu encerrei a minha carreira como jogador em 1977 e também saí da seleção feminina para me dedicar somente a este projeto inovador. Em 1980 veio o primeiro grande título de campeão brasileiro, mas somente o William e o Moreno faziam parte. Já na década de 80, com o próprio William, vieram ainda o Xandó, Domingos Maracanã, Montanaro e nós ganhamos todos os títulos possíveis que existiam no mundo. Nós fomos oito vezes seguidas campeão paulista, tetracampeão brasileiro, tricampeão sul-americano e um mundial de clubes em 1984.

JC - Sua primeira experiência na área administrativa esportiva foi na própria Pirelli?

Brunoro - Foi sim, em 1987, quando o diretor de esportes saiu e eu fui convidado pela direção do clube para conciliar a carreira de técnico e diretor. Eu comandei de 1987 a 1992 atletas desde a categoria de base até modalidades olímpicas. Logo em seguida eu resolvi encerrar a minha carreira de treinador para me dedicar exclusivamente à área administrativa, já que eu tinha adquirido ao longo dos anos uma grande experiência como técnico e dirigente esportivo.

JC - Falando sobre marketing esportivo, qual a importância dele no esporte e como a sua empresa, Brunoro Sports, trabalha neste meio?

Brunoro - O que a gente faz na empresa é criar uma situação diferente da que está aí, colocando toda minha experiência na área de administração e marketing, e passando para o mercado a importância do esporte em todos os segmentos. Desde a divulgação de uma empresa, a parte de vendas e, principalmente, gerar negócios e lucros através do esporte, e com isso agregar o valor a uma determinada marca.

JC - O time da cidade, Bauru Basquete, campeão paulista e brasileiro, teve que parar este ano por falta de patrocínio. Hipoteticamente, como a Brunoro Sports ajudaria nesta relação marca/cliente para o time retornar o quanto antes às quadras?

Brunoro - A parte do patrocínio hoje em dia é muito difícil, por causa da visibilidade. Em primeiro lugar, eu acho que deveria ter um trabalho forte e localizado entre o poder público, clube e patrocinadores locais para poder reerguer o time, já que um é ligado ao outro. Em segundo lugar, colocar o time em atividade de novo, mesmo sem os grandes jogadores. E mostrar para a população que, mesmo sendo um time inferior ao que ela estava acostumada a apoiar, é melhor do que não ter nenhum representando a cidade.

JC - E tentar associar o clube a uma determinada marca?

Brunoro - A marca é mais difícil, as pessoas às vezes acham que é fácil conseguir uma marca para um clube. Primeiro é preciso construir esta marca novamente para depois poder associar ao patrocinador que espera, na maioria das vezes, um retorno imediato.

JC- Falando sobre a relação das marcas no esporte e nos grandes eventos esportivos, o que o senhor acha sobre a suposta interferência da Nike no resultado da Copa do Mundo de Futebol realizada na França em 1998?

Brunoro - Uma besteira! Jamais uma das maiores, e se não for a maior de todas, na relação marca-esporte iria se submeter a uma situação dessas, que acarretaria uma queda violenta na bolsa de valores e nas suas vendas no mundo inteiro. Na minha opinião foi falta de bom senso da comissão técnica do Brasil colocar o Ronaldinho para jogar, já que algumas horas antes de uma decisão tão importante, como foi aquela em 1998, o atleta teve uma convulsão e estava sem condições físicas e psicológicas para entrar em campo.

JC - O senhor foi convidado pelo ministro Agnelo Queiroz para participar da elaboração do código disciplinar do esporte. Como foi este processo? Quais as impressões positivas e negativas sobre o código?

Brunoro - Foi uma honra para mim ser chamado para participar da elaboração do código, já que eu era o único não advogado do grupo. Mas um dos motivos, segundo os advogados e o ministro, foi o meu conhecimento nas outras modalidades esportivas, para a gente poder adequar o código sem cometer injustiças.

JC - Na opinião do senhor, o código vai ser respeitado e interpretado?

Brunoro - O código, na realidade, só vai ser bem interpretado daqui alguns anos, porque existem punições inovadoras e bem duras, como penas comunitárias em que os atletas terão que prestar serviços para comunidade ao cometerem infrações das mais diversas, como agredir um árbitro, um companheiro de profissão, doping e, além disso, as penas serão de forma padrão para todas as modalidades desportivas, e não somente um código para o futebol e outro para as modalidades como basquete, vôlei e outras.

JC - Estamos em ano de olimpíadas. Qual a sua expectativa para a performance do Brasil em Atenas?

Brunoro - São boas, nos esportes coletivos eu acho que o vôlei masculino e feminino, além do basquete feminino, brigam por medalhas. E no individual, as ginastas Daiane dos Santos e Daniele Hipólito, e o Robert Scheidt no iatismo, eu vejo todos com ótimas chances de conseguir um pódio olímpico.

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